ENERGÍA-EUROPA: A dúvida nuclear

Paris, 14/05/2008 – Organizações internacionais e governos da Europa promovem os reatores nucleares diante da mudança climática e do encarecimento do petróleo, e do gás. Mas, persistem as dúvidas sobre a segurança dessa fonte de energia. As preocupações mais angustiantes hoje na Europa se referem às centrais nucleares de Alemanha, Bulgária e França. As organizações Greepeace Internaconal e Amigos da Terra condenam a participação do banco francês BNP Paribas na construção da usina nuclear de Belene, perto do rio Danúbio, na Bulgária setentrional.

Essa central “aplicará tecnologia russa insegura, que não está autorizada na França. O BNP é o único banco do mundo disposto a participar desse projeto-dinossauro”, disse à IPS Sébastien Godinot, da Amigos da Terra. A construção da usina de Belene teve grandes atrasos. Aprovada em 1981 pelo governo comunista de Sofia, sua construção começou em 1987, segundo o projeto feito em conjunto por autoridades da hoje dissolvida União Soviética e da Bulgária. Em 1990, as obres foram paralisadas pelo colapso do bloco soviético.

Em 2002, o governo búlgaro, agora partidário da economia de mercado, relançou o projeto, com planos de operar dois reatores AES-93 e VVER-1000 fornecidos pela Atomstroyexport, o monopólio russo exportador de equipamentos e serviços nucleares. A firma alemã de engenharia Siemens e o monopólio francês Areva participam do projeto. Em 2006, o BNP recebeu o convite da Bulgária para participar de uma licitação. Seu porta-voz, Antoine Sire, disse que o banco apenas financiou “os estudos de pré-avaliação da central” e que “um segundo convite para participar de uma licitação deveria ocorrer nos próximos meses”. Sire disse que as autoridades búlgaras haviam decidido “dizer erroneamente que os estudos de pré-avaliação eram parte da construção. Mas, não estamos ali ainda”.

Godinot disse à IPS que todo o projeto é perigoso. “Está localizado em uma zona sísmica, insuficientemente protegido contra um ataque terrorista e não tem nenhum meio para processar o lixo nuclear”, afirmou. Além disso, o plano terá “efeitos negativos nas atividades turísticas e agrícolas na Bulgária setentrional”, acrescentou. Por sua vez, Yann Louvel, da Amigos da Terra, disse que a central nuclear de Belene é, também, “uma monstruosidade econômica”.

“O custo de construção estimado passou de 4 bilhões para 7 bilhões de euros em um ano (US$ 5,8 bilhões a US% 11,5 bilhões). Assim, numerosos bancos internacionais decidiram não participar do convite para se apresentar à licitação”, explicou. Louvel disse à IPS que a explicação do BNP era uma tentativa de “enganar o público”. A “decisão de construir uma usina nuclear de Belene já foi tomada, bem como a tecnologia a ser utilizada”.

Porém, a técnica nuclear russa não é a única fonte que recebe críticas. No final de abril, os governos de Alemanha e França decidiram interromper o transporte de lixo radioativo da usina francesa de reciclagem de La Hague para um depósito provisório na localidade alemã de Gorleben. Os resíduos nucleares das centrais alemãs foram reciclados durante 11 anos em La Hague para reduzir a radioatividade do lixo final e obter como derivado um combustível que possa ser usado novamente nas usinas nucleares.

A decisão de suspender o transporte de lixo radioativo teve por base um informe do alemão Instituto Federal de Pesquisas de Materiais (BAM) pelo qual os vagões especiais que transportavam os resíduos não são à prova de contaminação atmosférica e poderia não permanecer intactos em caso de acidente. O transporte que deveria acontecer em 2009 agora pode ser adiado até 2011. É possível que sejam necessários novos vagões. Segundo o BAM, os usados atualmente demonstraram ser deficientes “de maneira fundamentai”. Estes ao produzidos pela Sociedade de Serviços Nucleares.

O BAM pediu urgência à Sociedade de Serviços Nucleares a dar especial atenção à qualidade. O influente jornal alemão Die Sueddeutsche Zeitung qualificou a reprimenda pública de uma “sonora palmada”. De acordo com o BAM, a Sociedade de Serviços Nucleares usou “parâmetros arbitrários” em simulações informatizadas para testar a resistência dos vagões à radioatividade ou a um acidente. O porta-voz da Sociedade de Serviços Nucleares, Michael Koelb, admitiu que houve discrepâncias nas simulações. “Estamos horrorizados”, disse à IPS Jochen Stay, líder das organizações ambientalistas contrárias ao armazenamento de lixo nuclear em Gorleben.

“Sempre fomos muito cépticos em relação à indústria da energia nuclear, e nunca acreditamos em suas afirmações sobre a segurança de suas instalações. Mas, as condições reais de funcionamento da indústria obviamente estão além de nossa imaginação”, disse Stay em uma entrevista. Agora surge um novo escândalo na Alemanha. A promotoria de Stuttgart, 400 quilômetros ao sul de Berlim, investiga acusações sobre o uso de concreto de má qualidade na construção da central nuclear de Neckarwestheim. Os ambientalistas alemães exigem seu fechamento temporário. (IPS/Envolverde)

Julio Godoy

Julio Godoy, born in Guatemala and based in Berlin, covers European affairs, especially those related to corruption, environmental and scientific issues. Julio has more than 30 years of experience, and has won international recognition for his work, including the Hellman-Hammett human rights award, the Sigma Delta Chi Award for Investigative Reporting Online by the U.S. Society of Professional Journalists, and the Online Journalism Award for Enterprise Journalism by the Online News Association and the U.S.C. Annenberg School for Communication, as co-author of the investigative reports “Making a Killing: The Business of War” and “The Water Barons: The Privatisation of Water Services”.

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