Bruxelas, 08/07/2008 – O sistema de subsídios da União Européia para sua agricultura não deve ser imitado em outras regiões que sofrem carestia de alimentos, afirmou um funcionário da Organização das Nações Unidas para assuntos humanitários. No começo deste ano o ministro da Agricultura da França, Michel Barnier, disse que a razão original por trás da Política Agrícola Comum (CAP) da UE foi garantir a auto-suficiência em alimentos, e isto poderia servir de “bom modelo” para desenvolver caminhos semelhantes de proteção à agricultura na África, América Latina e Ásia. Os comentários de Barnier foram seguidos de debate sobre a agricultura nas últimas semanas entre França e Comissão Européia, órgão executivo do bloco.
O presidente francês, Nicolas Sarkozy, disse que o comissário de Comércio da UE, o britânico Peter Mandelson, procurava destruir o apoio aos produtores agrícolas nas atuais negociações comerciais internacionais. Por sua vez, Mandelson, que negocia em nome dos 27 Estados-membros do bloco, incluindo a França, acusou Sarkozy de querer enfraquecer sua posição nas conversações. John Holmes, coordenador de ajuda de emergência da ONU respondeu à recomendação de Barnier: “Não estou certo de que a CAP seja um modelo facilmente aplicável em outros lugares. Há problemas com o sistema, com seus subsídios que distorcem o comércio”, disse à IPS este ex-embaixador da Grã-Bretanha na França.
Holmes visitou Bruxelas no último dia 3 para participar de uma conferência sobre o papel da agricultura na luta contra a fome. A França, que assumiu a presidência da União Européia este mês, identificou a agricultura como um dos temas prioritários para sua administração de seis meses. O governo de Sarkozy procura estimular o debate sobre o que acontecerá com o CAP quando seu financiamento se esgotar em 2013. holmes, que integra um grupo de trabalho da ONU dedicado a examinar as respostas adequadas a curto e longo prazos para a crise alimentar mundial, exortou os líderes da UE a analisarem como seus enormes subsídios agrícolas têm efeito negativo nos países pobres.
“Diante das novas circunstancias, há uma séria necessidade de ver como os subsídios que distorcem o comércio afetam a capacidade dos países do Sul em desenvolvimento para produzir e exportar”, afirmou. Embora Holmes reconheça a necessidade de mais assistência alimentar para ajudar as nações pobres a enfrentarem o aumento dos preços, disse: “No longo prazo, precisamos enfrentar o problema porque houve uma falta de investimentos na agricultura nos últimos 20 ou 30 anos. A proporção de ajuda internacional destinada ao setor agrícola caiu de 10% para 3%. Isto tem de ser revisado outra vez”.
Por sua vez, o presidente do Parlamento Europeu, Hans-Gert Pöttering, afirmou que a pobreza e a fome não podem ser aceitas como problemas inevitáveis. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), o mundo tem capacidade para alimentar 12 bilhões de pessoas, o dobro de sua população atual. E, entretanto, 5,6 milhões de crianças morrem por ano devido à desnutrição. O presidente do Comitê de Desenvolvimento do Parlamento Europeu, Josep Borrell, reconheceu que a carestia veio após a implementação de políticas da UE que tiveram devastadoras conseqüências para a renda dos produtores nos países pobres. “Criamos um círculo vicioso. Precisávamos baixos preços nos alimentos para manter viva a população urbana. Mas, isto prejudicou a produção de alimentos”, afirmou.
Henri Rouille D’Orfeuil, da rede de ativistas franceses contra a pobreza Coordenation Sud, afirmou que as políticas comerciais internacionais criaram uma “pauperização dos agricultores” nos últimos anos. “Quando o mercado mundial sofre, o mercado local já não está presente para contra-atacar”, afirmou. A comissária de Agricultura da União Européia, Mariann Fischer Boel, disse que, apesar dos distúrbios devido à inflação registrados em vários países pobres nos últimos meses, os preços dos alimentos estão caindo há mais de 30 anos. Em 1975, os cereais custavam o dobro do que custam hoje. “O problema é que os preços dispararam em um período muito, muito curto”, ressaltou. Enquanto vários governos europeus são reticentes em autorizar o cultivo e a venda de organismos geneticamente modificados, Boel sugeriu que a biotecnologia poderia beneficiar a África. “Sei que alguns odeiam quando falo de transgênicos, mas, são parte da discussão que devemos ter sobre quem alimentará o mundo. Não digo que são a única solução, mas são parte da discussão necessária”, afirmou.
A organização ambientalista Greenpeace disse que a biotecnologia não oferece nenhuma solução para os problemas estruturais da agricultura nos países pobres. “Não existe uma solução ideal para a atual crise nos preços dos alimentos”, afirmou Marco Contiero, ativista do grupo. “Qualquer afirmação de que uma única tecnologia, como a dos transgênicos, é a bala de prata para salvar nosso futuro fornecimento de alimentos é simplesmente falso e desvia a atenção das verdadeiras soluções”, acrescentou. (IPS/Envolverde)

