Rio de Janeiro, 13/05/2008 – O recente esforço do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em dissociar o etanol brasileiro do produzido nos Estados Unidos reconhece o grave erro político que foi para o Brasil assinar um acordo com Washington destinado a promover um mercado mundial do biocombustível.
Mas, nos últimos meses sofreu uma enxurrada de críticas contra todos os biocombustíveis, devido à alta de preços dos alimentos, qualificados inclusive de “um crime contra a humanidade”, pelo ex-relator das Nações Unidas para o Direito à Alimentação, o suíço Jean Ziegler. O memorando assinado em março de 2007, para uma aliança entre Brasil e Estados Unidos no fomento da produção de etanol em outros países tropicais, a cooperação tecnológica e a definição de normas técnicas, fundiu com os biocombustíveis dos dois países em termos de imagem internacional.
Além disso, a impopularidade mundial do presidente George W. Bush e de sua guerra contra o Iraque pode ter contribuído para a rejeição ao etanol, alcançando também o produto brasileiro. Bush anunciou em janeiro de 2007 a audaciosa meta de reduzir em 20% o consumo de gasolina em seu país, substituindo-a principalmente por etanol no prazo de 10 anos. A brutal carestia dos alimentos desde o ano passado, que causa protestos violentos em dezenas de países pobres, generalizou as acusações contra o etanol e o biodiesel por agravar essa tendência, antes limitada a setores ambientalistas e líderes políticos como o cubano Fidel Castro e o venezuelano Hugo Chávez.
O único erro na promoção dos biocombustiveis foi “a decisão norte-americana de produzir álcool de milhões”, disse o Presidente Lula no mês passado durante visita a Gana, onde o Brasil apoiará projetos de etanol com sua tecnologia. Desde então vem insistindo nas diferenças entre os programas brasileiros e norte-americanos. O etanol do Brasil, sempre referente ao álcool, por derivar da cana é muito mais eficiente na redução das emissões de gases causadores do que o milho, além de muito mais barato. O mercado norte-americano não foi invadido pelo produto brasileiro graças a fortes barreiras alfandegárias e subsídios que barateiam o etanol local para os consumidores.
O acordo com os Estados Unidos foi um erro, segundo crescentes manifestações de analistas e empresários brasileiros, como Rubens Ricupero, ex-ministro da Fazenda e ex-secretário-geral da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad). “Não creio que o memorando de entendimento entre Brasil e Estados Unidos possa ser responsabilizado” das críticas que alcançaram o álcool brasileiro, reagiu André Nasses, diretor do Instituto de Estudos de Comércio e Negociações Internacionais.
A dificuldade da opinião pública em distinguir entre os dois produtos é inevitável mesmo sem essa associação, que se limita a questões técnicas, cooperação e investimentos em terceiros países, disse Nassar à IPS. “O problema central é o modelo dos Estados Unidos”, admitiu. O impacto do etanol de milho sobre os preços seria muito menor sem as altas tarifas alfandegárias e os subsídios que protegem a produção norte-americana, e muitos já começam a separa o etanol brasileiro do norte-americano, assim, isso é “questão de tempo”, acrescentou. “Foi um erro, mas não irreversível”, disse Roberto Kishinami, consultor do Ministério do Meio Ambiente com especialista em energias renováveis. Recuperar o prestigio do álcool brasileiro “exigirá um trabalho hercúleo”, disse à IPS.
Esse custo continuará sendo inferior ao do etanol de celulose, considerado de segunda geração e cuja tecnologia se tenta viabilizar principalmente nos Estados Unidos, mas, também no Brasil, garantiu. Sobre a vantagem ambiental da cana em relação ao milho não há dúvidas, já que o etanol de milho provoca quase a mesma quantidade de emissões que a gasolina, enquanto o de cana evita 87% dessa contaminação, explicou.
O etanol dos Estados Unidos é menos eficiente e causou grandes aumentos de preços de alimentos, mas o brasileiro “não é inocente” e também contribuiu para o problema, afirmou à IPS o professor de relações Internacionais Argemiro Procópio, da Universidade de Brasília. “Ziegler tem razão”, a cana também ocupou áreas de arroz, feijões e sojam empurrando a fronteira agrícola e agravando indiretamente o desmatamento na Amazônia, acrescentou Procópio, autor de “Subdesenvolvimento sustentável”, livro publicado recentemente sobre esse e outros males brasileiros. A promoção do etanol em nível internacional, segundo este especialista, manchou a imagem do Presidente Lula, que iniciou seu governo em 2003 com uma “brilhante” campanha contra a fome no Brasil e no mundo, acrescentou. (IPS/Envolverde)


