DEFESA-AMÉRICA LATINA: Reaparecimento da IV Frota causa inquietação

Buenos Aires, 14/07/2008 – Apesar do esforço de Washington em baixar o perfil da reativação da IV Frota de guerra para sulcar as águas da América Latina, governos da região expressaram preocupação por uma decisão que, segundo analistas, teria como meta garantir o abastecimento de petróleo para os Estados Unidos. Na última cúpula do Mercosul e países associados, que reuniu governantes dos países sul-americanos e do México no último dia 1º na Argentina, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, afirmou que se deveria perguntar aos Estados Unidos sobre esse restabelecimento, que ele mesmo interpretou como “uma ameaça” para a região.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva pediu ao chanceler Celso Amorim para consultar a secretária de Estado norte-americana, Condoleezza Rice, e o ministro da Defesa, Nelson Jobim, também se pronunciou com firmeza contra a reativação da IV Frota. O tom da declaração do ministro, que confirmou falas do comandante da Marinha brasileira, Júlio de Moura Neto, deixou transparecer a inquietação do Brasil. “Não estamos preocupados, os norte-americanos podem fazer o que quiserem, mas estejam certos de que não se deixará essa frota ingressar nas 200 milhas náuticas de zona econômica marítima brasileira”, ressaltou.

Coincidentemente, a presidente da Argentina, Cristina Fernández, aproveitou a visita, na semana passada, do subsecretário de Estado para Assuntos do Hemisfério Ocidental, Thomas Shannon, para expressar-lhe sua preocupação com o assunto. O funcionário norte-americano garantiu que a frota não entrará em nenhum rio da região nem em mares territoriais. Fernández também expressou sua preocupação com a crise política na Bolívia e seu temor de que Washington incida na tentativa de divisão territorial, como denunciou o presidente desse país vizinho, Evo Morales, na cúpula do Mercosul. Morales disse nessa ocasião que a ingerência da Casa Branca empurra ao enfrentamento entre setores de seu país.

A IV Frota foi criada pelos Estados Unidos em 1943 em plena Segunda Guerra Mundial (1939-1945) para controlar o avanço da Alemanha e do Japão para o oceano Atlântico, mas foi desativada em 1950. Por isso causou surpresa a determinação de reativá-la, no final de abril passado, vinculada ao Comando Sul, com sede na Flórida. A esquadra formada por 11 navios de guerra será comandada pelo contra-almirante Joseph Kernan, que, segundo um artigo do jornal argentino Clarín destacado pelo ex-presidente cubano Fidel Castro perante Chávez, pertenceria ao SEAL, um comando de elite para operações especiais treinado para agir em condições adversas.

Tanto Shannon quanto o chefe do Comando Sul, Almirante James Stavridis, garantiram que se decidiu reativar a frota para dar resposta a desastres naturais, realizar operações humanitárias, de assistência médica e também para combater narcotráficos e cooperar em temas ambientais e em tecnologia. Os norte-americanos negaram que a frota inclua um porta-aviões, embora Stavridis tenha admitido que o George Washington poderia “passar” pela região e eventualmente unir-se à IV Frota. Esta formação “não tem capacidade ofensiva, nem porta-aviões, nem navios de guerra. Sua embarcação maior é um hospital”, assegurou Shannon. Mas as explicações não convencem os países da região.

Legisladores brasileiros que se reuniram na semana passada com o embaixador dos Estados Unidos em Brasília, Clifford Sobel, não concordaram com as razões humanitárias apresentadas para justificar o regresso da frota e comprometeram as autoridades a continuarem conversando. “As respostas foram amáveis e afirmaram o respeito à soberania, mas não nos tranqüilizaram”, disse à IPS o senador Eduardo Suplicy, do Partido dos Trabalhadores, um dos legisladores que na quarta-feira se reuniu com o embaixador Sobel na capital do País. Os parlamentares brasileiros convidaram ministros a explicar a posição do governo diante deste fato e convidaram Sobem a informar o Congresso em agosto. Também expressaram seu interesse em saber o que pensa sobre o assunto o pré-candidato norte-americano pelo opositor Partido Democrata, Barack Obama, que lidera as pesquisas.

Para o analista político argentino Rosendo Fraga, o anúncio “faz parte de uma política que tende a acentuar o papel militar dos Estados Unidos no mundo”, com maior preponderância dos aspectos navais. Essa vontade se expressa na escolha de um almirante como titular do Comando Sul, acrescentou em resposta a uma consulta da IPS. Fraca mencionou como antecedente desta estratégia a implementação em 2007 do Comando da África, onde existe uma importante população que professa a religião muçulmana e com presença ativa de células da organização extremista Al Qaeda. A sede deste comando, no momento, fica na Alemanha.

Fraga, diretor da consultoria Nueva Mayoria, afirmou que Washington tenta buscar “dar segurança ao abastecimento de petróleo”. Um terço do que esse país importa chega da América Latina, principalmente de Equador, México e Venezuela, e um quarto da África, mais precisamente de Nigéria, Angola e Guiné Equatorial, afirmou. Por sua vez, o venezuelano Carlos Romero, diretor de pós-graduaçao de Estudos Internacionais da Universidade Central (EUA), disse à IPS que os Estados Unidos “sempre exerceram uma vigilância desse tipo (sobre os recursos que lhes interessam) desde que o país ficou independente. Adquiriu maturidade e lançou sua Doutrina Monroe em 1823”, recordou.

No entanto, Romero recomendou que se acompanhe a evolução de Cuba. “Os analistas concordam que a situação (econômica e política) está cada vez mais difícil nessa ilha, isto apesar do controle militar e político que é exercido por Raúl Castro, e para alguns não é impensável para o futuro a ocorrência de alguma intervenção ou invasão” a esse país, ressaltou.

Consultado pela IPS, o coronel da reserva do Exército brasileiro, Geraldo Cavagnari, fundador e pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos da Universidade de Campinas, considerou que a reativação da frota norte-americana “intimida, como toda operação militar, mas, não assusta o Brasil, que tem grande peso político”. Para Cavagnari, a presença norte-americana no oceano Atlântico está vinculada às reservas de petróleo e de alimentos que o Mercosul pode produzir em uma época de escassez desses recursos. Porém – prosseguiu – não tem o sentido de intervir ou ocupar, mas de assegurar a estabilidade da região. “Evitar tumultos”, sintetizou. “A América do Sul, que era menos importante passou a ser importante para a segurança dos Estados Unidos pelo petróleo”, destacou o pesquisador, e negou que essa reativação pode estar relacionada com a presença na região de governos esquerdistas, críticos da administração de George W. Bush, com os de Bolívia, Equador ou Venezuela. (IPS/Envolverde )

* Com as colaborações de Mario Osava (Brasil) e Humberto Márquez (México).

Marcela Valente

Marcela Valente es corresponsal de IPS en Argentina desde 1990, especializada en cuestiones sociales y de género. Profesora de historia, alterna su labor periodística con la docencia en varias escuelas y talleres de periodismo. Ha dictado introducción al estudio de la sociedad y el estado en la Universidad de Buenos Aires y ha participado en cursos y talleres de periodismo en Alemania, Costa Rica, Dinamarca y Uruguay. Realizó coberturas en Brasil, Ecuador, Suecia y Uruguay. Comenzó su carrera en 1985 como colaboradora del diario argentino Clarín. También ha trabajado para El Correo de Bilbao (España), y el semanario uruguayo Brecha, entre otros medios.

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