ACCRA, 25/08/2008 – (picture) Sementes de cacau. Crédito: Francis Kokutse/IPS A China parece estar a apoderar-se cada vez mais de qualquer mercadoria que possa ser extraída do Gana. Tudo está a ser exportado para a emergente superpotência asiática, desde resíduos e fragmentos de cobre, madeira e borracha natural até refugo de alumínio e verduras. O cacau é o último produto a ser acrescentado a esta lista. Segundo o Director Executivo do Conselho do Cacau do Gana (COCOBOD), Isaac Osei, o Gana deverá exportar 6.500 toneladas métricas para a China este ano.
Esta transferência de cacau deverá ser usada para pagar a construção de um projecto hidroeléctrico em curso em Biu, a noroeste da capital, Acra. Fontes governamentais disseram no ano passado que tinha sido celebrado um convénio contemplando o aumento da produção de cacau com vista a fornecer cacau adicional à China.
O comércio entre os dois países tem crescido durante os anos, sendo a China o principal beneficário.
Em 2000, as exportações para a China totalizaram só 25 milhões de doláres, tendo as importações ascendido a 93 milhões de doláres. As exportações cresceram até 32 milhões de doláres em 2003 e as importações atingiram 180 milhões de doláres. Em 2006, o valor das exportações subiu para 39 milhões de doláres enquanto que as importações aumentaram para 504 milhões de doláres.
Apesar do projecto de Bui, alguns ganeses estão preocupados com o facto de a a China estar a beneficiar da liberalização do comércio em África enquanto que o contrário não está a acontecer. Virtualmente todos os países africanos abriram as suas portas a importações baratas da China.
Num encontro em Acra da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), realizado em Abril deste ano em Acra, Osei explicou que os esforços do Gana no sentido de promover o comércio de cacau junto de países gigantes industriais como a China e a Índia estavam a ser minados por pautas aduaneiras impostas aos produtores dos países em desenvolvimento.
Osei afirmou que países em desenvolvimento como o Gana e a Costa do Marfim viam-se confrontados com pautas mais elevadas sobre as importações de cacau para a China e Índia do que os países menos desenvolvidos como o Benim, Guiné, Haiti, Togo ou Uganda. “Para nós, esse facto desencoraja o investimento no sector do cacau no país”.
Existe uma certa inquietação na indústria do cacau devido à forma como os países consumidores têm continuado a criar distorções nos preços do produto. Falando no mesmo encontro, o Ministro da Finanças ganês, Kwadwo Baah-Wiredi, explicou que havia um desequilíbrio no sistema de preços do cacau e instou os países produtores de cacau a trabalharem em conjunto.
Adiantou também que “a actual cadeia de valor do cacau-chocolate é caracterizada por um desequilíbrio pois enquanto que o fabrico e o processamento do produto estão bem posicionados no fim da cadeia de produção, os produtores de cacau continuam a receber uma percentagem pequena do preço final”. Embora a China ganhe maior visibilidade através de produtos baratos, alguns ganeses estão particularmente descontentes com a estratégia deste país asiático em relação ao seu país.
Um analista de produtos da BMT Associates em Londres, Alfred Neimann, disse à IPS que este acontecimento “é verdadeiramente surpreendente pois a China e a India têm mantido uma postura de liderança a favor da causa do desenvolvimento no mundo em vias de desenvolvimento”.
Acrescentou que “a China necessita de ser mais aberta e mais flexível, especialmente no que diz respeito ao seu relacionamento com os países do Sul. Essa é a única maneira de a China poder demonstrar que está do lado do desenvolvimento”.
Neimann disse não ser justo que a China – depois de ter tirado partido do sistema do comércio livre para inundar os países mais pobres, especialmente em África, com produtos baratos que não são necessáriamente de alta qualidade – esteja agora a impedir a entrada de produtos no seu território.
Gabriel Orji, funcionário que trabalha no Ministério do Comércio da Nigéria, afirmou que “não existem amizades quando se fala em comércio. O que está a acontecer entre a China e os Estados africanos neste momento faz parte de uma relação que está em evolução e que tem de ser definida e gerida de forma apropriada”.
Orji disse ainda que “África não se pode afastar de um predador para depois cair nas garras de outro”. Apontou que os Governos dos Estados africanos deviam usar os encontros com os seus parceiros chineses para explicar a situação a partir de uma perspectiva africana.
O estabelecimento de normas apropriadas é importante para o Gana. O país continua apostado em produzir um milhão de toneladas de cacau em 2010. Com este resultado, está interessado em encontrar mais mercados para os seus produtos, independentemente de outras tentativas tendentes a aumentar o valor dos seus produtos localmente.
A China é um mercado potencial e, com a melhoria das relações comerciais, é provável que o Gana venha a vender mais cacau visto que as infra-estruturas locais de processamento do produto ainda não estão suficientemente desenvolvidas.
Uma alternativa é encontrar outros mercados mais receptivos. Já houve um esforço diplomático no sentido de exportar cacau para Cuba mas vai levar algum tempo antes de isso acontecer. Assim, torna-se necessário encontrar uma forma de criar um ambiente favorável ao comércio sem obstáculos.
A indústria do cacau é um contribuidor importante para as receitas governamentais, além de dar emprego a um milhão de pessoas em seis distritos do país produtores de cacau. A indústria rendeu 1.2 biliões de doláres no ano passado.

