Mogadíscio, 23/06/2008 – A Organização das Nações Unidas estima que mais de 700 mil pessoas fugiram de suas casas em Mogadíscio desde fevereiro de 2007, quando começaram os enfrentamentos entre insurgentes e forças etíopes que apóiam o governo da Somália. Quase seis mil civis foram assassinados ou feridos em 18 meses de combates, e quase a metade da população da capital fugiu da violência para a área situada entre Mogadíscio e o povoado de Afgooye. A maioria dos refugiados está em acampamentos localizados nos arredores da capital, mas alguns caminharam até chegar inclusive na aldeia somaliana de Dobley, na fronteira com o Quênia, 700 quilômetros ao sul de Mogadíscio.
Jamilo Omar vive em uma choça com forma de cúpula feita com pouco mais que trapos e galhos. Quando chove, a água entre pelos buracos e cai sobre ela e seus quatro filhos. Diz não ter alimento suficiente para sua família desde o ano passado, quando foram para o acampamento de refugiados de Elasha, o maior da Somália, onde a ONU estima que mais de 800 mil pessoas encontraram um mínimo de abrigo, nos arredores de Mogadíscio. “Meu marido foi assassinado pelas forças etíopes enquanto fugíamos da cidade no ano passado contou Omar à IPS. “Viemos para cá sem nada. Vivemos apenas com o que recebemos ocasionalmente das agências de assistência”, acrescentou.
Quando chegou ao acampamento, no começo do ano, Omar construiu um abrigo improvisado com galhos cortados de florestas próximas e roupa velha. Apesar de sua ignorância em matéria de construção, trabalhou para que seus filhos tivessem algo parecido com o teto de um abrigo sobre suas cabeças. “Depois comecei a buscar alimento e água para eles, embora tenha perdido contato com todos meus familiares e vizinhos. Simplesmente saí”, recordou. Enquanto a temporada de chuva chega este mês ao sul da Somália, cerca de um milhão de pessoas vivem em condições atrozes, sem alimentos adequados nem água, nem abrigo.
O presidente da Organização Fanole de Diretos Humanos, Ali Abdullahi Igal, disse que dar assistência aos refugiados fica mais difícil pelo aumento geral dos preços dos alimentos básicos. “A ajuda não está chegando às pessoas refugiados, não apenas às que estão próximas da capital, para onde fugiu a maioria, mas também para as que estão na parte meridional do país”, afirmou. Numerosos postos de controle ao longo da estrada que une a capital ao acampamento de Elash, nos quais milícias e soldados do governo somaliano exigem dinheiro antes de permitir a passagem de caminhões de assistência, dificultando a distribuição de alimentos e outros materiais.
Às vezes demora dois dias para viajar menos de 30 quilômetros entre Mogadíscio até acampamentos como Elasha e Daynile. Para os que fugiram para mais longe – para Afgooye e Marka, na região da baixa Shabelle, e muitas partes da meridional região de Juba – a ajuda quase não chega. “Desde que abandonamos nossas casas na capital não recebemos nenhuma ajuda, nem das agências internacionais nem das locais. Conseguimos alguma ajuda de habitantes do lugar que nos dão o que podem. Pelo menos conseguimos uma refeição diária a maior parte da semana”, disse Diriye Barre, em Afgooye.
Mire Yuysuf, coordenador de saúde da Organização Humanitária Dalbile, informou que 40% das crianças refugiadas sofrem de má nutrição, e um em cada cinco bebês nascidos nos acampamentos para refugiados morre antes de completar um ano, segundo essa entidade. Muitos jovens que vivem nos acampamentos optam por empreender a perigosa viagem através do golfo de Aden. Dahir Elmi, de 25 anos, disse que a vida nos acampamentos é tão difícil que justifica arriscar a vida em nome de um futuro melhor nos Estados do Golfo. “Não quero perder meu tempo vivendo assim. Melhor perder a vida buscando algo melhor”, resumiu. Tão logo consiga o dinheiro – cerca de US$ 1 mil – pagarei a um contrabandista para que me ajude a cruzar o mar Vermelho rumo à península Arábica, acrescentou Elmi.
Centenas de homens e mulheres jovens procedentes dos acampamentos morrem a cada ano tentando cruzar o golfo de Aden rumo ao Iêmen, desde a região somaliana semi-autônoma de Puntland. Esperam continuar viagem do Iêmen até os Estados do Golfo, ricos em petróleo, onde pretendem conseguir trabalho. Alguns chegam a Bahrein e aos Emirados Árabes Unidos, mas muitos outros se perdem no mar, são deportados pelo Iêmen ou acabam em acampamentos tão ruins quanto aqueles de onde fugiram.
Os pedidos de uma assistência maior para os refugiados da Somália aumentaram desde que se consolidou a crise alimentar, este ano. Mas os apelos parecem ter caído em ouvidos surdos. Isto pode ser resultado das emergências na região de Darfur, n a Birmânia e na China, bem como das dificuldades de fazer entrar ajuda à Somália, enquanto os piratas agem ao longo de sua faixa costeia e a situação de segurança dentro do país continua sendo ruim. Mas, o fator mais importante poderia muito bem ser o fato de os doadores estarem cansados dos pedidos de ajuda para a população deste país devastado pela guerra. (IPS/Envolverde)

