DIREITOS-ÁFRICA DO SUL: Terão de me Abater Primeiro

CIDADE DO CABO, 06/06/2008 – Lukas Mwashekele, namibiano, recusa fugir dos ataques xenófobos.

CIDADE DO CABO, 3 de Junho (IPS) – Milhares de residentes estrangeiros da Cidade do Cabo procuraram refúgio em esquadras de polícia, igrejas, centros comunitários e campos estabelecidos pelos serviços municipais de gestão de catástrofes. No dia 28 de Maio, a Cidade do Cabo tinha registado 18.861 refugiados dos ataques xenófobos que destruíram casas e pilharam lojas pertencentes a migrantes em muitos dos bairros mais pobres da cidade.

Mas alguns estrangeiros mesmo nas localidades mais afectadas da Cidade do Cabo não têm qualquer desejo de deixar as suas casas e estão determinados a aí permanecerem.

Pelo menos 42 pessoas foram mortas em Gauteng, onde igual violência contra os estrangeiros começou no dia 12 de Maio, antes de alastrar a Mpumalanga e KwaZulu-Natal.

A polícia na Cidade do Cabo afirma que não mantém registos separados de mortes associadas à xenofobia desde que os ataques aqui começaram, mas os refugiados relatam ter visto numerosos corpos.

“Terão de me abater primeiro antes de eu me ir embora,” afirma Lukas Mwashekele, com veemência. Veio para a África do Sul proveniente da Namíbia há 15 anos e é agora cidadão sul africano. Vive na localidade de Du Noon, onde eclodiu a violência xenófoba no dia 22 de Maio, e possui um próspero negócio de construção e uma taberna nesta localidade predominantemente xhosa.

A maioria das lojas em Du Noon está vazia agora, as ruas atulhadas com a evidência da pilhagem — sofás sem estofos, roupas abandonadas, portas partidas e outros detritos.

Mwashekele conta que foi até pior em 2001 “A última vez que fomos evacuados em consequência da violência contra estrangeiros, perdi tudo. Isso não vai acontecer outra vez,” declara enquanto atravessa a localidade de carro.

Em Janeiro de 2001, alguns dias depois do Ano Novo, Du Noon sofreu uma onda de violência contra estrangeiros depois de uma luta entre residentes locais e estrangeiros ter ficado fora de controlo. Centenas de pessoas foram evacuadas, incluindo Mwashekele e a família. Passaram seis meses num campo com tendas antes de regressarem a Du Noon.

Embora Mwashekele continue a apoiar a decisão de deixar a localidade em 2001, também se arrepende. “Depois de partirmos, os residentes locais começaram a pilhar as nossas casas e também a minha companhia de construção e a taberna. A polícia não fez nada para proteger as casas e os pertences das pessoas evacuadas.”

“Também perdi cerca de 250.000 randes em materiais, equipamento e stock. Os rufiões até levaram as cortinas,” recorda. “Portanto, embora tivéssemos sobrevivido, perdemos a nossa vida em todo o caso. Foi muito difícil reconstruí-la. Mas a história não se vai repetir. Vou lutar desta vez, e os vizinhos estão cientes disso. Até agora, ninguém tentou entrar na minha casa.”

A situação em Du Noon é controlável, diz Mwashekele, apesar dos surtos regulares de pilhagem e violência contra os poucos estrangeiros que restam.

“Sentimos que as pessoas olham para nós com desconfiança. Também não falam connosco,” afirmou. “Sabem que somos estrangeiros porque não falamos fluentemente a língua local, o xhosa. É assim que eles distinguem os estrangeiros imediatamente, pondo à prova os nossos conhecimentos de xhosa.”

A maioria dos seus empregados fugiram de Du Noon, temendo pelas suas vidas. “Isto significa que não posso ganhar a vida, apesar de ter alguns trabalhos de construção alinhados que precisam de ser terminados,” afirma, de pé atrás do balcão da sua Taberna Queens. “A minha taberna também está parada. Poucos residentes locais parecem estar dispostos a vir aqui e a maioria dos estrangeiros partiu.”

Segundo Mwashekele, é difícil para os migrantes encontrarem trabalho em Du Noon. Não só porque não possuem os documentos certos, mas porque os sul africanos se recusam a contratá-los. É por esse motivo que ele começou a trabalhar por conta própria.

“Não estamos a roubar empregos como se diz muitas vezes, estamos a criar os nossos próprios empregos, simplesmente porque sabemos quão difícil é ganhar a vida aqui. Os residentes locais não contratam estrangeiros porque não gostam de nós”, afirma.

A vida para toda a gente em Du Noon também é complicada pelo facto de, visto que quase todas as lojas foram pilhadas, os residentes agora têm de se deslocar a Table View, a 15 minutos de viagem de automóvel, para comprarem produtos básicos como alimentos ou sabão.

As janelas da maioria dos negócios foram partidas, alguns desses negócios foram queimados e vandalizados e os passeios estão atravancados com mercadorias abandonadas.

“Algumas lojas aqui pertenciam a somalis e a chineses, mas fugiram todos; os seus negócios foram pilhados e estão vazios. “Por causa disso, temos de ir a Table View para comprar pão e outros produtos básicos. O que me enraivece é que os sul africanos que estão a viver aqui queixam-se disso. Não parecem compreender que esse é o resultado das suas próprias acções!”

Miriam Mannak

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