O segredo do modelo nórdico: Alerta sobre "lavagem verde"

BANGCOC, 20/01/2005 – Os céticos pensam que a associação entre ambientalistas e multinacionais serve apenas para maquiar a deteriorada imagem de algumas companhias. No entanto, existem ativistas convencidos de que aliar-se a grandes empresas é importante para salvar o planeta. Estas duas opiniões chocaram-se em uma acalorada sessão sobre negócios e biodiversidade durante o Terceiro Congresso Mundial da Natureza, realizado de 17 a 25 de novembro, em Bangcoc, pela União Mundial para a Natureza (UICN, sigla em inglês).

"Criar uma situação onde todos ganhem é um dos desafios, a partir da perspectiva de uma organização não-governamental, ao trabalhar junto com uma grande corporação", afirmou nesse encontro o brasileiro André Guimarães, diretor-executivo do Instituto BioAtlântica. Essa ong trabalha pela proteção da Mata Atlântica, um extenso bioma formado por florestas da costa brasileira e seus ecossistemas associados, considerado um dos mais ricos em biodiversidade do planeta e hábitat exclusivo de 20 espécies primatas. Já existem cerca de 360 reservas privadas na Mata Atlântica, que desde 1500 perdeu 93% de sua superfície e se reduziu a ilhotas verdes em um mar de crescente urbanização.

"Minha missão é conservar a Mata Atlântica, e a das empresas é gerar lucro, com máximo benefício para seus acionistas. Nosso desafio é mostrar-lhes, em sua linguagem, quais benefícios podem obter se conservarem a biodiversidade", disse Guimarães. Esse bioma desaparece duas vezes e meia mais rápido do que a Amazônia, e é vítima do pior caso de desmatamento no planeta, depois de Madagáscar. "Setenta por cento da população brasileira vive na Mata Atlântica e é responsável por 80% do produto interno bruto do país, e 90% da área é propriedade privada. Portanto, devemos trabalhar com o setor privado, ou não conseguiremos preservação alguma", argumentou o ativista.

Porém, os críticos expressam alarme ao verem que o orçamento de muitas ongs aumenta junto com sua associação a grandes comporações. "O enorme risco é o que chamo de 'lavagem verde', ou seja, um processo no qual as empresas melhoram sua imagem e quase não alteram sua prática", disse ao Terramérica Marcus Colchester, diretor da ong britânica Programa dos Povos para as Florestas. "Penso que as organizações conservacionistas correm o risco de pagar um preço extremamente alto por mesquinhos benefícios, se perderem a confiança do público e de seus próprios integrantes", afirmou.

O Congresso de Bangcoc reuniu representantes de 81 Estados, 114 agências governamentais, mais de 800 ongs e cerca de dez mil cientistas e especialistas de 181 países. Ao término do encontro, os participantes exortaram os governos de todo o mundo a cumprirem a meta de reduzir até 2010 a perda global da biodiversidade, que se acelera a um ritmo sem precedentes: 15.589 espécies já estão em risco de extinção.

A britânica Birdlife International, uma das mais importantes defensoras de espécies do mundo, foi colocada no banco dos réus durante a conferência. A organização foi censurada por sua sociedade com a Rio Tinto, a maior empresa de mineração do mundo, com sedes na Austrália e Grã-Bretanha, denunciada durante anos como responsável por danos ambientais e, inclusive, violações dos direitos humanos. Entre essas acusações estão as de impedir que seus trabalhadores na Austrália formem sindicatos, expor a saúde de seus mineiros que extraem urânio na Namíbia, e ser negligente ou cúmplice diante de abusos na guerra civil de Papua-Nova Guiné, onde explorava jazidas de cobre.

As associações da Rio Tinto com ongs ecologistas são "um caminho fundamental para atingir nossas metas em matéria de biodiversidade", afirmou o assessor ambiental da empresa Stuart Anstee.

O administrador da Birdlife International, Jonathan Stacey, admitiu que as ongs colocam-se em uma posição vulnerável ao receberem dinheiro de multinacionais, mas defendeu a associação entre seu grupo e a Rio Tinto. O importante "é como se usa o dinheiro, como é destinado e entregue. Enquanto isso se adequar aos objetivos da Birdlife, existirá uma base sólida para a corporação", disse aos participantes da conferência.

Sachin Kapila, assessor em Biodiversidade da empresa petroleira Shell, destacou que os diretores e acionistas dessa companhia "entendem claramente" que suas atividades causam um impacto sobre o meio ambiente. Reconheceu, entretanto, que "não necessariamente se compreende em todos os níveis da organização o que se deve fazer a respeito". A Shell International, junto com a British Petroleum (BP) e outras transnacionais, anunciou no ano passado, durante o Quinto Congresso Mundial de Parques, realizado na África do Sul, que se comprometia a não explorar nenhuma das áreas listadas como patrimônio mundial.

* O autor é correspondente da IPS.

Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.

Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.

Sonny Inbaraj

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