Nações Unidas, 12/06/2008 – Enquanto milhões de pessoas em todo o mundo continuam morrendo por causa da Aids, altos funcionários da Organização das Nações Unidas e ativistas reiteram o chamado para aumentar os fundos destinados a combater a epidemia. “Houve mais de dois milhões de mortes no ano passado”, disse o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, aos delegados presentes a uma conferência sobre HIV/Aids que deliberou na terça e quarta-feira, organizada pelo fórum mundial. “Esta situação é inaceitável”, ressaltou Ban.
A brecha entre os recursos disponíveis e as necessidades reais constituem um impedimento ao acesso à cobertura universal para a prevenção e o tratamento do HIV (vírus da deficiência imunológica humana), causador da Aids. “O mundo não conseguirá o acesso à prevenção do HIV e ao seu tratamento se não houver um aumento significativo dos recursos disponíveis para os países de baixa e média renda”, alertou Ban. Em 2007, o gasto mundial com prevenção e tratamento do HIV chegou a US$ 10 bilhões. Cerca de 32 milhões de pessoas estão infectadas com o vírus ou doentes de Aids em todo o mundo.
Estudos da ONU mostram que no ano passado apenas três milhões de pessoas em nações de renda baixa e média tiveram acesso a tratamentos anti-retrovirais, a melhor arma encontrada até agora para minimizar os efeitos do vírus. A África subsaariana tem 68% dos casos do total de adultos de todo o mundo infectados com o HIV e 90% do total de crianças. Na região foram registradas 76% das mortes relacionadas com a Aids em 2007, de acordo com as Nações Unidas.
Embora em nível mundial tenha ocorrido uma queda no número de contágios, a ONU indica que alguns países permanecem em uma posição especialmente vulnerável. Segundo o informe enviado por Ban Ki-moon à Assembléia Geral, a quantidade de infecções com o HIV está aumentando na China, Indonésia, Rússia, Ucrânia e em algumas nações da União Européia e da América do Norte. O informe acrescenta, entretanto, que os novos contágios devem diminuir em alguns dos países mais afetados, como Lesoto, Suazilândia e África do Sul.
Embora a quantidade de infectados tenha diminuído, a dimensão da epidemia continua sendo “alarmante”, acrescenta o informe. “A cada dia, cerca de sete mil pessoas são afetadas desnecessariamente por não terem acesso a métodos seguros para prevenir a transmissão”, afirmou Peter Piot, diretor-executivo do Programa Conjunto da onh sobre HIV/Aids (Onusida). O mundo, finalmente, começou a ver “resultados reais” na luta contra a Aids, mas, “resta um longo caminho pela frente”, acrescentou Piot aos jornalistas. “Existe um perigo real de manter uma atitude de continuar como estamos em relação ao alcance e à profundidade da pandemia. A comunidade internacional pode, e deve, apoiar seus compromissos”, acrescentou.
Piot questionou a idéia de que houve dinheiro suficiente para combater a enfermidade. Em 2007, assegurou, faltaram US$ 8 bilhões para financiar programas de prevenção e tratamento. “Se a comunidade internacional quer se aproximar da meta de acesso universal à prevenção do HIV, o investimento deve aumentar significativamente”, ressaltou. Piot enfatizou que se deve dar prioridade à meta de “fazer com que o dinheiro ajude as pessoas”, e acrescentou que o desafio “para todos nós é manter o curso até o final e jamais nos rendermos”.
Lideres da sociedade civil que participaram da reunião sobre HIV/Aids da ONU expressaram pontos de vista semelhantes. A disponibilidade de fundos para tratamento “é um dos aspectos fundamentais”, disse à IPS Sara Speicher, da Aliança Ecumênica de Ação Mundial, rede que inclui mais de cem igrejas e organizações religiosas de todo o mundo. “Os governos jamais cumprirão os objetivos e não muitos estiveram totalmente comprometidos” com o aumento de seu apoio financeiro, acrescentou.
Além de destacarem o obstáculo que representa a falta de financiamento, muitos participantes da reunião da ONU expressaram sua preocupação pela extensa discriminação das pessoas infectadas com o HIV. Ratri Suksma, uma indonésia que vive na Malásia, da não-governamental Coordenação de Pesquisa sobre a Aids, disse na Assembléia Geral da ONU estar infectada com o HIV e que por esse motivo tem dificuldade para viajar a cerca de 70 países. Por isso enfrenta o risco de perder suas propriedades, acrescentou. Quando ficou sabendo de sua condição, muitos em seu país achavam que apenas prostitutas e viciados podiam se contagiar, lembrou, explicando que não era uma coisa nem outra. Suksma disse que as mulheres devem ser protegidas contra a violência e que seu direito ao acesso ao tratamento tem de ser resguardado e apoiado. (IPS/Envolverde)

