QUÉNIA: Formação de Expectativas em Bairro de Lata de Nairóbi

NAIROBI, 03/09/2008 – (picture) Um quiosque de querosene em Kibera Crédito: Najum Mushtaq/IPS Pela primeira vez em 60 anos de existência, existe um raio de esperança para um milhão de habitantes de Kibera, um dos bairros de lata mais densamente povoados do mundo. Depois de passar a maior parte da sua vida em bancadas da oposição — ou na prisão — como defensor dos pobres, o Deputado deste círculo eleitoral desesperadamente pobre é agora o Primeiro Ministro do Quénia. “O principal dever de qualquer Deputado é para com os seus eleitores. Raila (Odinga) deve a sua porção de poder à juventude de Kibera que não só votou por ele mas também se revoltou para protestar contra a fraude eleitoral,” diz Eric Otieno, um jovem da comunidade maioritária dos Luo em Fort Jesus, uma das dezenas de aldeias neste bairro de lata de 260 hectares amontoado numa ravina nas colinas de Nairobi.

“Compreendemos os seus limites, visto que ele apenas partilha o poder político com o Presidente Kibaki. Mas tudo o que estamos a pedir é dignidade humana e sobrevivência básicas.”

Seja qual for o caminho que se toma para entrar em Kibera, a disparidade entre os pobres e os ricos de Nairobi é assinalável. Ou se passa por um clube de mergulho e uma igreja Católica majestosa, ou se contempla a Moi Kabarak, a sumptuosa residência do antigo Presidente Daniel Arap Moi, situada na esquina de um campo de golfe mesmo por trás das últimas barracas de Kibera.

O próprio Campo de Golfe Real fica adjacente a Kibera. As bolas mal atiradas dos aspirantes a jogadores de golfe por vezes caiem na tortuosa confusão de estreitos carreiros de terra batida e de pedra, orlados com montes de lixo e divididos por um labirinto de canais de esgotos a céu aberto, repletos de pessoas que lutam pela sobrevivência. As crianças atiram as bolas de volta e normalmente recebem uma moeda de 20 xelins que lhes é atirada dos luxuriantes e cuidados campos.

No papel, toda a zona de Kibera é propriedade governamental e toda a construção é ilegal. Mas os seus habitantes pagam diferentes rendas a 'senhorios' que, com a conivência de funcionários distritais e provinciais, conseguiram obter direitos para construir nestes terrenos.

A maioria das barracas tem aproximadamente 3 x 3 metros e é partilhada entre oito pessoas, estando coladas umas às outras por uma miscelânea de configurações diferentes. Quanto a casas de banho, os residentes têm de pagar para ter acesso a uma latrina tipo fossa usada por mais de 200 outras pessoas, ou defecar num saco e lançá-lo para o outro lado do muro.

De igual modo, o controlo das poucas canalizações que trazem água roubada está nas mãos de alguns indivíduos. Vinte litros de água custam dez xelins (6.5 cêntimos).

“Kibera é uma emergência diária contínua,” declara Caroline Testud, co-fundadora da Coligação para a Paz e Desenvolvimento (COPE), uma nova aliança de 14 grupos comunitários e ONGs. “É necessária a ajuda humanitária proporcionada pelas ONGs internacionais e locais, mas isso não substitui o papel do governo. Uma solução duradoura exige vontade política e acção governamental.”

Kibera, tal como bairros análogos em Kampala, Lagos, Lusaka ou Cidade do Cabo, significa o fracasso de proporções criminosas do Estado na gestão da urbanização.

O governo não tem nenhuma ideia precisa do que se passa em Kibera: não há qualquer mapa oficial da zona; o último censo realizou-se em 1987, e ninguém tem a certeza da taxa de mortalidade ou de quaisquer outras estatísticas sócio-económicas vitais. A população da zona é indicada como situando-se entre 700.000 e 1.2 milhões de pessoas.

Christian Skaro, aluno universitário e residente da aldeia de Ayani em Kibera, adverte contra o estereótipo de Kibera como local perigoso infestado de criminosos que é impossível visitar sem ser assaltado. “Não existem gangues nem guerras entre gangues em Kibera. Deve ser claro para todos que a maioria das pessoas aqui trabalha ou está à procura de trabalho. 65 por cento da mão-de-obra e força de trabalho industrial de Nairobi é originária de Kibera.

“E embora o governo não a reconheça como uma comunidade formal, os funcionários da Câmara de Nairobi e de outros departamentos estão sempre ocupados na recolha de impostos e de outras taxas dos lojistas e comerciantes de Kibera.

“Pode ver-se que é um lugar com vida. Vivem aqui pessoas. Pode ver-se o potencial das pessoas na forma como lidam com as necessidades de sobrevivência diária.”

Pastores e políticos comunitários

Não existem dados consolidados sobre as centenas de organizações que trabalham na zona, mas alguns activistas calculam que há mais de 700 ONGs e grupos comunitários que trabalham em projectos em Kibera, entre as quais se encontra uma multidão de expatriados a trabalhar para uma enorme variedade de siglas das Nações Unidas, e ainda ONGs internacionais e nacionais.

Em conjunção com esta situação existe um fervor religioso, palpável durante a semana, que culmina nos domingos, altura em que sermões nas igrejas e pastores nas ruas produzem uma cacofonia de barulho religioso. A maioria dos edifícios mais bem conservados em Kibera são igrejas ou mesquitas.

No entanto, especialmente depois da experiência da violência pós-eleitoral, está a aumentar o cepticismo da juventude sobre as ONGs e as igrejas.

“Durante muito tempo tivemos apenas duas espécies de dirigentes comunitários em Kibera: pastores e políticos comunitários. Fomos enganados por ambos. Agora está a surgir uma nova liderança na juventude que não quer ver o mundo através de lentes tribais e sectárias,” afirma Skaro.

No entanto, todas as pessoas com quem a IPS falou em Kibera estavam esperançadas que, com Raila na liderança, irão verificar-se mudanças. “Está disponível uma sólida plataforma para introduzir novas políticas. Existe uma força sólida de homens e mulheres organizados em que o nosso Deputado pode confiar,” declara Peter Obiero, professor de línguas, que acredita que as pessoas estão ansiosas por deixar o passado para trás e que estão a surgir sinais de mudança social.

Uma dessas iniciativas foi lançada há duas semanas. Passando por um grupo espontâneo de seis jovens que discutiam intensamente a política nacional a favor de Raila, para além de um montão de lixo onde alguém que remexia o lixo encontrara um par de peúgas e uma banana para o almoço, num campo adjacente a uma igreja restaurada depois de ter sido queimada há alguns meses na violência pós-eleitoral do Quénia, duas equipas femininas preparavam-se para jogarem um jogo de futebol que assinalava a inauguração das Mulheres de Kibera pela Paz e Justiça, um grupo de 300 mulheres afectadas pelo violência e que agora fazem parte da COPE.

A coordenadora do grupo, Jayne Anyango, reconheceu que muitas 'ONGs tipo malas' fizeram as pessoas duvidar do valor e da eficácia do activismo voluntário. Referiu também que o seu grupo integra mulheres que foram directamente afectadas pela violência, pelo que a sua motivação é muito pessoal.

“Não se pode pintar toda a gente com o mesmo pincel. Não procurámos qualquer financiamento e dependemos na íntegra das contribuições dos nossos membros e de apoiantes individuais. A filiação não está limitada a um grupo étnico ou religioso. É o nosso sofrimento comum. É necessário enfrentar e abordar o trauma que as nossas comunidades, especialmente as mulheres, sofreram este ano,” assevera Anyango, explicando o mandato do grupo.

O grupo reuniu-se pela primeira vez durante os problemas em Kibera após as eleições do ano passado. Até agora, para além de prestar assistência médica a aconselhamento psicológico a mulheres apanhadas na violência eleitoral, o grupo tem envidado esforços no sentido de envolver estas mulheres marginalizadas em actividades sociais para que desenvolvam um sentimento de comunidade.

Anyango discorda da sugestão que as ONG dedicadas ao desenvolvimento não alcançaram nada de substancial. “Uma vez que o governo não providencia praticamente nenhum serviço público, onde é que estaríamos sem a assistência médica, os programas de controlo de VIH, a educação e outros projectos essenciais providenciados pelas ONGs? O facto de haver um espaço permitindo mulheres como nós organizarmo-nos e sermos capazes de trabalhar em prol da paz é possível devido aos anos de esforço que os trabalhadores no campo do desenvolvimento provenientes do estrangeiro mas também locais têm envidado.”

Testud da COPE também acredita que, dada a capacidade limitada das ONGs e grupos comunitários, e perante a alterada paisagem política do país, o governo não pode continuar a ignorar as condições de vida do povo queniano. Assim, os contactos com o governo e a defesa dos direitos dos habitantes dos bairros de lata constitui um mandato central da COPE.

“Toda a gente reconhece que Kibera necessita de habitação social, água, saneamento e serviços de saúde básicos. Centenas de ONG e organizações de caridade têm estado a trabalhar nestes problemas há décadas. O motivo pelo qual não se consegue alcançar resultados sustentáveis é porque o problema é essencialmente político. Se alguém conseguir resistir a estes interesses poderosos e com ligações políticas, será a liderança política do país,” diz Caroline Testud.

“Com o regresso da paz, há uma subida gradual das expectativas. Estão a esgotar-se as desculpas para o fracasso,” acrescenta.

Najum Mushtaq

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