POBREZA-ARGENTINA: Angústia na hora de comer

Buenos Aires, 02/09/2008 – A carestia dos alimentos tem impacto em especial na população pobre e lota os restaurantes populares na Argentina. A oferta é insuficiente, com centros que criaram listas de espera e outros que precisam fechar os olhos para a necessidade a fim de melhor administrar o pouco que têm. “Me parte o coração porque sei que são crianças que não tem o que comer, mas, não posso receber mais pessoas”, disse à IPS Estela Esquivel sobre crianças que ficam sem entrar à noite no restaurante La Casita de la Virgen, em La Cava, um grande assentamento irregular da localidade de San Isidro localizado entre bairros ricos ao norte próximo de Buenos Aires. Nesse centro não-governamental ceiam diariamente 160 meninos e meninas com suas mães em turnos de 35 porque o espaço é pequeno.

“Há dois anos tínhamos o dobro de gente e não é que agora a necessidade seja menor, acontece que recebemos muito menos alimentos disse Estela. Quase ninguém doa e o que o município nos dá para um mês é consumido em 15 dias”, acrescentou. O desequilíbrio entre a demanda e a oferta de alimentos em restaurantes populares, com matizes, se multiplica nos diferentes locais e mostra o impacto da carestia dos produtos básicos entre os mais pobres, tenham emprego ou não. “Alguns trabalham, mas vêem ao restaurante porque o dinheiro não é suficiente”, disse Estela Esquivel.

Na província de Buenos Aires, a mais populosa do país, o ministro de Desenvolvimento Social, Daniel Arroyo, admitiu que os preços em alta dos alimentos forçaram um aumento no orçamento para os restaurantes populares. “Desde março cresce a demanda alimentar”, admitiu em entrevista a um matutino local. Dados do Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec) indicam que a pobreza na Argentina baixou de 54% da população em 2002, o recorde histórico que chegou após o colapso político derivado da crise sócio-econômica do final da década de 90, até 20,6% dos 38 milhões de habitantes, em março último.

Entretanto, consultores privados discordam desses números. Indagado pela IPS, o sociólogo Ernesto Kritz, da Sel Consultores, disse que a pobreza voltou a crescer a partir de 2007, e no primeiro semestre deste ano chegou a 31,6% da população. O Indec está sob intervenção há 20 meses e seus dados estão sob suspeita de manipulação. Também são questionados os números oficiais da inflação. Segundo o Indec, este índice no último ano foi de 9,1% e de 3% a alta dos alimentos. Mas, estudos privados afirmam que os preços subiram, em média, entre 25% e 30% no último ano. Em alguns alimentos de consumo maciço, com farinha e óleo, a alta foi ainda maior.

Esses valores dificultam o acesso aos produtos, mas não por problemas de oferta. A Argentina produz alimentos diversos como carne, cereais, óleos e frutas para uma população 10 vezes maior do que a sua. Um informe divulgado em agosto pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) indicava que a alta dos preços dos alimentos, um fenômeno mundial, ameaça os avanços econômicos e sociais obtidos na América Latina nos últimos anos, como o crescimento econômico, o ordenamento das contas fiscais e a redução do desemprego e da pobreza.

“Uma piora de uma já muito desigual distribuição da renda é o principal impacto que se espera da alta dos alimentos, o que põe em risco avanços de vários países da região em relação aos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio”, diz o estudo da FAO intitulado “Aumento nos preços dos alimentos na América Latina e no Caribe”. Em toda a região, a média de preços dos alimentos duplicou no último ano finalizado em julho, segundo esta agência a ONU. “Enquanto em 2007 a inflação regional foi de 6,3%, em média, em julho deste ano atingia 8,7% e em vários países se encontrava em dois dígitos”, alerta o documento.

Para a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), que no mês passado emitiu seu habitual estudo econômico de tendências, 15% da alta no preço dos alimentos, que é o que vem se registrando, derivará em 2,8% de aumento da indigência regional, ou seja, cerca de 15 milhões de pessoas.

“Temos um número fixo de 350 pessoas por dia entre bebês, crianças, adolescentes e adultos, e oferecemos café da manhã e almoço”, disse à IPS Maria Rosa Rodríguez, do restaurante “Casa da Criança”, da Fundação Padre Parinello, na localidade de Quilmes, ao sul da cidade de Buenos Aires. “O número de pessoas varia um pouco, mas felizmente temos boas doações. O padre Luis Farinello é muito conhecido e também recebemos ajuda financeira do governo da província de Buenos Aires”, acrescentou. Entretanto, a ajuda não serve para melhorar a situação das famílias mais pobres, afirma Rodríguez.

“Há muitos anos que trabalho aqui e o que vejo é que as pessoas que estão em situação de risco não conseguem mudar suas vidas”, lamentou Rodríguez. “Há muitas mulheres e homens quase sem forças para procurar um emprego melhor e se conseguem é tão baixo o salário que não basta para melhorar sua situação”, ressaltou esta ativista do centro liderado pelo padre católico Farinello, de vasta trajetória em assistência social em assentamentos irregulares e com pessoas indigentes.

Rodriguez assegura que no restaurante há comida para todos que chegam para almoçar, mas não sabe o que acontece de noite, quando as famílias têm de conseguir seu próprio sustento. “Talvez não jantem. Noto que as crianças tomam o café da manhã com mais vontade do que nunca. Muitos pedem dois copos de leite e mais pão”, contou. Esta encarregada da coordenação pedagógica da creche expressou sua preocupação por outro sintoma de necessidades em aumento. O “cirujeo” (coleta informal de lixo) que antes começava aos 12 anos agora tem início mais cedo. “As crianças começam a sair com suas carroças aos 10 anos e deixam de lado a escola”, afirmou.

Em outras partes, os encarregados de assistência alimentar aos mais pobres acusam o aumento da demanda. A Associação de Restaurantes Comunitários de Corrientes, uma das províncias mais pobres do país, alertou este mês que o comparecimento aumentou 30% desde abriu e pediu mais alimentos. Em alguns casos, depois de aumentar até o limite o número de pessoas atendidas, os restaurantes populares decidiram abrir listas de espera para não ter que reduzir a quantidade de comida servida. (IPS/Envolverde)

Marcela Valente

Marcela Valente es corresponsal de IPS en Argentina desde 1990, especializada en cuestiones sociales y de género. Profesora de historia, alterna su labor periodística con la docencia en varias escuelas y talleres de periodismo. Ha dictado introducción al estudio de la sociedad y el estado en la Universidad de Buenos Aires y ha participado en cursos y talleres de periodismo en Alemania, Costa Rica, Dinamarca y Uruguay. Realizó coberturas en Brasil, Ecuador, Suecia y Uruguay. Comenzó su carrera en 1985 como colaboradora del diario argentino Clarín. También ha trabajado para El Correo de Bilbao (España), y el semanario uruguayo Brecha, entre otros medios.

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