ELEIÇÕES-EUA: Questão de fé

Tampa, EUA, 06/08/2008 – Os candidatos a presidente dos Estados Unidos, sem importar o partido ao qual pertencem, relacionam religião, política e “guerra contra o terrorismo” em suas ações e discursos de forma recorrente. Mas, na realidade, boa parte das organizações religiosas deste país carecem de posições férreas sobre questões espinhosas como política e terrorismo. E, em alguns casos em que as têm, frequentemente são contraditórias com candidatos que são seus seguidores. Mas, os candidatos sempre se preocupam em demonstrar sensibilidade religiosa, com um olho voltado para as congregações.

Duas mostras recentes: a reunião do candidato do governante Partido Republicano, senador John McCain, com o líder espiritual do budismo do Tibe, Dalai Lama, e a visita de seu adversário, o senador democrata Barack Obama, ao Muro das Lamentações em Jerusalém. Os dois acontecimentos ocorreram no mesmo dia, 25 de julho. Por outro lado, um rápido olhar indica que muitos evangélicos tornaram público seu apoio à política do presidente George W. Bush, incluídas as guerras do Afeganistão e do Iraque. Mas, nem todas as organizações desta denominação crista fizeram o mesmo. Pelo contrário, algumas encabeçaram os protestos contra elas e, o menos visível, trabalho humanitário nesses países.

A organização Quaker American Friends Service Comitê (AFSC) começou a ajudar a população do Afeganistão pouco depois dos atentados que deixaram três mil mortos em Nova York e Washington no dia 11 de setembro de 2001, portanto, pouco antes da invasão a esse país liderada pelos Estados Unidos. “Enviávamos lençóis e ajudamos as mulheres”, contou Alice Andrews, subsecretária-geral de programas internacionais da AFSC. Os integrantes dessa organização têm grandes problemas de segurança no terreno. O Departamento de Defesa norte-americano anunciou que pelo segundo mês consecutivo morreram mais soldados dos EUA no Afeganistão do que no Iraque.

Os riscos que corre o pessoal da AFSC incluem “ameaças de ataques suicidas, uso generalizado de bombas ocultas e aumento dos seqüestros extorsivos”, disse Andrews. Os quakers também participaram de manifestações e protestos contra a guerra junto a outras organizações religiosas. Mas, nem todas as confissões, mesmo as pacíficas, realizam esse tipo de medidas diretas.“Os budistas não fazem isso”, riu Lama Karma Chotso, do Templo Budista Tibetano de Miami. “Procuramos lidar com nossos próprios assuntos e criar consciência. Não participarei (de manifestações) enquanto não alcançar um grau como o do Dalai Lama, a partir do qual se pode falar publicamente de questões mundanas”, acrescentou.

“Não apoiamos nenhum dos candidatos”, afirmou por sua vez, Adam Taylor, diretor político da revista Sojourners, publicação cristã-progressista, votada a um público ecumênico. “Grande parte de nossos programas sociais visam o combate da pobreza e gostaríamos que o próximo presidente, seja quem for, a reduza pela metade em 10 anos”, afirmou Taylor. “Grande parte do dinheiro pode ser usado para ajudar os pobres, mas é utilizado para financiar as guerras do Afeganistão e Iraque. As eleições são uma oportunidade para moldar o debate público e conseguir que a diplomacia pura e dura acabe com as guerras”, acrescentou.

Para a Igreja Metodista Unida, a participação dos Estados Unidos nessas duas guerras é uma questão delicada. O presidente Bush é membro dessa congregação, como os ex-aspirantes democratas à Presidência Hilary Rodham Clinton e John Edwards. O vice-presidente, Dick Cheney, participa de seus serviços religiosos, mas não é membro oficial. “Tomara que Bush tenha ouvido sua Igreja, ou, pelo menos, seus líderes”, disse Jim Winkler, secretário-geral do diretório de Igreja e Sociedade da Igreja Metodista Unida.

Depois do começo da guerra contra o terrorismo, autoridades da Igreja Metodista se reuniram com o papa e com altos funcionários dos governos da França e da Rússia para discutir vias humanitárias para acabar com ela. O único país aonde não pudemos conversar com nenhuma autoridade foi no nosso”, ressaltou. Nos anos 60, as organizações religiosas norte-americanas mostraram sua oposição à guerra do Vietnã “muitos anos depois de iniciado o conflito e com pouca colaboração entre congregações”, segundo Winkler. Mas agora, com a ocupação do Afeganistão e do Iraque, “houve muito mais trabalho intra-religioso para mostrar desacordo” com a guerra contra o terrorismo, afirmou.

Uma comunidade religiosa que tem muitos mais problemas do que qualquer outra nos Estados Unidos é a muçulmana, muito discriminada e, em alguns casos, até vítima de violência física, como ocorreu nos dias e semanas seguintes aos atentados em Nova York e Washington em 2001. E estes ataques persistem. “A guerra do Iraque se baseou em razões equivocadas”, afirmou Ahmed Rehab, diretor de comunicações do Conselho de Relações Norte-americanas-Islâmicas (Cair). “O outro problema é como continuou o conflito. Não temos uma solução para a guerra contra o terrorismo e não decidimos tê-la. Só queremos que respeitem os direitos civis dos muçulmanos”, ressaltou.

Já se passaram quase sete anos desde os atentados de 2001 e, entretanto, “ainda há muita gente que não nos compreende, infelizmente. A sensibilidade de muitos norte-americanos quase desapareceu. Agora, os anti-muçulmanos difundem suas mensagens por diversas vias, como a Internet”, disse Rehab.

Embora Cair seja “uma organização social, não religiosa, muitos de nossos membros são muçulmanos”, disse Rehab. Se for preciso colaborarmos com outras religiões para difundir a mensagem de que somos pessoas pacíficas, o faremos”, acrescentou.

Por outro lado, “os hindus sempre rezam aos deuses pedindo paz. Não dizemos a ninguém o que fazer ou em quem votar e tampouco o faríamos”, explicou Narasim Battar, sacerdote do templo hindu de Malibu, no Estado da Califórnia. “Pedimos aos deuses que impeçam a guerra porque ela nunca faz bem a ninguém. Rezamos para que as pessoas sejam iluminadas e possam se dar conta disso”, acrescentou Battar. (IPS/Envolverde)

Mark Weisenmiller

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