Nova York, 22/03/2005 – A raiva, a dor e medo em relação ao recrutamento forçado crescem nos Estados Unidos dois anos depois da invasão do Iraque, enquanto se fortalece a resistência armada nesse país do Golfo. E cada vez mais aliados pensam em retirar suas tropas. Conscientes das conseqüências de uma leva de recrutados, grupos norte-americanos contrários á guerra decidiram lançar uma campanha nacional chamada "No draft, no way" (Não ao recrutamento, de modo algum). Alguns já recorreram á desobediência civil bloqueando o acesso a centros de recrutamento militar em várias cidades. "Está claro que o Pentágono (Departamento de Defesa) tem em mente o recrutamento forçado", disse á IPS um dos organizadores da campanha, Dustin Langley. "Mas, antes, mobilizaremos todas as universidades do país", advertiu.
O grupo de Langley, chamado Troops Out Now Coalition (Coalizão para a retirada das tropas já) planeja lançar sua própria campanha no próximo dia 31 bloqueando os centros de recrutamento e organizando marchas estudantis. Algumas dessas ações foram registradas no último dia 19 em Nova York durante protestos gigantescos na véspera do segundo aniversário da invasão do Iraque. Oito ativistas foram detidos por tentarem bloquear ao cesso a centros de recrutamento, segundo os organizadores da manifestação. "Muitos de nós nos colocamos entre os centros e os jovens que querem usar como carne de canhão", contou Ruth Benn, uma ativista filiada á Liga de Resistência á Guerra, um dos grupos organizadores da marcha.
Alguns soldados norte-americanos que fizeram seu serviço militar no Iraque criticaram publicamente a política do governo. Vários fugiram para o Canadá, onde pediram asilo, e centenas pediram proteção judicial por "motivos de consciência", informou o Centro sobre Consciência e Guerra, que assessora o exército sobre licenciamentos por razões éticas. Dezenas de milhares de pessoas foram ás ruas de diferentes cidades dos Estados Unidos no sábado, como em outros países, para pedir o fim da ocupação do Iraque e a retirada imediata das tropas norte-americanas desse país. Em comemoração do segundo aniversário do lançamento do ataque ao Iraque, grupos pacifistas dos Estados Unidos organizaram mais de 800 atividades em todo o país, que incluíram marchas, ações de desobediência civil, vigílias, representações teatrais e exposições de arte.
Em Nova York, a maior cidade norte-americana, os manifestantes se reuniram diante da sede da Organização das Nações Unidas e marcharam rumo a Times Square. Em silêncio, carregaram centenas de caixões simbolizando os mortos causados pela guerra no Iraque. "Precisamos de políticas para ajudar os pobres deste país, não de guerras", disse Ted Desoyza, uma mulher de 76 anos que carregava um caixão envolto pela bandeira dos EUA. "Esta guerra é para as grandes empresas e seus lucros. Elas não têm direito de governar este país", acrescentou. "Choramos a morte de todos", afirmou outra mulher que carregava um caixão envolvo em pano negro, representando os civis iraquianos mortos na guerra. Outra marcha maciça partiu do histórico bairro negro do Harlem com destino ao Central Park de Nova York.
Desde a invasão do Iraque, lançada em 20 de março de 2003, morreram mais de 1.500 soldados norte-americanos e 25 mil ficaram feridos. O Pentágono nunca divulgou números sobre a morte de civis iraquianos, mas organizações de direitos humano estimam que já chegam a cem mil. Enquanto centenas de milhares de pessoas protestavam contra a guerra em todo o mundo, Bush a defendia em um discurso pelo rádio, argumentando que teve por finalidade "desarmar um regime brutal, libertar seu povo e defender o mundo". O principal argumento de Bush e seus aliados para lançar a guerra foi que o deposto presidente iraquiano Saddam Hussein possuía armas de destruição em maça que ameaçavam a segurança dos Estados Unidos e do mundo, porém, essas armas nunca foram encontradas.
Bush "só trouxe vergonha para o povo norte-americano", disse aos manifestantes Howarde Zinn, um renomado historiador norte-americano e autor do livro "A people?s history of the United States". "Ele diz que está lutando uma guerra contra o terrorismo, mas, a própria guerra é terrorismo", afirmou Zinn. Nenhum líder do opositor Partido Democrata participou dos protestos nem discursou. Na Grã-Bretanha, Austrália e no Japão, países que mantêm tropas no Iraque, houve protestos maciço, bem como em outros países da Europa e islâmicos. (IPS/Envolverde)

