ECONOMÍA-AMÉRICA LATINA: Crescimento desacelerado

Santiago, 28/08/2008 – Os países da América Latina e do Caribe completarão em 2008 seis anos de consecutivos de crescimento econômico, apesar da piora do contexto econômico mundial e da previsão de um desaceleramento para o próximo ano, segundo estimativas da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe. Esta agência da Organização das Nações Unidas fixou em 4,7% a projeção de crescimento do produto interno bruto regional para 2008, completando seis anos seguidos de bonança econômica para a região. A nova secretária-executiva da entidade, a mexicana Alicia Bárcena, apresentou o “Estudo Econômico da América Latina e do Caribe 2007-2008. Política macroeconômica e volatilidade”, durante entrevista coletiva na capital chilena.

“Vemos que o cenário externo se deteriorou, mas dizemos que apesar disso há boas notícias, e isto se deve em grande parte ao fato de a região estar muito melhor preparada do que antes para enfrentar as dificuldades, principalmente porque tem um superávit positivo em conta corrente”, disse Bárcena. Superávit em conta corrente, finanças públicas mais ordenadas, menor dívida pública e melhoria em sua composição, além de maiores reservas internacionais são os fatores que, segundo a Cepal, permitem que a região seja menos vulnerável ao vai-e-vem da economia mundial.

Segundo as taxas de variação do PIB projetadas para 2008 pela Cepal, o Peru é o país que terá maior crescimento (8,3%), seguido de Panamá (8%), Uruguai (7,5%) e Argentina e Cuba (7% cada uma). O México, entretanto, será o país da região com menor aumento em seu PIB, 2,5%, pois “é o único mais dependente dos países desenvolvidos, porque 90% de seus produtos vão para os Estados Unidos e para a Europa”, explicou Bárcena. O Caribe crescerá 4% em 2008 e 4,2% em 2009, convertendo-se na exceção de uma expansão que irá desacelerar no próximo ano, segundo a Cepal.

O crescimento econômico regional está acompanhado de uma melhora nos indicadores do mercado de trabalho. Em 2007 “a região conseguiu reduzir sua taxa de desemprego de maneira significativa pelo quarto ano consecutivo”, com isto “acumulando uma queda de 3% a partir de 2003”, diz o estudo de 200 paginas. A Cepal estima que em 2008 a taxa de desemprego da região chegará a 7,5%. Bárcena também se referiu aos riscos para a região, ao considerar que “é provável que a desaceleração do crescimento se prolongue por mais algum tempo”.

“A inflação está aumentando, impulsionada principalmente pelo preço dos alimentos, que têm um papel muito importante em países com economias em desenvolvimento”, disse Bárcena. Em 2007, a inflação na região ficou em 6,5% e a projeção para este ano é de 7%. Com em abril, a Cepal demonstrou preocupação com os efeitos da carestia dos alimentos no aumento da pobreza na região. ‘Uma alta de 15% nos preços da comida provocaria um aumento da pobreza equivalente a 2,8%, o que se traduz em 15 milhões de indigentes na região”, disse Bárcena.

A deterioração da economia internacional se expressaria na região, segundo a Cepal, na redução das remessas de dinheiro por parte de trabalhadores imigrantes de países como El Salvador, Haiti, Honduras, Jamaica e Nicarágua, onde em 1007 representaram “entre 17,3% e 30,4% do PIB”. O principal país receptor de remessas é o México, mas estas representam apenas 2,4% de seu PIB. A menor demanda por bens primários das economias desenvolvidas e uma redução em seus preços internacionais é outro risco futuro estimado pela Cepal, que afetaria em maior média países da América do Sul.

Para a Cepal, que está completando 60 anos, “a estabilidade macroeconômica da região requer um manejo fiscal que, no mínimo, não amplie as oscilações próprias do ciclo econômico, e uma taxa de câmbio real estável que garanta um nível de competitividade adequado”, disse a Bárcena, que é bióloga. Consultada quando ao cumprimento regional dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio da ONU, afirmou à IPS que “a inovação tecnológica é o grande salto que a região precisa dar para melhorar a competitividade”.

Esses objetivos são uma grande plataforma com a qual se comprometeram os governos do mundo para combater a miséria e a desigualdade. Em setembro, a Cepal espera entregar um informe à Assembléia Geral das Nações Unidas sobre o grau de cumprimento das Metas do Milênio, cujo prazo de execução termina em 2015. (IPS/Envolverde)

Cecilia Vargas

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