COMÉRCIO-ÁFRICA: Vender para crescer

Cidade do Cabo, 07/08/2008 – A falta de orientação das exportações causou fracassos econômicos nos países da África, e por isso estes agora devem se concentrar em construir uma indústria com vistas a vender para o exterior. Esta é a opinião de Thandika Mkandawire, diretor do Instituto de Pesquisa das Nações Unidas para o Desenvolvimento Social (Unrisd), entrevistado pela IPS após participar da Conferência em Memoria de Guy Mhone, realizada no final do mês passado em Lusaka, na Zâmbia. Mhone foi um acadêmico muito conhecido por seus estudos sobre governabilidade. Segundo Mkandawire, houve muitas leituras incorretas da história econômica africana ao longo dos anos.

Depois da colonização, foram registradas altas taxas de crescimento entre 1960 e 1975. A participação africana na indústria mundial cresceu de 7% para 8%. Mas, as economias africanas estavam baseadas na substituição em vez da industrialização voltada para a exportação. Os países não investiram em indústrias como a automotiva, de máquinas pesadas ou mineração. Em lugar de se concentrar em reduzir as importações e produzir produtos básicos com tabaco ou manufaturados como bebidas e roupa, a substituição de importações derivou em uma “industrialização superficial”. Não houve coesão nos projetos industriais e não se aprofundou a substituição de importações através de uma integração regional.

Mkandawire disse que os países da África subsaariana não conseguiram ampliar seus mercados através de uma distribuição da renda. Quando a crise do petróleo e outras falhas no mercado sacudiram o mundo nos anos 70, a África não tinha fundamentos econômicos sólidos. As economias dos países na região subsaariana não só paralisaram como diminuíram. Houve uma “desindustrialização” e isso levou ao desaparecimento das instituições das capacidades nacionais. O legado de uma falta de industrialização destinada às exportações ficou notório novamente no atual clima econômico mundial.

Embora o Banco Mundial tenha calculado um crescimento das vendas ao exterior do continente em US$ 5,7 bilhões em 1990 e US$ 12,5 bilhões em 2005, há um falso otimismo já que as exportações foram de matérias-primas e feitas por empresas multinacionais cujos escritórios centrais não estão na África. As exportações de diamantes brutos, por exemplo, somaram US$ 5,5 bilhões em 2005. As indústrias exportadoras, além do mais, não estão diversificadas. Por exemplo, as roupas e os têxteis representaram 53% de todas as manufaturas exportadas pela África subsaariana.

O diretor da Unrisd disse que, embora tenha havido crescimento em algumas áreas, se deve à eficiência e produtividade obtida pela privatização, e não por investimento em novas atividades industriais. “A África não teve políticas industriais nos últimos 20 anos”, disse à IPS. “O caminho para frente é ver onde o continente se compara com o resto do mundo e identificar as áreas onde se pode diversificar indústrias para criar uma sólida base exportadora”, afirmou. Segundo ele, o papel da industrialização no processo de desenvolvimento foi minimizado em detrimento dos países do Sul. Em um informe de 1993, o Banco Mundial inclusive foi mais além e disse: “Nossa avaliação é que a promoção de indústrias especificas geralmente não funciona e, portanto, oferece poucas promessas às nações em desenvolvimento.

Também existe o argumento de que a manufatura não tem um papel-chave no crescimento econômico. Alguns analistas afirmam que os serviços, como as comunicações e o turismo, são mais importantes. Mas Mkandawire disse que tampouco houve investimento nesses setores. A corrupção também foi identificada como um grande obstáculo no crescimento e desenvolvimento da África. Há muitos casos em que funcionários de governo retiveram bens destinados à exportação ou à importação em portos e terminais aéreos enquanto não recebessem um suborno. É sabido que certas multinacionais calculam o dinheiro do suborno em seus orçamentos antes de se oferecerem para contratos lucrativos.

No entanto, Mkandawire não lança toda culpa na corrupção. Ele afirma que deve haver uma coordenação e combinação de forças para o desenvolvimento e crescimento. “A África precisa de coalizões de desenvolvimento, que possam consistir em atores estatais, empresariais e trabalhadores, que compartilhem certa posição ideológica sobre o desenvolvimento e que coletivamente tenham a capacidade de levar adiante uma agenda”, afirmou à IPS. Além disso, o continente “deve repensar a cooperação regional. As idéias iniciais de integração previam certas atividades entre as economias nacionais. Isto fracassou”, acrescentou. “As atuais políticas de integração regional assumem que os mercados nos Estados neoliberais crescerão se o Estado fornecer infra-estrutura e certos organismos de regulamentação regionais. Mas, isto não funciona, e, portanto, é preciso repensá-lo”, concluiu. (IPS/Envolverde)

Correspondentes da IPS

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