JOGOS-OLÍMPICOS-CHINA: Não há melhoras, afirmam ativistas

Pequim, 30/07/2008 – Tudo está pronto para a festa. As fontes de fogos artificiais com peônias vermelhas e dragões amarelos estão preparadas para iluminar o céu no maior espetáculo esportivo já organizado na China. Mas, 10 dias antes do início dos Jogos Olímpicos de Pequim, o país anfitrião ainda enfrenta acusações internacionais de não ter cumprido as promessas sobre direitos e meio ambiente que fez em 2001.

Ativistas afirmam que as amplas medidas de segurança adotadas para proteger as instalações e a realização dos Jogos têm, na realidade, o objetivo de sufocar os grupos que criticam o governo por seu desempenho na área dos direitos humanos e na luta contra a corrupção. Além disso, os esforços para limpar o meio ambiente na capital não atingiram os padrões esperados para uma cidade que é sede olímpica, e a contaminação em Pequim ainda supõe um perigo para os atletas, alertam. A Anistia Internacional acusou as autoridades chinesas de quebrarem suas promessas de melhorar a situação dos direitos humanos e, assim, trair os valores fundamentais dos Jogos Olímpicos.

Em um informe divulgado ontem, quando faltam 10 dias para o início das competições, a Anistia disse que a situação na China inclusive se deteriorou nos últimos anos. “Ao continuar perseguindo e castigando os que falam a favor dos direitos humanos, as autoridades chinesas perderam de vista as promessas que fizeram quando foi designada sede dos Jogos há sete anos”, afirmou em entrevista coletiva em Hong Kong a vice-diretora para Ásia-Pacífico da organização, Roseann Rife.

Quase simultaneamente, a organização ambiental Greenpeace lançou sua própria avaliação sobre o desempenho de Pequim com vistas aos Jogos, incluindo uma longa lista de oportunidades perdidas para que a cidade atendesse os temores sobre o impacto nos atletas da crescente contaminação. “Apesar de todos os esforços do governo, a qualidade do ar de Pequim hoje, provavelmente, ainda não é o que o mundo esperava para uma cidade sede dos Jogos Olímpicos”, disse em entrevista coletiva na capital chinesa o diretor da campanha para a China do Greenpeace, Lo Sze-ping.

A apresentação do informe do Greenpeace intitulado “A China em busca dos Jogos Olímpicos: lições de Pequim”, acontecia enquanto a capital permanecia envolta em um forte smog que faz os objetos serem vistos de forma horrorosa a apenas 10 metros de distância. Pequim lutou contra sua reputação de ser a “cidade cinza” dos Jogos. As autoridades adotaram severas medidas há uma semana para que os 3,3 milhões de automóveis façam rodízio de circulação de acordo com o final da placa. Todos os trabalhos de construção nas áreas centrais foram suspensas e mais de 150 obras com uso de terra e cimento em toda a cidade foram fechadas por dois meses.

A campanha de limpeza inclusive se estendeu à cidade costeira de Tianjin, onde serão disputadas partidas de futebol, e a Tangshan, importante localidade indústria a noroeste de Pequim. Cerca de 300 fábricas foram fechadas nas duas cidades, mas, depois das drásticas medidas para limpar o ar, a contaminação regressou favorecida pela umidade e pelo calor. No fim de semana o ar da capital chinesa era “insalubre para os grupos mais sensíveis”, segundo o Escritório de Proteção Ambiental de Pequim.

O índice de contaminação do a estava entre 103 e 124, isto é, acima dos 100, o padrão nacional de boa qualidade do ar. E os padrões ambientais chineses são menos exigentes do que os considerados “seguros” pela Organização Mundial da Saúde. “Apesar dos vários planos de longo e curto prazos de Pequim, a contaminação do ar continua sendo um dos mais duros desafios da cidade”, disse Lo Sze-ping, e acrescentou que isto é um exemplo do “fracassado modelo de crescimento” chinês. “Isto mostra que o modelo de crescimento da China de primeiro se desenvolver e depois limpar, está equivocado e deve ser descartado o mais rápido possível. É fácil contaminar, mas muito mais difícil é limpar o dano”, ressaltou.

Entretanto, as autoridades de Pequim defenderam seu desempenho, garantindo que todas as promessas foram cumpridas. O diretor do Escritório de Proteção Ambiental da capital chinesa, Du Shaozhong, disse a jornalistas no domingo que a qualidade do ar é atualmente 20% melhor do que no ano passado. “Se a paisagem da cidade parece turva, isso não significa que a qualidade do ar seja má”, afirmou. Os organizadores prometeram medidas ainda mais severas para garantir que Pequim cumpra sua promessa de ter “Jogos Olímpicos verdes”, e avaliam um plano que permitiria a circulação na cidade de apenas 10% dos veículos privados e o fechamento de mais fabricas no norte do país. “implementaremos um plano de emergência 48 horas antes se a qualidade do ar se deteriorar durante os Jogos entre 8 e 24 de agosto”, disse Li Xin, do Escritório de Proteção Ambiental de Pequim, segundo o jornal China Daily.

No campo dos direitos humanos, os organizadores estão longe de se adaptarem às demandas internacionais. Quando Pequim ganhou em 2001 o privilegio de organizar os Jogos, prometeu melhorar todas as condições sociais.

Argumentando ameaças de segurança, o governo adotou severas medidas contra uma ampla gama de pessoas que considera potenciais fontes de instabilidade durante as competições, como os separatistas tibetanos, os partidários do movimento espiritual Falun Gong e grupos que lutam contra o controle chinês da província muçulmana de Xinjiang, bem como camponeses e trabalhadores com demandas sociais.

O informe da Anistia diz que as autoridades chinesas estenderam o uso de detenções, incluindo a política de “reeducação através do trabalho” e de “reabilitação forçada das drogas”, para “limpar” Pequim antes do início dos Jogos e manter os ativistas sob controle. Funcionários encarregados da segurança durante os Jogos negaram que se tente sufocar as criticas, e garantiram que o país sofre graves ameaças devido ao amplo alcance e à audácia do terrorismo global atual. “Nos preocupa que Pequim não deixe um legado positivo com seus Jogos caso não tome medidas urgentes”, afirmou Rife, da Anistia Internacional. (IPS/Envolverde)

Antoaneta Bezlova

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