Desarmamento: Ameaça nuclear exige nova estratégia internacional

Washington, 07/03/2005 – Os Estados Unidos devem fazer grandes concessões em matéria de armas nucleares se quer evitar que novos países adquiram essas armas, advertiu a Fundação Carnegie para a Paz Internacional. No mínimo, o governo de George W. Bush deve renunciar ao projeto de novas armas nucleares, como as chamadas "rompe-bunker", capazes de penetrar objetivos muito abaixo da superfície da terra, recomendou a Fundação em seu novo relatório, intitulado "Universal Compliance: A Strategy for Nuclear Security" (Cumprimento universal: Uma estratégia para a segurança nuclear). Alem disso, o governo norte-americano deve reafirmar seu compromisso de eliminar a longo prazo seu arsenal nuclear, exortou a instituição, com sede em Washington.

O relatório de 220 páginas pretende ser um modelo de negociação entre países nucleares e não nucleares para deter a proliferação de armas atômicas e iniciar o processo para sua eliminação. O documento vem à luz dois meses antes da prevista revisão do Tratado de Não-proliferação Nuclear e em meio a tensões pelo recente anúncio da Coréia do Norte de que já conta com armas nucleares e, ainda, pelas acusações de Washington ao Irã de que este país possui um programa nuclear secreto. Bush, que incluiu esses dois países no "eixo do mal", considerou "inaceitável" que Pyongyang ou Teerã tenham armas nucleares e insistiu em que todas as opções para resolver esse assunto estão "sobre a mesa".

O tratado foi muito debilitado nos últimos anos apesar de 173 países não-nucleares terem renunciado, em 1995, ao desenvolvimento de armas nucleares em troca do compromisso das cinco potência (Estados Unidos, Grã-Bretanha, França, China e Rússia, os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU) de eliminarem seus arsenais a longo prazo. Em 1998, Índia e Paquistão, nenhum deles signatário do Tratado, fizeram seus primeiros testes nucleares abertos. Depois, os atentados de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos elevaram o espectro da obtenção de armas atômicas por grupos terroristas. Em 2003, soube-se que uma rede de engenheiros, empresas e indivíduos espalhados em pelo menos nove países e encabeçados pelo cientista paquistanês A. Q. Khan havia vendido projetos e equipamentos nucleares para pelo menos três países durante vários anos.

Desde então, a Coréia do Norte, um dos clientes de Khan, anunciou que havia desenvolvido armas nucleares, e alguns líderes políticos, principalmente do Brasil e do Japão, sugeriram que revisariam a decisão de não possuírem armas nucleares. Por outro lado, o governo Bush – que se opôs ao Tratado de Proibição Total de Testes Nucleares e renunciou ao Tratado de Mísseis Antibalísticos assinados com a Rússia em 1972 – pede urgência ao Congresso para que autorize o desenvolvimento de novos tipos de armas nucleares. O informe da Fundação Carnegie, cujo projeto circulou no ano passado entre vários governos e foi, em seguida, revisado para levar em conta suas posições, é um esforço para estabelecer o contexto e os princípios básicos de um regime mais rígido de não-proliferação que inclua signatários e não-signatários do Tratado de Não-proliferação Nuclear, entre eles Paquistão, Índia e Israel.

O documento parte da premissa de que o atual contexto do Tratado não pode resolver a ameaça nuclear que o mundo enfrenta. Também dá como certo que "os Estados Unidos não podem, sozinhos, se contraporem à ameaça nuclear, nem mesmo com pequenas coalizões dos dispostos e, portanto, a cooperação internacional é indispensável para o sucesso de qualquer regime alternativo. Entretanto, para obter tal cooperação, os EUA e outras potências nucleares declaradas devem persuadir os outros países de que o novo regime será "equilibrado e justo", advertiu John Wolfsthal, um dos autores do documento. "Devemos garantir aos países não-nucleares que esta não é uma nova forma de colonialismo e que a ali também se aplica aos Estados Unidos", afirmou.

O informe detalha seis "obrigações" que o novo regime deve incorporar. A primeira é "tornar a não-proliferação irreversível", proibindo, entre outras medidas, a aquisição de urânio enriquecido e usinas de reprocessamento de plutônio a qualquer país que já não as possua, em troca de uma provisão garantida de energia. Outras obrigações seriam a elaboração de um "mapa" para o desmantelamento real e verificável dos arsenais nucleares,a proteção e vigilância rígida de todos os materiais fósseis e a aceitação das mesmas obrigações que os países nucleares signatários do Tratado por parte de Índia, Israel e Paquistão. (IPS/Envolverde)

Jim Lobe

Jim Lobe joined IPS in 1979 and opened its Washington, D.C. bureau in 1980, serving as bureau chief for most of the years since. He founded his popular blog dedicated to United Stated foreign policy in 2007. Jim is best known for his coverage of U.S. foreign policy for IPS, particularly the neo–conservative influence in the former George W. Bush administration. He has also written for Foreign Policy In Focus, AlterNet, The American Prospect and Tompaine.com, among numerous other outlets; has been featured in on-air interviews for various television news stations around the world, including Al Jazeera English; and was featured in BBC and ABC television documentaries about motivations for the U.S. invasion of Iraq. Jim has also lectured on U.S. foreign policy, neo-conservative ideology, the Bush administration and foreign policy and the U.S. mainstream media at various colleges and universities around the United States and world. A proud native of Seattle, Washington, Jim received a B.A. degree with highest honours in history at Williams College and a J.D. degree from the University of California at Berkeley’s Boalt Hall School of Law.

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