DIREITOS HUMANOS-DARFUR: Egito ao lado do Sudão

Cairo, 11/08/2008 – O presidente do Sudão, Omar Al-Bashir, encontra no Egito um firme apoio contra a acusação internacional que sofre por crimes de guerra, contra a humanidade e atos de genocídio em Darfur.

 - UNDPI

- UNDPI

Líderes árabes e africanos condenam a ordem de prisão solicitada pelo promotor-chefe do Tribunal Penal Internacional (TPI), com sede na cidade holandesa de Haia, Luis Moreno Ocampo, enquanto analistas locais alegam que se trata de uma ação “politicamente motivada”. “É uma tentativa de certas nações ocidentais de internacionalizar o problema de Darfur para seus próprios fins políticos”, disse à IPS Ayman Shebana, professor de ciências políticas no Centro de Estudos Africanos da Universidade do Cairo.

Ocampo pediu no dia 14 de julho uma ordem de prisão contra o mandatário por crimes contra a humanidade e genocídio na região sudanesa de Darfur, no contexto do conflito que desde 2003 enfrenta insurgentes com forças militares e com paramilitares apoiadas pelo regime de Cartum. Organizações de direitos humanos dizem que cerca de 300 mil pessoas perderam a vida no conflito, enquanto 2,5 milhões tiveram de abandonar suas aldeias e enfrentam uma gravíssima crise humanitária. O governo sudanês argumenta que as acusações são “falsas’ e que as baixas nos dois lados não superaram as 10 mil pessoas nos últimos cinco anos.

A maioria da população de Darfur é negra, enquanto a do norte do Sudão, hegemônica no regime, é árabe. Em declarações ao jornal argentino Noticias, Ocampo disse que em Darfur “os cidadãos são atacados por quem deveria protegê-los”. O presidente Al-Bashir, acrescentou, “se serve do exército nacional e de milícias armadas para atacar grupos étnicos de seu país. Esses povos foram removidos de suas terras e enviados ao deserto, onde estão abrigados em acampamentos de refugiados onde não há comida nem água e as milícias impedem que os grupos humanitários lhes levem alimentos”.

Após ratificar a cifra de 300 mil mortos, Ocampo disse: “Estamos acusando Al-Bashir de ser o responsável por crimes contra a humanidade, crimes de guerra e genocídio”. Poucos dias depois do pedido de Ocampo, tanto a Liga Árabe quanto a União Africana UA) pediram ao TPI que adie por 12 meses a acusação, para permitir à justiça sudanesa assumir o caso. O Egito se mostrou especialmente ativo em seu apoio ao mandatário sudanês. No dia 23 de julho, o chanceler Ahmed Aboul-Gheit qualificou a acusação de “irresponsável e perigosa”, e argumentou que “terá impacto negativo sobre o estabelecimento da justiça em Darfur”. O presidente egípcio, Hosni Mubarak, disse, seis dias depois, em entrevista coletiva junto com seu colega sul-africano, Thabo Mbeki, em Pretória, que se opõe “à entrega de qualquer líder africano ao TPI”. Também expressou sua convicção de que há “indícios positivos sobre a solução da crise”.

Segundo Shebana, a situação no Sudão é de extrema importância para as forças de segurança no Egito. Os dois países compartilham uma fronteira de 1.200 quilômetros. ”Consideram que a questão é chave para a segurança nacional egípcia”, acrescentou. O Egito tem um papel importante na manutenção da paz em seu vizinho e cerca de 20% da missão conjunta da ONU e da UA em Darfur são formados por soldados do Egito, disse. Segundo Aymen Abdelaziz Salaama, professor de direito internacional na Universidade do Cairo, “ o TPI conta com o mandato para julgar indivíduos, líderes e altos funcionários, antes de governos, partidos ou regimes políticos”.

Sudão e Egito assinaram o Estatuto de Roma, a convenção internacional que criou o TPI, mas não estão entre os 106 países que o ratificaram. Por isso, disse Salaama, Cartum alega que o tribunal carece de jurisdição para julgar crimes cometidos em seu território. Mas essa posição não tem sustento legal, acrescentou. “A jurisdição do tribunal se estende a todas as nações, tenham, ou não, assinado a convenção, se o Conselho de Segurança da ONU, considerando ameaças para a paz e a segurança internacionais, pedir que sejam investigados crimes em um país”.

Foi o que fez o Conselho de Segurança em 2005, quando aprovou a resolução que pede ao TPI que investigue as denúncias de crimes em Darfur cometidos pelo Estado sudanês desde 2003. Mas, Shebana acredita que o TPI é um instrumento das potências ocidentais, que tentariam explorar o assunto por sua cobiça pela riqueza mineral da região. “Historicamente, a falta de desenvolvimento, mais do que as diferenças étnicas, são a raíz do conflito. O Ocidente só começou a considerá-lo uma questão internacional depois da descoberta de petróleo e urânio em Darfur”, acrescentou.

Para Shebana, haveria “evidências consideráveis sobre a presença norte-americana, francesa e israelense na região, que promoveu a atividade dos rebeldes. Sem esse apoio estrangeiro, a crise teria sido resolvida em cinco anos. Houve, efetivamente, crimes de guerra, mas cometidos tanto pelo governo como pelos rebeldes”, acrescentou o especialista, para quem a crise humanitária em Darfur é “exagerada” por governos ocidentais, ONGs e imprensa.

“Algumas ONGs que trabalham em Darfur fazem grandes negócios inflando o número de vítimas e refugiados para obter mais fundos da comunidade internacional. Estes exageros também servem para as finalidades das potências estrangeiras que querem internacionalizar o problema com a intenção de dividir o Sudão”, argumentou. Para Salaama, há dois cenários possíveis caso seja emitida uma ordem de prisão contra Al-Bashir. “O Sudão pode entregá-lo ao TPI ou se recusar a fazê-lo, sendo que nesse caso o tribunal pode pedir ao Conselho de Segurança que imponha sanções graduais, sob os termos do Capítulo 7 da Carta das Nações Unidas”, explicou.

“Começariam com a suspensão das relações diplomáticas e podendo chegar à imposição de um bloqueio naval e, no pior dos casos, o uso da força militar para forçar o Sudão a cumprir a sentença do TPI”, disse Salaama. A tensão parece ter diminuído no domingo, quando o Conselho de Segurança estendeu o mandato da força de paz em Darfur por um ano. A resolução também chama à discussão do adiamento da acusação contra o mandatário por 12 meses, como pediram UA e Liga Árabe.

Embora Shebana considere que essa decisão é um bom pressagio para Cartum, que deve ser acompanhado por contínuos esforços árabes e africanos para evitar “uma escalada maior contra o Sudão”, Salaama é mais prudente. “Inclusive, se esse adiamento for concedido, isso não significará que o caso foi retirado da consideração do Conselho de Segurança”, afirmou. (IPS/Envolverde)

Khaled Moussa al-Omrani

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *