CIDADE DO CABO, 05/05/2008 – Durante mais de uma década, médicos cubanos têm preenchido parcialmente a lacuna deixada por médicos sul africanos que têm saído do país em grande quantidade à procura de melhores salários e de oportunidades de trabalho. Segundo Fidel Radebe, director de comunicação no Departamento de Saúde sul africano, actualmente há 134 médicos cubanos no país ao abrigo de um acordo entre os governos de Cuba e da África do Sul.
Os primeiros médicos cubanos que vieram para o país ao abrigo deste acordo chegaram em 1996 — dois anos depois do Congresso Nacional Africano (ANC) ter chegado ao poder.
A Cuba socialista era um firme apoiante da luta contra o apartheid na África do Sul, tendo o ANC e outros movimentos esquerdistas na África do Sul sempre tido uma afinidade natural com a luta cubana contra o “neo-imperialismo.”
Avançando para 2008, Radebe não pôde confirmar se estavam em curso negociações para trazer um novo grupo de médicos para o país. “No futuro, o Departamento poderá considerar o recrutamento adicional de médicos cubanos conforme estipulado no acordo entre governos, mas ainda não se finalizaram todos os pormenores,” afirmou.
A IPS perguntou a Radebe como é que os médicos cubanos têm sido recebidos na África do Sul. Alguns dos seus pacientes e colegas têm manifestado duras críticas. Os pacientes queixam-se que alguns médicos não têm formação apropriada e que não falam fluentemente nenhuma das 11 línguas oficiais sul africanas, incluindo o inglês.
Este tipo de resposta, no entanto, está em acentuado contraste com inúmeras comunicações e artigos escritos por académicos e jornalistas elogiando o Governo cubano pelo sistema médico acessível existente e pelos elevados padrões de formação naquele país. Alguns números apontam que existe um médico para cada 170 cubanos — algo que a África do Sul não tem qualquer esperança de alcançar no futuro próximo, com apenas 74 médicos para 100.000 cidadãos.
Sejam quais forem as críticas, não se pode negar, dizem alguns comentaristas, que os médicos cubanos trouxeram recursos valiosos a zonas distantes do país onde muitos médicos sul africanos se recusam a trabalhar devido à insegurança, distância, e ausência de remuneração apropriada.
“Estes médicos oferecem um importante serviço em locais onde muitas vezes só há um médico de chamada 24 horas por dia, sete dias por semana,” diz Mike Waters, porta-voz da Aliança Democrática (AD) na oposição.
Harald Pakendorf, antigo redactor de um jornal e actualmente analista político independente, concorda que os médicos cubanos desempenham um importante papel nos cuidados de saúde primária na África do Sul. Acrescenta que o Governo devia reter os médicos sul africanos, formados a custos elevados para os contribuintes.
“O Governo devia nomear administradores hospitalares competentes que podem dar atenção a coisas como financiamento e aquisição de equipamentos. Os médicos devem cuidar dos doentes, não se devem preocupar sobre a disponibilidade de seringas, suturas, xompressas e medicamentos,” declarou Pakendorf.
Quanto à crítica que os médicos cubanos muitas vezes não possuem as competências necessárias, Radebe afirma que todos os médicos têm de se registar junto do Conselho Sul Africano das Profissões de Saúde e, portanto, têm de satisfazer determinados padrões profissionais.
Segundo Waters, o número de vagas para especialistas médicos varia entre 51 por cento na província central do Estado Livre e uns elevadíssimos 86 por centro na província do Limpopo a norte, perto do Zimbabué. E é nestes espaços despovoados que os médicos cubanos são acolhidos com entusiasmo.
A situação no Cabo Oriental, a província mais pobre da África do Sul, também é desesperada. Não só há falta de médicos de clínica geral, mas também há uma procura de docentes para a escola de medicina na Universidade de Walter Sisulu em Mthatha. Actualmente, um total de 32 especialistas cubanos ensina na escola de medicina.
Karuna Krihanlal-Gopal, director interino de marketing, comunicação e desenvolvimento na Universidade, diz que os formadores médicos cubanos “certamente trazem uma vasta experiência [para a África do Sul], tendo trabalhado em circunstâncias difíceis semelhantes antes de chegarem ao país. São docentes muito dedicados.”
Em 2007, os médicos cubanos com 10 anos ou mais de experiência que trabalham em hospitais e instituições governamentais sul africanas receberam uma remuneração mensal de 3.800 a 4.400 dólares, de acordo com números apresentados pela AD. Em termos relativos, estas quantias podem parecer elevadas, quando comparadas com os salários em Cuba, mas os médicos sul africanos que emigram para a Europa, América do Norte ou Antípodas podem frequentemente triplicar os seus salários pelo facto de trabalharem no estrangeiro.
Segundo Radebe, no passado diversos médicos cubanos optaram por obter residência permanente e cidadania na África do Sul.
De acordo com o acordo entre governos, a África do Sul também enviou centenas de estudantes de medicina para Cuba para aí se formarem. Entre 1996 e 2007, formaram-se naquele país 470 sul africanos.
Radebe afirma que existem muitos programas visando reter médicos no sistema de saúde pública sul africana — “a revitalização dos hospitais com vista a oferecer um melhor ambiente clínico para os profissionais de saúde, a melhoria das condições de serviço no âmbito dos orçamentos fixados, melhores oportunidades de progressão na carreira e de remuneração, formação especializada, o investimento nas novas tecnologias e a melhoria da administração clínica.”
Há muitas sugestões em cima da mesa. Mas implementá-las é outra questão. Entretanto, os médicos cubanos estão a desempenhar um papel crucial para colmatar a lacuna deixada pelos médicos sul africanos que não estão dispostos a trabalhar em zonas longínquas ou que procuram eles próprios melhores condições de vida no estrangeiro

