JOGOS OLÍMPICOS: Polêmica sobre minorias vai de Pequim a Vancouver

Vancouver, Canadá, 26/08/2008 – Os Jogos Olímpicos de Pequim lançaram uma nova luz sobre o tratamento que a China dá às suas minorias. O Canadá enfrentará uma polêmica semelhante, porém, menos árdua, como organizador em 2010 dos Jogos Olímpicos de Inverno na cidade de Vancouver. Muitas nações indígenas da província canadense de Columbia Britânica temem que o torneio reduza ainda mais seus tradicionais territórios, abrindo vastas áreas ao turismo e ao desenvolvimento de infra-estrutura, com prejuízo para as regiões de caça e pesca. Se suas queixas não forem atendidas rapidamente, disse o líder da União de Chefes Indígenas dessa província, os nativos realizarão marchas, atos públicos e abrirão processos judiciais para chamar a atenção internacional para a pobreza e a falta de serviços sociais em suas comunidades.

O grande chefe Estewart Phillip disse à IPS que se as negociações em marcha com o governo sobre a terra fracassarem “haverá uma grande atividade política, manifestação as frustrações em muitas comunidades nativas”. Cerca de 40% das crianças indígenas vivem abaixo da linha de pobreza, o mofo contamina quase a metade das casas das “primeiras nações” e cerca de cem de suas comunidades carecem de água potável, segundo um informe de 2006 preparado por vários grupos não-governamentais.

Na medida em que se aproximarem os Jogos Olímpicos de inverno, “é provável haja tensos enfrentamentos entre as comunidades aborígines e o Estado”, afirmou Wenran Jiang, diretor do Instituto da China na Universidade de Alberta. A seu ver, há pontos de comparação entre a situação do Canadá e a do Tibet, território anexado pelos chineses onde se reeditou o conflito entre as autoridades nacionais e a população local este ano. “Há setores da população desfavorecidos, dominados pelo grupo mais numeroso. A diferença é que as comunidades aborígines canadenses foram praticamente eliminadas. Foi um verdadeiro ato de genocídio”, disse à IPS.

Porém, a principal diferença, que dificulta estabelecer comparações, é que o Canadá, ao contrário da China, é uma democracia. O grande chefe Philip não acredita que Vancouver ofereça uma imagem semelhante à de Lhasa, capital tibetana, onde este ano houve protestos contra a ocupação por parte da politicamente dominante etnia Han, majoritária na China. Mas alguns ativistas aborígines canadenses poderiam adotar uma atitude mais belicosa.

Em março de 2007, membros da Sociedade de Guerreiros Nativos usando capuzes negros arrancaram a bandeira olímpica que ondeava no edifício da prefeitura de Vancouver para expressarem sua “solidariedade com todos os que lutam contra a destruição causada pelos Jogos Olímpicos” de invento de 2010. Uma declaração entregue à imprensa pelo grupo terminava com o lema “Não aos Jogos Olímpicos em terras nativas roubadas”.

O grande chefe Philip se preocupa em esclarecer que quatro nações originárias estabeleceram associações com o comitê organizador dos Jogos para colaborar com suas atividades. Muitos canadenses acreditam que os aborígines recebem do governo uma quantia de dinheiro mais do que justa, mas que a gastam de forma pouco inteligente. É um pensamento semelhante ao existente na China entre os membros da etnia han a respeito dos tibetanos. “O governo chinês investiu dinheiro no Tibet, mas a realidade é que a maioria dos tibetanos foi desfavorecida e que o chamado desenvolvimento originou sentimentos encontrados: a maioria desfruta de melhor padrão de vida, mas está preocupada com seu status e sua liberdade religiosa”, disse Jiang.

Os organizadores dos Jogos Olímpicos de inverno e os empresários, tanto nativos quanto não-nativos, têm a esperança de que o torneio possa atrair investimentos estrangeiros e novos desenvolvimentos imobiliários e de infra-estrutura para a Columbia Britânica, a qual definem como “o lugar mais bonito sobre a terra”. Um dólar canadense forte e outros fatores praticamente destruíram a indústria madeireira da região, que em tempos passados foi o pilar de sua economia.

Embora a maioria dos aborígines esteja a favor de um desenvolvimento maior, temem que a proliferação de novos hotéis, centros de esqui e estradas arrasem com seu estilo de vida tradicional. “O balanço ecológico natural será alterado e se perderá o habitat animal como resultado do enorme aumento da população e de infra-estrutura urbana”, afirmou Taiaiake Alfred, diretor do Programa de Governabilidade Indígena da Universidade de Victoria. “Isto tornará quase impossível às pessoas usarem suas terras para caça, pesca e propósitos cerimoniais”, acrescentou.

Em maio de 2006, a polícia prendeu duas dezenas de manifestantes, nativos e não-nativos, que tentaram bloquear os trabalhos de expansão de uma autopista, na qual foram investidos US$ 600 milhões, destinada ao transporte dos atletas e seus equipamentos desde Vancouver até o centro de esqui de Whistler. Jiang considera que os Jogos de inverno de 2010 são “uma boa oportunidade para assumir que nossas políticas para os aborígines devem ser melhor entendidas e contar com meios mais adequados para ajudar um grupo que se encontra em uma situação desvantajosa”. (IPS/Envolverde)

Chris Arsenault

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