ALIMENTAÇÃO: Cúpula agrícola sem agricultores

Roma, 05/06/2008 – A carestia de alimentos básicos e suas conseqüências nos países mais pobres são os temas que dominam a cúpula convocada pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), iniciada ontem em sua sede na capital italiana. Aproximadamente 40 chefes de Estado e de governo participam da Conferência de Alto Nível sob o lema “Segurança alimentar mundial: Os desafios da mudança climática e a bioenergia”, que terminará amanhã. Também haverá ministros de áreas afins, responsáveis de outras agências da ONU e representantes de algumas organizações não-governamentais.

Mas a busca de soluções para a carestia não pode ficar em mãos dos governos, segundo vários pequenos agricultores reunidos em um fórum da sociedade civil paralelo à cúpula. Mais de cem delegados de movimentos sociais internacionais, organizações de agricultores e grupos indígenas do Sul em desenvolvimento realizam um fórum de cinco dias sobre a soberania alimentar. O fórum Terra Preta é organizado pelo Comitê Internacional de Planejamento (IPC), rede global de organizações não-governamentais e da sociedade civil dedicada a temas agrícolas.

O IPC reúne organizações sociais representantes de pequenos agricultores, pescadores, indígenas e sindicatos de trabalhadores agrícolas. Trata-se de um mecanismo de facilitação do dialogo entre movimentos sociais e agências da Organização das Nações Unidas sobre alimentação e agricultura. “Estamos aqui para recordar aos governos que não podem adotar nenhuma decisão efetiva para resolver a crise alimentar sem consultar os que alimentam o planeta”, disse à IPS Antonio Onorati, do IPC.

“Apesar de 80% dos comestíveis do mundo procederem de seu trabalho, os agricultores não estão bem representados em instâncias oficiais”, ressaltou Onorati. “Esses escritórios costumam estar ocupados por representantes dos interesses das grandes multinacionais agroalimentares e instituições financeiras como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional que defendem maior liberalização do mercado agrícola, o que levaria a um aumento descontrolado do preço dos alimentos”, acrescentou.

Diante da sede da FAO, os agricultores instalaram uma mesa com pratos vazios em referência à fome mundial. Também houve manifestações fora do prédio da agência. “A emergência alimentar é um sintoma de fracassos sistemáticos maiores, como o impulso à produção de combustível de origem vegetal em grande escala e o controle do sistema alimentar por parte das corporações”, disse Ndougou Fall, presidente da organização de agricultores da África ocidental, Roppa. “Queremos garantir que nesta reunião não se repitam os mesmos erros do passado”, afirmou.

“As políticas liberais originaram as dificuldades que sofre a África e que afetaram, em especial, os pequenos agricultores, que já não estão em condições de vender o que produzem”, disse Fall. “Muitos abandonaram suas terras e se mudaram para as cidades em busca de um trabalho, que não encontram”, acrescentou. Devem ser analisadas as políticas liberais, prosseguiu Fall. “Os agricultores africanos, especialmente os da África ocidental, precisam de proteção para poderem se desenvolver”, afirmou. Isso inclui a questão dos biocombustíveis. “Mesmo se até certo ponto podem nos oferecer algumas oportunidades, temos algumas prioridades como alimentar pessoas antes dos carros”, ressaltou.

Roppa está entre cerca de 800 organizações que apóiam o chamado do IPC “Chega de fracassos, como de costume”. A entidade africana defende a capacitação de pequenos agricultores para que possam alimentar a sim mesmos e as populações de seus países. Mas, muitos governos não parecem interessados na proteção dos agricultores. Alguns utilizarão a cúpula da FAO para cobrar maior liberalização do setor agrícola, disse Onorati. “Nos informaram que a Comissão Européia (órgão executivo da União Européia) confirmará sua posição habitual favorável a uma maior liberalização utilizando a atual crise alimentar como argumento para convencer as nações em desenvolvimento a assinaram o mais rápido possível acordos econômicos criados pela Organização Mundial do Comércio, acrescentou Onorati. As colusões do fórum da sociedade civil serão apresentadas na cúpula da FAO amanhã, ao fim do encontro.

Os participantes da Conferência de Alto Nível discutirão soluções de curto prazo e novas estratégias de longo prazo para abordar as conseqüências do aquecimento global, a crescente demanda por biocombustíveis e o colapso do setor agrícola em muitas nações em desenvolvimento. A cúpula da FAO previa tratar os efeitos da mudança climática e dos biocombustíveis no fornecimento de alimentos, mas, devido à conjuntura atual, optou opor centrar-se principalmente na carestia de alguns produtos agrícolas. O custo de alimentos básicos duplicou nos últimos dois anos. O preço do arroz, milho e trigo atingiu níveis sem precedentes. Alguns chegaram ao seu ponto mais alto nos últimos 30 anos.

Nos próximos 10 anos, o preço de alguns produtos agrícolas seguirão tão altos como na década passada, mas abaixo do máximo atual, segundo a nova perspectiva para a agricultura realizada pela FAO e a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômicos (OCDE), que reúne 30 países do Norte industrializado. Nesse contexto pode piorar a situação de aproximadamente 850 milhões de pessoas que já sofrem fome crônica, alertou a FAO. A cúpula não é uma conferência de doadores, mas os lideres mundiais devem chegar a um acordo em uma declaração a respeito de uma solução para a crise da carestia de produtos agrícolas. (IPS/Envolverde)

Sabina Zaccaro

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