Berkeley, EUA, 05/06/2008 – A posição assumida em relação ao Irã pelo virtual candidato presidencial pelo partido Republicano dos Estados Unidos, John McCain, contradiz ações do governo de George W. Bush. Tanto McCain quanto Bush criticaram o senador Barack Obama, favorito na corrida pela candidatura presidencial pelo Partido Democrático para as eleições de 10 de novembro, por sua disposição de manter conversações diretas com adversários dos Estados Unidos, como o Irã. Consideraram tratar-se de “negociações com terroristas e radicais”, embora o governo Bush dialogue repetidamente com “inimigos” como Coréia do Norte, Irã, e Líbia.
Negociar com inimigos não é novidade na política externa de Washington, que dessa forma resolveu situações muito difíceis, especialmente durante a Guerra Fria. Obama parece acreditar que esta ferramenta pode funcionar novamente. No caso do Irã, entretanto, os Estados Unidos se mostram reticentes. Nos últimos dois anos, a secretária de Estado, Condoleezza Rice, ofereceu a Teerã um diálogo direto, mas com a condição prévia de que suspendesse seu programa de enriquecimento de urânio. A oferta foi rejeitada, porque essa condição deixaria o governo iraniano em má situação diante de seus cidadãos.
Os críticos do governo Bush analisam muitas razoes pelas quais os Estados Unidos deveriam considerar uma negociação direta com o Irã. Teerã ajudou no passado Washington a alcançar seus objetivos de política externa, abrindo o caminho para tirar do poder no Afeganistão a milícia islâmica Talibã e ajudou o governo do presidente Hamid Karzai a reconstruir a nação em 2002. Tampouco se opôs à invasão do Iraque em 2003. No ano passado, os iranianos participaram de três rodadas de conversações com o embaixador dos Estados Unidos em Bagdá. Agora, preparam uma nova reunião para os próximos meses, onde se discutirá a segurança do Iraque.
O maior obstáculo para negociar diretamente com o Irã parece ser seu presidente, Mahmoud Ahmadinejad, cujos comentários sobre a destruição de Israel e a negação do Holocausto prejudicaram severamente sua reputação internacional. Mas, não é com ele que os Estados Unidos de deveriam conversar. No complicado sistema político iraniano, é o líder religioso supremo, aiatolá Ali Khamenei, que toma as decisões-chave em matéria de política externa. No passado, Kahmenei permitiu que diplomatas de seu pais dialogassem com Washington sobre a situação política no Afeganistão e Iraque. O poder de Ahmadinejad foi exagerado no Ocidente e especialmente nos Estados Unidos Nos últimos meses, importantes figuras iranianas criticaram a política econômica do presidente, que aumentou a inflação a 25%, uma taxa sem precedentes. Nas eleições parlamentares, os aliados de linha dura de Ahmadinejad não conseguiram a maioria frente os conservadores moderados. Ali Larijani, ex-secretário de segurança nacional e líder da equipe que negociou sobre questões nucleares com a União Européia, foi eleito na semana passada presidente do parlamento iraniano. Trata-se de um político moderado que tem estreitos laços com Khamenei.
Larijani renunciou aos seus cargos anteriores em protesto pela atitude desafiadora de Ahmadinejad perante a comunidade internacional a respeito do programa nuclear. Agora, surge como uma ameaça ao chefe de Estado com vistas à eleição presidencial do próximo ano. Sua figura ofusca a imagem populista de Ahmadinejad e facilita para seus rivais argumentos para responsabilizá-lo pelos problemas econômicos do país. A pergunta agora é por que o Irã deveria dialogar com os Estados Unidos, quando desfruta de maior influência regional e se beneficia com os altos preços do petróleo. Para respondê-la é preciso entender a psicologia política iraniana.
Antes da Revolução islâmica de 1979, Teerã se manteve próxima dos Estados Unidos e de Israel e se distanciou dos paises árabes que foram seus rivais históricos. Depois dessa data modificou sua estratégia, se afastando de Washington e procurando melhorar seus vínculos com o mundo árabe, incluindo a Arábia Saudita. Agora, temerosos do crescente poder de Teerã, os paises árabes se alinharam com os Estados Unidos e compram milhares de milhões de dólares em armas, o que constitui uma ameaça para a segurança iraniana. Muitos analistas árabes acreditam que, apesar da violenta retórica em relação a Israel, a estratégia nuclear do Irã aponta principalmente para outros paises árabes.
Esse grau de desconfiança ficou evidente com os comentários do ministro das Relações Exteriores da Arábia Saudita, Saud Al-Faisal, que coloco o Irã atrás da mais recente explosão de violência política no Líbano. “Isto afetará suas relações com todos os países árabes, incluídos os islâmicos”, alertou. Embora o histórico enfrentamento do Irã com as nações árabes seja muito profundo para ser superado rapidamente, os lideres em Teerã sabem que para deter uma potencial agressão árabe são necessárias negociações com Washington.
Além disso, a fragilidade da economia, que sofre uma inflação que figura entre as mais altas do mundo, é conseqüência das sanções aplicadas a Teerã e sua marginalização dos mercados globais. Isto anulou as vantagens derivadas dos altos preços do petróleo. Para um pais onde 69% da população tem menos de 30 anos e onde 20% da força de trabalho urbana estão desempregados, negociar com Washington não é uma questão ideológica, mas de sobrevivência.
Enquanto os Estados Unidos parecem se voltar par ao dialogo com o Irã, ninguém quer garantir a reeleição de Ahmadineja. Reeleito, ou não, Washington deveria negociar com Khamenei. O rápido encarecimento do petróleo, a ineficiência das sanções econômicas impulsionadas por Washington e um improvável ataque militar norte-americano contra o Irã indicam que as políticas de Bush fracassaram. Neste contexto, a idéia de negociações genuínas com Irã – isto é, sem pré-condiçoes – se torna cada vez mais aceitável nos Estados Unidos. IPS/Envolverde
* Omid Memarian é professor associado da Escola de Pós-Graduaçao de Jornalismo de Universidade de Berkeley. Recebeu vários prêmios, incluindo o Prêmio para o Defensor dos Direitos Humanos da Human Rights Watch em 2005 e é colaborador freqüente da IPS.

