Dar Es Salaam, 02/06/2008 – Juma Membe oferece de porta em porta uma mercadoria que ninguém pode rejeitar em um bairro pobre da capital financeira da Tanzânia: água potável, em garrafas amarelas que enchem seu carrinho Menos de um milhão dos quatro milhões de habitantes desta cidade contam com serviço de água corrente em suas casas, segundo as autoridades. Nas zonas pobres, a rede de distribuição inexiste e a população depende de vendedores como Membe. “É um bom negócio porque as pessoas precisam de água todos os dias”, explicou o comerciante, agitado pela caminhada sob o sol abrasador. Esta situação determina que os mais pobres acabem pagando mais por esse recurso vital do que os moradores de bairros de melhor renda.
Um balde de água de 20 litros é vendido por US$ 0,16. Já a mesma quantidade fornecida por rede de distribuição custa menos de US$ 0,01, segundo a organização não-governamental WaterAid, com sede em Londres. “O consumo mínimo diário de água para todos os fins – cozinhar, beber e lavar – é calculado em 20 litros por pessoa”, disse à IPS Bem Taylor, assessor da WaterAid neste país da África oriental. Uma família com cinco membros pode chegar a gastar US$ 0,84 por dia com água, embora a maioria consuma menos para economizar dinheiro. Essa quantia é uma pequena fortuna neste país, onde um terço dos 38 milhões de habitantes vive com menos de um dólar por dia, segundo a Organização das Nações Unidas.
Após anos de negligência e mau planejamento, a rede hídrica de Dar Es Salaam carece de manutenção e da infra-estrutura necessária para fornecer água a toda população. Comunidades inteiras sobrevivem sem esse recurso e sem saneamento. Apenas 60% da população nacional têm acesso à água potável, segundo os últimos dados disponíveis, divulgados em 2004 pelo programa conjunto de vigilância do abastecimento de água e do saneamento, iniciativa da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). As autoridades locais privatizaram em 2003 o fornecimento de água nesta cidade por recomendação do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional. O serviço começou a ser prestado pela empresa City Water.
Porém, o contrato foi cancelado dois anos depois devido ao descontentamento das autoridades com a companhia, por causa da lentidão de suas obras para evitar os cortes de água, melhorar a arrecadação e acabar com as ligações ilegais. A empresa alegou que sua tarefa foi dificultada pela falta de informação sobre o mau estado da rede de tubulação antes de assumir a tarefa. A controvérsia chegou a vários tribunais do exterior. Por fim, um tribunal de Londres obrigou a City Water a entregar US$ 6 milhões ao governo da Tanzânia por descumprimento do contrato. City Water foi substituída por uma empresa estatal, a Dar Es Salaam Water and Sewarage Corporation (Dawasco).
Um dos maiores desafios das autoridades continua sendo a arrecadação, pois apenas um em cada 10 clientes paga sua conta de água, disse o porta-voz da Dawasco, Badra Masoud. Para reduzir seus custos operacionais a empresa começou a distribuir as contas e cobrá-las por seus próprios meios, para isso tendo de empregar novos funcionários, acrescentou Masoud. A empresa também lançou uma campanha para cobrar as contas atrasadas. A imprensa foi convidada a conhecer as ligações de água nas casas dos ministros e de outros funcionários e nas dependências do exército que há meses, e até anos, não eram pagas. Outra medida foi empregar veículos com alto-falantes que identificam os inadimplentes lembrando-os da obrigação de pagar. “Ninguém vai se mexer até que o obriguemos”, destacou Masoud. Em janeiro a Dawasco arrecadou o máximo histórico de US$ 1,8 milhão, o que a empresa atribuiu à esta campanha.
Em outra iniciativa para ampliar a distribuição de água, a Dawasco começou a construir pontos de distribuição locais em diferentes zonas de Dar Es Salaam onde ainda não há encanamentos. Dezenas de quiosques já têm água e se prevê abastecer mais centenas, mas, muitas dessas ligações funcionam com altos e baixos. Melania Leba cuida de um desses novos empreendimentos. O custo de um vasilhame de 20 litros é de US$ 0,04 por unidade.
“Pago à Dawasco cerca de 30 mil chelines (US$ 26) por mês e ganho outros 30 mil para mim”, contou à IPS. “As pessoas estão contentes com o quiosque porque é mais barato do que os vendedores de rua”, acrescentou. Outra encarregada de um desses quiosques, Havijawa Shabani, disse que os clientes visitam seu posto porque é conveniente e relativamente barato. “Ninguém se nega a pagar porque, comparado com qualquer sistema que tiveram antes, este é melhor”, disse. “Algumas pessoas não têm dinheiro para comprar no momento, mas trazem depois’, ressaltou. A iniciativa dos quiosques, que gera empregos e baixa o preço da água, não resolverá a escassez de água em Dar Es Sallam, mas, é um bom paliativo de emergência, disse Taylor, da WaterAid. (IPS/Envolverde)

