DESENVOLVIMENTO: Água, combustível e alimentos, crises interligadas

Estocolmo, 26/08/2008 – “O fantasma de uma crise que envolva os alimentos, combustível e a água” assedia a maioria das nações em desenvolvimento, alertou Lars Thunell, vice-presidente-executivo da Corporação Financeira Internacional, vinculada ao Banco Mundial. “Creio que estamos em um ponto de inflexão”, afirmou. A escassez de água representa uma ameaça ao fornecimento alimentar justamente quando o setor agrícola intensifica a produção, em resposta aos distúrbios pelo encarecimento dos alimentos e pelo aumento da fome e da má-nutrição. No encerramento da Conferência Internacional da Água, encerrada sexta-feira em Estocolmo, Thunell disse que a crescente demanda por água está superando a oferta.

Espera-se que a população mundial, de aproximadamente seis bilhões de pessoas, aumente para cerca de nove bilhões até 2050, com mais de 60% vivendo em megacidades. “Como o consumo de água aumenta onde há desenvolvimento e estilos de vida melhorados, podemos esperar demandas inclusive maiores de água doce”, disse Thunell. A agricultura, setor que faz um uso intensivo da água, está se expandindo, e a industrialização e a produção energética estão guiando a demanda, acrescentou.

A Conferência, que teve participação de 2.400 especialistas e funcionários governamentais, terminou com uma grave advertência: que a água e o saneamento se interligam nas raízes da crise alimentar, energética e climática. O Instituto Internacional da Água de Estocolmo disse que o lento avanço em matéria de saneamento fará com que o mundo fracasse no cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio das Nações Unidas. Ao mesmo tempo, uma política fraca, má administração, desperdício cada vez maior e eclosão das demandas hídricas empurrarão o planeta para o ponto de inflexão de uma crise mundial da água.

Os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, definidos em 2000 pela Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas incluem reduzir pela metade a proporção de pessoas que sofrem pobreza e fome (em relação a 1990), garantir a educação primária universal, promover a igualdade de gênero e reduzir a mortalidade infantil e a materna. Também contemplam combater a Aids, a malária e outras doenças; assegurar a sustentabilidade ambiental e fomentar uma associação mundial para o desenvolvimento, tudo isso tendo 2015 como data limite. Segundo estimativas da ONU, cerca de um bilhão de pessoas em todo o mundo ainda carecem de água potável, enquanto aproximadamente 2,6 bilhões carecem de saneamento adequado.

O diretor-geral do Instituto Internacional do Manejo da Água, Colin Chartres, disse que as causas da escassez hídrica são essencialmente idênticas às da crise alimentar. “Há fatores sérios e extremamente preocupantes indicando que as fontes de fornecimento de água estão perto de se esgotar em alguns países”, afirmou. Chartres destacou que, de acordo com estimativas atuais, o mundo não terá água suficiente para se abastecer dentro de 40 anos, “quando a atual crise alimentar poderá se converter em perpétua”. Também disse que ele e seus colegas cientistas ergueram uma bandeira de alerta: “se deseja-se evitar conseqüências nefastas” são necessários investimentos significativos em pesquisa e desenvolvimento de infra-estrutura hídrica.

Por sua vez, Thunell, da Corporação Financeira Internacional, disse que fornecer água limpa e serviços de saneamento não só representa oportunidades de negócios, mas também melhorar vidas. Acrescentou que os investidores vêem uma oportunidade no setor hídrico mundial, de US$ 450 bilhões, onde as ações têm um forte desempenho em todo o mundo. Algumas empresas privadas também vêem o fornecimento de água como um risco empresarial e o enfrentam como parte integral de sua estratégia de manejo de riscos. “Creio que o momento é o correto. Podemos evitar uma crise como sócios, trabalhando juntos”, disse Thunell. E acrescentou que a Corporação fará sua parte investindo em companhias que buscam oportunidades na conservação e qualidade da água, e incentivando associações público-privadas no setor hídrico.

Mas, Patti Lynn, diretora de campanhas da Corporate Accountability International, tem uma posição diferente sobre o papel do setor privado. “A crise se origina em uma confluência de problemas, mas, talvez, nenhum fator seja mais insidioso e corrigível do que a privatização do recurso”, disse à IPS. “Quando o acesso das pessoas à água limpa para beber depende dos interesses econômicos de um punhado de multinacionais, todos nós pagamos uma nova carga”, acrescentou. Consultada se a comunidade internacional cumprirá os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio referentes à água e ao saneamento até 2015, Lynn respondeu: “Não, se não mudarmos imediatamente o curso de ação”.

O Banco Mundial precisa deixar de colocar a privatização da água como condição para seus empréstimos, acrescentou Lynn. “Se o Banco está verdadeiramente interessado em aliviar a pobreza, suas condições deveriam ter um ponto de vista mais de longo prazo”, ressaltou. Manter a água sob controle local, pública e democrática é a maneira mais justa de garantir maior grau de acesso a esse recurso para uma quantidade maior de pessoas, afirmou a especialista. (IPS/Envolverde)

Thalif Deen

Thalif Deen, IPS United Nations bureau chief and North America regional director, has been covering the U.N. since the late 1970s. A former deputy news editor of the Sri Lanka Daily News, he was also a senior editorial writer for Hong Kong-based The Standard. He has been runner-up and cited twice for “excellence in U.N. reporting” at the annual awards presentation of the U.N. Correspondents’ Association. A former information officer at the U.N. Secretariat, and a one-time member of the Sri Lanka delegation to the U.N. General Assembly sessions, Thalif is currently editor in chief of the IPS U.N. Terra Viva journal. Since the Earth Summit in Rio de Janeiro in 1992, he has covered virtually every single major U.N. conference on population, human rights, environment, social development, globalisation and the Millennium Development Goals. A former Middle East military editor at Jane’s Information Group in the U.S, he is a Fulbright-Hayes scholar with a master’s degree in journalism from Columbia University, New York.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *