POPULAÇÃO-FILIPINAS: Igreja Católica dispara contra os anticoncepcionais

Manilha, 06/08/2008 – A Igreja Católica é acusada de ajudar na perpetuação da pobreza nas Filipinas por se opor com intransigência aos anticoncepcionais que não sejam “naturais”, posição apoiada desde o próprio governo. A presidente Glória Macapagal-Arroyo, católica devota, nega-se a dar seu apoio a um projeto de lei sobre saúde reprodutiva em debate no parlamento, enquanto os líderes dessa Igreja, majoritária nas Filipinas, convocam a população às ruas para que o rechacem. Quinze bispos lideraram uma manifestação da qual participaram cerca de 12 mil pessoas, no dia 25 de julho. Pressionando em sentido inverso, a imprensa publicou numerosos artigos com opiniões exigindo da mandatária uma posição a favor do projeto de lei.

Mas Arroyo não cedeu. Longe de aprovar o projeto de saúde reprodutiva, no dia 28 de julho, em seu discurso anual sobre o Estado da Nação no parlamente se pronuncio ao vivo em cadeia de rádio e televisão a favor do “planejamento familiar natural”. A presidente afirmou que “promovendo o planejamento natural e a educação feminina reduzimos a taxa de crescimento da população em 2,36% na década de 90, quando se anunciava o controle artificial e os anticoncepcionais com sinônimo de planejamento familiar, para 2,04%”. Arroyo disse, ainda, que “nossa campanha desperta consciência sobre a paternidade responsável e o espaçamento entre nascimentos. Mais casais filipinos, que em sua maioria são católicos, devem saber sobre o planejamento familiar natural”.

Três dias antes, dirigindo-se à manifestação, o arcebispo de Manilha, Guadencio Borbón Cardinal Rosales, havia exortado os fieis à disciplina e autocontrole. “Se há disciplina no leito marital, há disciplina nas ruas, nas escolas e no governo”, disse o religioso. Em um artigo publicado no jornal Malaya, o colunista Dahli Aspillera afirmou: “Quando um marido filipino está na cama com sua mulher após chegar em casa frustrado, cansado e bêbado, ela não terá a possibilidade de revisar seu calendário para ver se é um mau dia”. A Igreja Católica não só aprova métodos anticoncepcionais “naturais”, que implicam o controle da temperatura e dos ciclos menstruais da mulher para determinar sua fertilidade dia a dia.

Mas, a promoção destes métodos em escolas católicas e desde o púlpito causou aversão a métodos como as camisinhas, que derivou em gravidez de adolescentes. O aborto é crime nas Filipinas. O ex-presidente Fidel Ramos (1992-1998), de religião protestante, havia promovido a redução do crescimento demográfico do país para enfrentar a pobreza. “A política de população deste governo é defeituosa, pela submissão da presidente aos bispos católicos”, disse Ramos à IPS. “alegar que quem recorre a mecanismos artificiais de planejamento familiar incorre em conduta equivalente a um aborto é completamente errado. Deveríamos respeitar a todos, porque se trata de proteger a qualidade de vida da família filipina”, acrescentou.

Ramos destacou que a presença de meninos e meninas na escola diminuiu nos últimos quatro anos de 90% para 82% do total, porque o aumento da população não foi acompanhado pela construção de prédios adequados. “Não seria lógico e razoável incluir o aumento da população no planejamento nacional?”, perguntou. O florescente movimento evangélico cristão tende a coincidir com Ramos. “A Bíblia ordena à humanidade que se multiplique, mas, também que cuide e proteja toda a Criação”, declarou a Junta do Conselho de Igrejas Evangélicas das Filipinas.

A cada dia nascem neste país 5.800 bebês. Neste ritmo, a população disparará para cem milhões em apenas cinco anos. O Conselho não tem dúvidas de que esse crescimento influi no aumento da pobreza. “Não é preciso ser economista para saber que serão necessários mais alimentos, água, casas, remédios e outros recursos. O crescimento demográfico sem controle destes anos levou os pobres a ficarem mais pobres, incentivou milhares de abortos, desnecessárias mortes maternas e a abandono de crianças. Cada vez mais gente vive nas ruas”, acrescentou.

Ao fim deste ano a população filipina chegará a 90 milhões de pessoas. Em 2007, este país ficou em 90º lugar, depois de cair sete pontos, na lista do Índice de Desenvolvimento Humano elaborado pela Organização das Nações Unidas. “Não culpem o crescimento populacional pela pobreza. O problema é desigualdade na renda”, afirmou o sacerdote Francis Lucas, presidente da Rede de Meios Católicos. “Quantas calorias de alimento e quanto energia os ricos desperdiçam?”, perguntou.

Annabel, recepcionista de um meio de comunicação em Manilha tem 35 anos e é católica. “Depois que tive meu quinto filho, tomei a pílula e depois administrei injetáveis”, disse à IPS. “Se não posso usar anticoncepcionais terei mais filhos. O pecado seria ter mais filhos sem poder mantê-los”, acrescentou Annabel. (IPS/Envolverde)

Kalinga Seneviratne

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