ALIMENTAÇÃO: Crise agravada pelo desperdício de comida

Estocolmo, 26/08/2008 – A crise alimentar mundial, que foi motivo de distúrbios e manifestações em mais de 30 países em desenvolvimento no começo deste ano, se agrava pelo excessivo consumo e desperdício de comida. “A obesidade é um problema muito maior do que a desnutrição”, afirmou Jan Lundqvist, do Instituto Internacional da Água de Estocolmo (SIWI). O acadêmico disse que há 850 milhões de pessoas em todo o mundo que sofrem fome e inanição, contra mais de 1,2 bilhão que são obesas ou têm sobrepeso, o que pode causar uma grande variedade de problemas de saúde, como diabete e doenças cardíacas.

No contexto da Conferência Internacional da Água realizada na semana passada na capital sueca, Lundqvist disse a jornalistas que “melhorar a produtividade da água e reduzir a quantidade de comida desperdiçada pode proporcionar uma dieta melhor para os pobres e alimento suficiente às crescentes populações”. Um estudo intitulado “Economizando água”, divulgado em Estocolmo, diz que enquanto o risco de desnutrição diminuir com um fornecimento maior de alimentos, e garantindo o acesso, o risco de superalimentação e desperdício de comida aumenta quando esta se torna mais abundante em algumas sociedades.

Nos Estados Unidos, cerca de 30% dos alimentos, no total de US$ 48,3 bilhões, são jogados no lixo todos os anos somente nas residências. “É como deixar a torneira aberta e jogar 40 bilhões de litros de água na lata de lixo, suficientes para atender as necessidades domésticas de 500 milhões de pessoas”, diz o estudo elaborado em conjunto pelo SIWI, pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) e pelo Instituto Internacional de Administração da Água (IWMI). O trabalho diz que a comida desperdiçada é como a água desperdiçada, devido à grande quantidade do liquido usada no cultivo e no processamento dos alimentos.

John Anthony Allan, do King’s College, de Londres, é autor do conceito “água virtual”, referente ao liquido consumido pelas pessoas não somente quando bebem ou se banham, mas também quando adquirem alimentos. O conceito busca medir a água usada na produção e no comércio de alimentos, desde o campo de cultivo até a mesa da família. Uma xícara de café, por exemplo, representa 140 litros de água usados para cultivar, produzir, empacotar e transportar os grãos. Um único hambúrguer requer cerca de 2.400 litros de água, um quilo de carne bovina consome 15 mil litros, uma fatia de pão branco 40 litros e um quilo de queixo cinco mil litros.

“Fiquei muito surpreso com estes números. Chamam a atenção de todos”, disse Allan à IPS. Os números são o resultado de uma pesquisa científica feita por especialistas na Holanda. Charlotte de Fraiture, pesquisadora do IWMI, disse que se perde ou desperdiça metade da água usada pra produzir alimentos no mundo. “Detendo essas perdas e melhorando a produtividade, todos ganham: os produtores, os empresários, os ecossistemas e o problema da fome mundial”, acrescentou. Uma efetiva estratégia de economia de água necessita que se coloque na agenda política o problema do desperdício de alimentos, acrescentou.

O SIWI diz que uma redução de 50% nas perdas e no mau aproveitamento na cadeia de produção e consumo é uma meta necessária e alcançável. Por outro lado, um informe divulgado pelo Fundo Mundial para a Natureza (WWF) diz que enquanto na Grã-Bretanha cada pessoa utiliza 150 litros de água por dia, consome cerca de 30 vezes mais de “água virtual” em alimentos, roupas e outros artigos, equivalentes a 58 banheiras cheias todos os dias.

O estudo, intitulado “O rastro da água na Grã-Bretanha: o impacto do consumo britânico de alimentos e fibras nos recursos de água mundiais”, diz que esse país é o sexto maior importador de água. “Apenas 38% do uso total de água na Grã-Bretanha procede de seus próprios rios, lagos e reservas subterrâneas”, disse o especialista Stuart Orr do WWF. Orr afirmou que esta organização estimula algumas das principais empresas britânicas avaliarem seus rastros de água.

Segundo a WWF, um simples tomate do Marrocos exige 13 litros de água para ser cultivado, enquanto uma camisa de algodão do Paquistão ou Uzbequistão necessita de mais de 2.700 litros de água. O especialista disse que a maioria dos consumidores não tem conhecimento dessa situação. “Portanto, é essencial que empresários e governos identifiquem as áreas que poderiam potencialmente sofrer crise de água e desenvolver soluções para que não haja uma superexploração”, acrescentou. (IPS/Envolverde)

Thalif Deen

Thalif Deen, IPS United Nations bureau chief and North America regional director, has been covering the U.N. since the late 1970s. A former deputy news editor of the Sri Lanka Daily News, he was also a senior editorial writer for Hong Kong-based The Standard. He has been runner-up and cited twice for “excellence in U.N. reporting” at the annual awards presentation of the U.N. Correspondents’ Association. A former information officer at the U.N. Secretariat, and a one-time member of the Sri Lanka delegation to the U.N. General Assembly sessions, Thalif is currently editor in chief of the IPS U.N. Terra Viva journal. Since the Earth Summit in Rio de Janeiro in 1992, he has covered virtually every single major U.N. conference on population, human rights, environment, social development, globalisation and the Millennium Development Goals. A former Middle East military editor at Jane’s Information Group in the U.S, he is a Fulbright-Hayes scholar with a master’s degree in journalism from Columbia University, New York.

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