Bangcoc, 02/06/2008 – O secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Ban Ki-moon, acredita que sua recente visita à Birmânia foi frutífera. Mas a conflitiva história do vínculo entre a ONU e essa nação do sudeste asiático impede que se tenha muitas esperanças. Ban fundamenta sua confiança em certas concessões do homem forte do regime, general Than Shwe, a pedido das Nações Unidas para que deixasse entrar mais assistência e trabalhadores estrangeiros para ajudar as vítimas do ciclone Nargis, que atingiu o país no último dia 3. Para o secretário-geral da ONU foi significativo que o governante militar de 75 anos se reunisse com ele. Shwe se negara a receber até telefonemas de Ban nos dias seguintes ao ciclone.
“Foi muito animador por minhas discussões com as autoridades de Myanmar (como os ditadores chamam o país) nos últimos dias”, disse Ban à imprensa pouco depois de aterrissar no aeroporto Suvarnabhumi, de Bangcoc, no domingo, após sua visita de quatro dias. Acrescentou que Shwe “concordou em permitir que todos os trabalhadores internacionais de assistência operem livremente e sem obstáculos. Nos concordamos em estabelecer vários centros logísticos e abrir novas conexões por ar, mar e terra para as áreas mais afetadas”, prosseguiu Ban. O secretário-geral participou em Rangun de uma reunião com representantes e trabalhadores internacionais de assistência de meia centena de países. “O governo de Myanmar parece estar se movendo na direção correta para implementar os acordos” alcançados na ocasião, afirmou.
O êxito de Ban com a junta é muito bem-vindo por parte de agencias humanitárias internacionais como Médicos Sem Fronteiras (MSF), que tem presença na Birmânia mas que, com outras agencias, teve negado acesso a boa parte do delta do rio Irrawaddy, açoitado pelo ciclone. “Damos as boas-vindas à notícia. Desde a passagem do ciclone, há três semanas, o MSF tenta fazer chegar ao delta mais socorristas internacionais, particularmente os que possuem perícia em situações de emergência”, disse Jean Sebastian Matte, da organização, com sede em Paris. “Esperamos que agora o MSF possa enviar mais especialistas internacionais de emergência a Myanmar, e mais urgentemente à região do delta, a mais afetada”, acrescentou.
As restrições impostas pela junta aos socorristas que viajam à devastada zona sudeste do país é apenas a última manifestação da arbitrariedade da repressão no país. Em conseqüência, não só foi negado aos sobreviventes alívio urgente como água limpa, alimento, remédios e abrigo, como também o custo humano real foi mantido longe do público. Atualmente, as estimativas de vítimas mortais variam de 130 mil até 300 mil, no pior desastre natural ocorrido na Birmânia. A quantidade de afetados pelo ciclone varia de 2,5 milhões a quatro milhões.
A planície por onde passou o Nargis, com ventos de 190 quilômetros por hora e transportando um muro de água do mar de 3,5 metros de altura, tem a maior densidade demográfica dopais. Mas, as supostas concessões da junta à ONU e à Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean) seguem um caminho conhecido. Sobrevêm depois que o regime foi condenado por muitos governos ocidentais devido à sua reticência em ajudar as vítimas. A ditadura negou a entrada a estrangeiros especialistas em operações de alívio de populações afetadas por desastres.
No passado, a junta militar “fez concessões pouco a pouco quando surgiam problemas”, de modo a “reduzir as críticas internacionais”, disse à IPS o analista político birmanês Aung Naing Oo, exilado na Tailândia. “Isto é o que estamos vendo novamente. Mas, temos de ver se Shwe cumpre suas promessas nos próximos dias”, acrescentou. No final do ano passado a junta jogou uma cartada semelhante, após a condenação internacional pela brutal repressão dos protestos pró-democracia iniciados em setembro por milhares de monges budistas. Shwe concordou, então, em se reunir com o enviado da ONU, Ibrahim Gambari. Mas a esperança de uma mudança de atitude teve vida curta. Apesar de as críticas terem diminuído, o regime quebrou todas as promessas de abertura feitas por Gambari.
Na terceira visita deste diplomata nigeriano à Birmânia, o regime revelou todo seu desprezo, inclusive com uma enxurrada de críticas por parte do ministro de Informação, brigadeiro-general Kyaw Hsan. Desde o começo dos anos 90, Shwe tratou de maneira semelhante os seis enviados das Nações Unidas. Começa com sinais de concessão e depois dá uma virada hostil, reafirmando a noção de que os militares têm controle absoluto sobre o país, sem exceção. Isto também ocorreu quando não houve envolvimento da ONU. Em agosto de 2003, o general Khin Nyunt foi designado primeiro-ministro e logo revelou um “mapa do caminho” de sete pontos para a democracia.
Isso se seguiu à indignação internacional do Ocidente e inclusive do sudeste da Ásia pelos ataques e nova detenção domiciliar a que foi submetida a líder oposicionista e prêmio Nobel da Paz Aung San Suu Kyi. A dirigente continua sob prisão domiciliar, como há 12 anos. Enquanto isso, a nova Constituição, em processo de referendo, pretende perpetuar o poder da junta. Nem mesmo o referendo deste mês abriu espaço à distensão. A ameaça de prisão pende sobre os que pretendem se opor ao projeto. Os informes de fraude por parte da junta não a impediram de proclamar que 92,4% dos eleitores apoiaram sua iniciativa constitucional.
“Não se deveria permitir que a ONU caísse na armadilha de reduzir suas expectativas. É isto o que deseja o regime”, disse à IPS Debbie Stothard, da organização regional de direitos humanos Altsean. (IPS/Envolverde)

