Pequim, 06/08/2008 – A firme atitude da China nas fracassadas negociações da Organização Mundial do Comércio em Genebra não tiveram tanto a ver com sua posição política, mas sim com sua obsessão pela segurança alimentar, segundo especialistas. Deixando de lado um longo período de silêncio na Rodada de Doha, Pequim cerrou fileira com as nações em desenvolvimento e permitiu que o desacordo sobre as tarifas agropecuárias desbancasse as gestões. “Os últimos distúrbios pela crise de alimentos em vários países fizeram os líderes chineses perceberem, ainda mais do que antes, que a segurança alimentar deve ser resolvida internamente”, afirmou Meng Zhou, pesquisador independente de Pequim, em uma coluna publicada no jornal Xinjingbao.
“Se o fornecimento de alimentos depender das importações, então nunca se poderá garantir a estabilidade social, e inclusive isso pode afetar a soberania nacional. Isto serve para explicar a linha dura adotada desta vez pela China nas negociações comerciais”, disse Zhou. Com ele coincidiu Chen Taifeng, especialista em estudos chineses da Universidade Qinghua. “O drástico aumento dos preços deixaram os países muito nervosos. Antes de abrir inteiramente seus mercados, a China precisa garantir que pode depender de mecanismos de salvaguarda para proteger sua própria produção”, afirmou.
As negociações em Genebra fracassaram no final do mês passado depois que os países-membros da OMC não chegarem a um acordo sobre permitir às nações em desenvolvimento o uso de tarifas especiais de salvaguarda para proteger seus produtores das inundações de importações baratas. Com suas grandes exportações, a China se beneficiou generosamente do comércio liberalizado, através do qual envia a diversos mercados seus produtos baratos manufaturados. Em conversas anteriores na Rodada de Doha, este país asiático decidiu manter um perfil baixo, quando não de observador silencioso, nas negociações entre países ricos e o Sul em desenvolvimento.
Mas, em um sinal de profunda ansiedade sobre a segurança alimentar, desta vez a China compartilhou a oposição da Índia em um acordo que segundo este país poderia afetar seus milhões de agricultores pobres. Esta mudança ocorre quando Pequim enfrenta o desafio de alimentar seus 1,3 bilhão de habitantes, enquanto diminui sua terra cultivável e se agrava uma escassez de água. Os países ricos liderados pelos Estados Unidos acusaram China e Índia de não cederem o suficiente nas conversações para a liberalização do comércio e de, assim, bloquear as soluções para a recente escassez de alimentos e para o contínuo espiral de alta nos preços.
A representante de Comércio dos Estados Unidos, Susan Schwab, criticou as nações em desenvolvimento por se aferrarem em atitudes protecionistas. “Diante da crise dos alimentos, é irônico que o debate tenha se reduzido a quanto e com que rapidez nações podem levantar suas barreiras às importações”, afirmou. Mas Pequim acusou os países industrializados de matarem as conversações. O ministro de Comércio, Chen Deming, disse ao Diário do Povo, jornal oficial do Partido Comunista, que a China não deveria ser responsabilizada pelo fracasso das conversações na OMC. “Somos novos membros da organização e ainda devemos de desfrutar um tratamento como tais. O colapso das negociações nada tem a ver com a China”, ressaltou.
Chen, que representou seu país em Genebra, qualificou de “duro golpe” o fracasso das conversações. Em suas primeiras declarações após o colapso em Genebra, Chen disse que “após atender suas próprias demandas, os Estados Unidos exigiram do mundo em desenvolvimento um preço tão alto quanto o céu”. Washington objetou detalhes de um “mecanismo especial de salvaguarda” criado para proteger os agricultores do Sul em desenvolvimento contra os embates temporais de importações de algodão, arroz e açúcar. A China insistiu em proteger o sustento de seus agricultores. O país passou de 750 milhões para 800 milhões de produtores, quase o dobro de toda a população da União Européia. A maioria sobrevive com dois dólares por dia.
“É injusto apoiar os ricos agricultores do Ocidente, regularmente subsidiados pelos ministérios das Finanças de seus países, contra os milhões de pequenos produtores desprotegidos da China”, afirmou Meng Zhou. “Os produtos e a agricultura ainda são os pilares da economia de muitos países em desenvolvimento. Entretanto, no Ocidente os camponeses representam apenas uma fração da população, e a agricultura responde por uma pequena porção do orçamento”, acrescentou.
Editoriais de alguns jornais chineses acusaram os Estados Unidos de proporem “compromissos hipócritas” na mesa de negociações da Rodada de Doha. Esse país aceitou estabelecer um teto de US$ 14,5 bilhões para seus subsídios agrícolas, mas um editorial do jornal chinês 21st Century Businesse Herald afirmou que este compromisso carecia de sentido. “Como o produtor de grãos mais eficiente, com 40% das exportações mundiais, os Estados Unidos são o que mais se beneficiam dos altos preços dos alimentos”, disse. “Washington calculou que os altos preços dos grãos compensarão a redução dos subsídios agrícolas. De fato, no ano passado os Estados Unidos investiram apenas US$ 9 bilhões nesses subsídios”, acrescentou o jornal. (IPS/Envolverde)

