TECNOLOGIA-ÁFRICA: Sem dados básicos não há desenvolvimento

Cidade do Cabo, 29/08/2008 – O sistema de Informação Geográfica (SIG) poderia ser uma valiosa ferramenta para melhorar a agricultura e a segurança alimentar na África, não fosse o fato de pouquíssimos países terem a capacidade para desenvolvê-lo, em parte por falta de dados básicos. O assunto foi discutido na terceira conferência Map Africa 2008, realizada nesta cidade sul-africana esta semana. A reunião versou sobre sistemas tecnológicos de informação geográfica, programas de computador que captam, armazenam, analisam, gerem, apresentam, controlam e expande dados espaciais vinculados à sua localização no terreno.

O SIG consiste em um mapa interativo que combina, em forma de tabela, dados com cifras e estatísticas com informação geográfica e espacial graças à informática. O sistema pode ter diferentes formas e tamanhos e adapta-se à situação que deve ser registrada, estudada ou analisada. Um desses exemplos é o Google Earth, capaz de mostrar aos usuários detalhes como uso de terras, assentamentos humanos, infra-estrutura, fontes de água e outros elementos geográficos. O Google Earth é um programa de informática que permite ver em três dimensões quase qualquer ponto do planeta, combinando imagens de satélite, mapas e o motor de busca da empresa norte-americana Google.

Para Anneliza Collett, do Ministério da Agricultura da África do Sul, o SIG é crucial para a gestão de terras. “Precisamos ter dados sobre erosão, recursos naturais e quais zonas são melhores para a agricultura”, afirmou. “O SIG nos dá essa informação porque combina todas as variáveis relevantes e necessárias em um sistema visual”. Para o diretor da unidade de topografia e cartografia do Ministério de Assuntos Agrários, Derek Clarke, essa tecnologia de informação geográfica pode desempenhar um papel muito importante na melhoria das práticas agrícolas na África.

“Quando os SIGs incorporam dados de clima, fontes de água, infra-estrutura e condições do solo podem mostrar quais regiões da África, em geral, ou quais países, em particular, são melhores para determinado tipo de agricultura”, explicou Clarke. Também pode-se saber se há mercados onde os agricultores podem vender sua produção e que tipo de infra-estrutura possuem. “Se existem, mas não há estradas para chegar até eles, a venda será impossível”, acrescentou.

O SIG também pode ser usado para evitar certos problemas. Um exemplo ilustrativo pode ser o que ocorre no lago Victoria, na Tanzânia. “Os pesticidas que terminam no lago e a expansão do estrangeiro e invasivo jacinto de água são desastrosos para as reservas de peixes e a pesca. O SIG pode ajudar a controlar melhor a situação”, disse Clarke. O governo dos Estados Unidos utilizou a tecnologia de informação geográfica para evitar um problema ecológico no rio Potomac no Estado da Virginia. “O rio foi seriamente afetado pelos pesticidas e pela agricultura”, explicou Clarke. “Estava verde por causa das algas. Hoje, o Potomac está são e azul outra vez. As autoridades usaram o SIG como ferramenta para analisar a situação e criar uma estratégia que resolvesse o problema”.

Nas mãos dos governos, a tecnologia pode contribuir para melhorar os serviços, disse Clarke. “Sabendo-se onde vivem as pessoas, é mais fácil decidir onde construir uma escola ou uma clínica. O sistema de informação geográfica também pode ajudar as autoridades a realizarem uma cartografia com os locais onde a malária tem maior incidência em relação aos assentamentos humanos. Esses dados são chave para implementar medidas paliativas e combater a enfermidade”, concluiu. Entretanto, apesar da importância e das vantagens do SIG, apenas uns poucos países africanos têm capacidade para desenvolver esses sistemas.

O maior problema é a coleta de dados. Não há bons mapas da África. “Há muita informação incompleta ou sem atualizar. Apenas um pequeno número de países, como a África do Sul, têm os meios para obter os dados de maneira eficiente”, disse Clarke. A falta de dados atualizados e de qualidade impede a criação de um SIG, concordou Collett. “A informação tem de ser precisa, atual e completa”, acrescentou. Isso é um problema na África. “Alguns países nem mesmo têm bem delineadas suas linhas costeiras”, ressaltou Clarke. “Outros não têm nem idéia de como está distribuída a propriedade da terra dentro de fronteiras. Os mapas apenas registram 45% das ruas e das áreas povoadas do continente”, afirmou. (IPS/Envolverde)

Miriam Mannak

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