SAÚDE-IRAQUE: Pequenas vítimas de armas perversas

Faluja, 16/06/2008 – Numerosos bebês em Faluja, cidade do centro do Iraque, bombardeada com armas químicas e radioativas em 2004 pelos Estados Unidos, sofrem doenças congênitas e deformidades em um nível jamais visto, afirmam médicos e moradores.

 - Dep. de Defensa de EEUU

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Estes casos, bem como a grande mortalidade infantil, aumentaram após o uso de “armas especiais” – como são chamadas pelas forças de ocupação – em dois bombardeios maciços este ano. Depois de negar, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos admitiu em novembro de 2005 o uso de fósforo branco, uma substância incendiaria.

Também foram utilizadas no bombardeio munições reforçadas com urânio esgotado. O Departamento de Defesa reconheceu que desde a invasão em 2001 as forças norte-americanas lançaram no Iraque 1.200 toneladas desse resíduo nuclear de baixa radioatividade. Médicos consideram que o urânio esgotado seja a causa do grande aumento da incidência de câncer na população iraquiana, bem como entre veteranos norte-americanos que participaram da Guerra do Golfo (1991) e na atual ocupação.

“Vimos todas as cores do arco-íris saindo dos projeteis e mísseis norte-americanos que explodiam”, recordou, em declarações à IPS, Ali Sarhan, professor de 50 anos que presenciou os dois bombardeios de 2004. “Vi corpos reduzindo-se a ossos e carvão após ficarem expostos ao que depois soubemos ser fósforo. O mais preocupante é que muitas de nossas mulheres perderam seus bebês e que alguns nasceram com deformações”.

“Tive dois filhos com danos cerebrais desde o nascimento”, contou à IPS Hayfa Shukur, de 28 anos. “Meu marido está preso em mãos de norte-americanos desde novembro de 2004 e tive que levar as crianças sozinha aos hospitais e clinicas privadas. Morreram. Gastei toda minha economia e pedi muito dinheiro emprestado”. Os médicos disseram a Shukur que as armas químicas foram a causa do dano cerebral em seus filhos e de suas mortes. “Mas, ninguém teve a coragem e me confirmar isso por escrito”, lamentou.

“Muitos bebês nasceram com grandes más-formações congênitas”, disse à IPS um pediatra que pediu para não ser identificado. “Há muitos com problemas cardíacos, lábio leporino, síndrome de Down e defeitos nos membros. Posso dizer que houve muitos problemas de saúde causados pela contaminação tóxica em Faluja, depois do massacre de 2004”. Muitos médicos se referem a casos e padrões semelhantes. Mas, os indícios carecem de um estudo ou de registros especiais.

O Hospital Geral de Faluja não está disposto a fornecer estatísticas sobre deformações de bebês, mas outro medico que pediu o anonimato por medo de represália afirmou que houve muitos casos. “A exposição materna a toxinas e a material radioativo pode derivar em abortos, nascimentos prematuros e deformações congênitas. O governo nada fez para conter o dano nem ajudou o hospital”, afirmou. “Precisamos de esforços internacionais intensivos, pois para atender as crianças são necessários equipamentos de tecnologia avançada que, de outro modo, ano teremos em cem anos”, assegurou o medico.

O Comitê Internacional da Cruz Vermelha alertou em março que faltavam suprimentos médicos em hospitais de Bagdá e Basra. “Os hospitais já gastaram seus insumos e solicitam mais para atender os feridos. A falta de acesso à água continua preocupante em certas áreas”, disse o Comitê. Um alto funcionário do Ministério da Saúde do Iraque informou à imprensa em fevereiro que o setor está sob “grande pressão”: muitos médicos assassinados, êxodo de profissionais, má infra-estrutura e falta de medicamentos.

‘Sofremos grande escassez de tudo. Não temos suficientes médicos especialistas nem medicamentos. A maior parte do equipamento é obsoleto. Devemos tratar muitas lesões da coluna e da cabeça mas não temos especialistas nem medicamentos para fazer isso. “Algo tão simples como um soro intravenoso não está disponível”, disse o funcionário, acrescentando que não se construiu nenhum novo hospital desde 1986. O ministro da Saúde, Salih Al-Hassnawi, alertou em fevereiro que sua pasta “sofre aguda escassez de remédios”.

Todo o orçamento estatal de saúde deste ano já foi gasto em remédios, equipamentos e ambulâncias, o que consumiu cerca de US$ 22 por cidadão. Mas, ainda assim, é muito cedo para saber quantos bebês sofreram as conseqüências da devastação de Faluja. Esse dinheiro seria muito pouco para atender uma demanda tão específica como a de crianças com deformações.

* Ali al-Fadhily, correspondente em Bagdá, trabalha em estreita colaboração com Dahr Jamil, especialista da IPS em questões do Iraque radicado nos Estados Unidos, que escreve com freqüência desde esse país e de outros do Oriente Médio.

Ali al-Fadhily

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