INFÂNCIA: A educação ética como remédio

Hiroxima, 27/05/2008 – As diferentes religiões se mexeram de seus “cômodos lugares” para ajudar os mais fracos, convocadas pela Rede Global de Religiões a Favor da Infância (GNRC) à cidade de Hiroxima, no Japão. Os líderes religiosos convocados coincidiram que suas confissões devem aprender a deixar de lado suas diferenças e trabalhar juntas pelo bem de aproximadamente 2,2 bilhões de meninos e meninas.

Criada em 2000 no Japão pelo reverendo Keishi Miyamoto, presidente da Fundação Arigatou, a GNRC é a única rede de comunidades religiosas “dedicada exclusivamente a garantir os direitos e o bem-estar das crianças e dos jovens do mundo”. Seu terceiro fórum, que aconteceu de sábado (24) até segunda-feira (26), se propôs a renovar o compromisso de seus membros e pensar novos enfoques para alcançar seu objetivo de erradicar a violência, a pobreza e a degradação ambiental, que afeta os mais fracos.

“Nossa intenção é ampliar a rede a fim de fortalecer a colaboração com organizações não-governamentais e internacionais com idéias afins”, disse o presidente do comitê organizador, Samuel Koo, entrevistado pela IPS.

IPS – Até o segundo fórum, realizado há quatro anos, a GNRC era principalmente uma conferência de organizações de base religiosa. Em que se diferencia o terceiro fórum?

Samuel Koo – A partir deste fórum, convidados organizações internacionais, políticas, alguns artistas e empresários. Nos propusemos a atrair e reunir diferentes pessoas. Se apenas uma em cada cinco começar a ver as coisas de outro modo, então teremos cumprido nossa tarefa.

IPS – Existe a percepção de que os governos não fazem o suficiente para alcançar os objetivos da GNRC. Qual sua opinião a respeito?

Samuel Koo – Não creio que sejam apenas os governos. Creio que ninguém faz o suficiente. Nem mesmo as ONGs, religiosas ou laicas. Todo mundo tem de fazer mais, sem dúvida. Porque são importantes as comunidades religiosas? Todos conhecemos a influência onipresente que exercem os líderes espirituais em suas comunidades. Muita gente atende seus conselhos, por isso devem ser sócios naturais dos programas de alívio da pobreza, dos esforços para salvaguardar o planeta e conter todo tipo de violência, desde a revolução de conflitos até a posterior reconciliação. Então, o papel da religião e dos líderes espirituais é vital. Porque também é verdade que, em alguns casos, são os que fomentam a discórdia e os conflitos entre as comunidades.

IPS – O que os governos deveriam fazer para proteger os direitos das crianças?

Samuel Koo – Há duas áreas nas quais muitos governos fracassam. Um é desempenhar uma liderança inteligente e com visão de futuro, especialmente em relação ao alívio da pobreza e à proteção ambiental. Creio que é uma questão das políticas implementadas. A segunda é a disponibilidade de recursos.

IPS – O senhor acredita que os adultos fracassaram em seu papel de modelo e protetores dos menores?

Samuel Koo – Sem dúvida. Você ouviu as estatísticas mencionadas ao longo das conferências e em outros fóruns. Conhecemos os fatos. Esqueça os conflitos: pense apenas nas 30 mil crianças que morrem todos os dias, em sua maioria por causas evitáveis. A meu ver, e creio não ser o único a pensar desta forma, trata-se de um crime.

IPS – Muitos observadores acreditam que a religião se tornou um fórum de pensamento político. Como podemos despolitizá-la?

Samuel Koo – Não creio que seja possível, em especial em alguns lugares onde o Estado professa uma religião. Deve-se separar Igreja e Estado, mas mesmo assim, não se pode definir o pensamento das pessoas. Os valores emanam do pensamento religioso e se expressam na vida cotidiana, e a política faz parte dela. Enquanto praticarmos uma religião de forma saudável e aprendermos a viver em harmonia, não creio que seja importante. Política e religião se tornam um problema quando as pessoas começam a praticar jogos de exclusão.

IPS – Como podemos proteger os menores da crua realidade dos conflitos armados com uma educação ética?

Samuel Koo – Me ocorrem duas coisas. Uma é que a educação é o remédio para tudo, especialmente a educação ética. Mas, leva tempo. Mesmo assim é importante porque no processo se aprende. Não se trata de uma empresa com prazo determinado. A outra é que os conflitos armados têm diversas causas, desde étnicas até territoriais, e às vezes há um cenário religioso, para citar algumas. Trata-se da cobiça, do ódio e dos mal-entendidos dos adultos.

A GNRC tem muitas coisas para fazer a respeito. Temos de nos assegurarmos que, mesmo quando eclode um conflito, se proteja o mais possível as mulheres e as crianças. Todo episodio violento causa dano, a perda inevitável de vidas humanas e deixa cicatrizes que não se apagam em meninas e meninos.

IPS – Qual é a resposta da GNRC aos abusos de menores por membros do clero? A Rede trata deste assunto?

Samuel Koo – Creio que quando o Papa Bento 16 esteve nos Estados Unidos esclareceu muito bem o assunto. Não se trata de um problema exclusivo dos sacerdotes católicos, é geral. É um crime e deve ser castigado duramente dentro da lei. Ao mesmo tempo é uma situação muito infeliz porque são precisamente eles que têm de dar o exemplo. Os que cometem esse tipo de crime são uns poucos. Mas, por serem clérigos e líderes religiosos, um já é muito. Isso converte o ato em uma violação grave. Mas, creio que a sociedade já começou a lidar com o assunto.

IPS – O quanto é difícil chegar às organizações religiosas fundamentalistas?

Samuel Koo – Muita gente para equiparar fundamentalismo com Islã. Estou totalmente contra isso porque também há cristãos, e, provavelmente, budistas. As comunidades religiosas costumam aplicar suas próprias escrituras sagradas no sentido literal. Tenho amigos cristãos que, sem perceberem, por serem praticantes devotos, se tornaram fundamentalistas. Se alguém acredita apenas na verdade de sua religião e que tudo o mais é pecado, então é fundamentalista.

IPS – O fórum lançou um manual para educadores e líderes de jovens intitulado “Aprendendo a viver juntos: Um programa intercultural e interconfissional de educação ética”. Que uso fará a GNRC da Internet para atingir seus objetivos e poder chegar mais às crianças?

Samuel Koo – Como qualquer organização, temos um site na Internet e manejamos o correio eletrônico. Mas, com o lançamento do manual acredito que nos concentraremos mais nesse meio porque não vamos imprimir 10 milhões de exemplares. O distribuiremos via Internet em vários idiomas. Temos previsto ter mais sites e melhorar o atual para que seja mais fácil de navegar. (IPS/Envolverde)

Correspondentes da IPS

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