Fernando Savater: "O mundo, quanto mais justo, mais seguro"

Madri, 22/03/2005 – O filósofo e escritor basco Fernando Savater concedeu esta entrevista pouco depois do aniversário do atentado com bombas em quatro trens lotados no dia 11 de março de 2004, que matou 192 pessoas e feriu milhares na capital da Espanha. Savater (San Sebastián, 1947) é acadêmico de filosofia e autor de numerosos ensaios traduzidos para uma dúzia de idiomas. É dirigente do movimento Basta Já, que representa as vítimas do terrorismo no País Basco.

P- No governo anterior, de José María Aznar, se dizia que não se devia falar das causas do terrorismo porque não existe nada que possa justificá-lo. O certo é que ainda não existe uma definição aceita internacionalmente. Por que isto é tão importante?

R- Creio que há um mal-entendido quando se diz que todos os terrorismos são ilegais. É o mesmo que dizer: todas as doenças são igualmente mortais. Mas um câncer não é o mesmo que a aids. São todas ruins, mas não são iguais. É preciso saber o que as causa para poder tratá-las. Da mesma maneira e sem nenhuma intenção de justificar o terrorismo, deve-se conhecer suas causas. O terrorismo étnico não é o mesmo que o religioso e nem o dos pobres é o mesmo dos ricos. Existe um tipo de violência que às vezes é a explosão pela qual as pessoas se rebelam a que não deixa nenhum outro caminho de expressão. Tentar matar Hitler foi um ato terrorista, mas parece que não havia muitas outras opções. Embora não o aceitemos moralmente, também temos de reconhecer que, como criaram uma excepcionalidade política à sua volta, algumas pessoas tampouco podem esperar se tratadas de maneira normal. Por outro lado, há outros terrorismos que surgem do desejo de poder, de imposição.

Em geral, o que todos comprovamos é que os terrorismos não resolvem os problemas, nem mesmo pelos quais se movem. Osama bin Laden é um milionário e nunca tirou ninguém da pobreza. Não vai resolver os problemas do terceiro mundo nem do mundo árabe. Pode aproveitar a ira ou a raiva (dos pobres). Há casos de terrorismo de ricos contra pobres, como no País Basco, onde são precisamente os ricos e os donos da sociedade os que praticam o terrorismo para acabar com as ambições dos demais. Pode-se ter uma mesma condenação para todos os terrorismos e entretanto não se deve deixar de estudá-los, porque existe algum tipo de terrorismo que poderia ser resolvido lutando contra a injustiça e a desigualdade. É também uma forma de evitar restrições ao terrorismo. O mundo, quanto mais justo, mais seguro. Deveríamos buscar a justiça também por egoísmo.

Mas tampouco se deve fazer a idéia de que só isso resolve as coisas porque, por exemplo, os terroristas que na Espanha cometeram o atentado de 11 de março de 2004 eram pessoas integradas socialmente e estavam em situação regular. Sem isso, agora estaríamos lamentando: claro, se tivessem sido regularizados, se tivessem trabalho. Mas tinham tudo isso e agiram por fanatismo religioso. É preciso melhorar as condições sociais por dignidade humana antes que por prudência. Para mim, uma das coisas que me deixa mais nervoso é a afirmação, que acaba de ser feita pelo nosso primeiro-ministro (Rodríguez Zapatero),de que toda violência é inútil.

A violência é a coisa mais útil do mundo, por isso está proibida. Se fosse permitida, a utilizaríamos para que a vizinha nos concedesse seus favores ou para que o banco nos desse dinheiro mesmo que não o tivéssemos… A violência é útil, e o País Basco é uma claríssima prova. Graças à violência conseguiu expulsar 200 mil pessoas do país (10% da população), criar uma situação em que as políticas adversas ao nacionalismo praticamente não têm voz nem voto, as pessoas vivem assustadas e não se atrevem a dizer o que pensam em voz alta. Felizmente, podemos dizer que não é onipotente.

P- E qual a sua definição?

R- Existem palavras muito fortes que correm o risco de se converterem em curingas e perder seu significado, como ocorreu com fascista. Agora, fascista é tudo o que me contraria, o que pisa meu pé no ônibus, minha sogra. No mundo há fascistas de verdade, mas nem todas as pessoas insuportáveis o são.

O mesmo acontece com a palavra terrorista. Chama-se de terrorista o marido que estapeia sua mulher, o senhor que fala pela rádio e diz truculências… Há muitos crimes também muito maus que não são terrorismo. Mas terrorismo é usar a violência contra civis com o objetivo de criar mudanças políticas ou de governo; usar civis como reféns para pressionar o governo ou as instituições a mudarem sua política. Bombardear uma população é uma coisa muito má, porém, não é terrorismo.

P- Quais casos justificam os atos de terrorismo? Pode-se comparar a situação, por exemplo, à resistência na Espanha contra as invasões napoleônicas?

R- E com a resistência francesa contra a invasão alemã. Em um país invadido em outro, a resistência comete atos que o invasor considera terrorismo mas que, para o invadido, é uma guerra de libertação. No caso do Iraque, parece que os atos que são cometidos não só contra as tropas de ocupação, mas também contra os próprios iraquianos e as autoridades iraquianas. Creio que são atos de terrorismo canônicos. Mas também pode ser cometido por grupos que sintam que agem porque existe uma situação de ocupação.

P- Costuma-se falar das vantagens da democracia na luta contra o terrorismo. Na Espanha, a ditadura não pôde com o terrorismo, nem a democracia pode.

R- A democracia é boa para os países, não para a luta contra o terror. É muito vulnerável, é legalista. Todas as democracias procuram dar garantias a qualquer um por mais criminoso que seja, e naturalmente alguns se aproveitam dessas garantias. Em uma ditadura férrea, provavelmente seja mais fácil controlar a população, mas também tem o perigo de produzir mais pessoas dispostas a engrossar as fileiras do terrorismo. Não temos que estabelecer se para acabar com o terrorismo seria melhor uma ditadura.

P- Mas a democracia aprovou medidas de exceção para combater o terrorismo, como nos Estados Unidos.

R- Quando se fala da relação entre liberdade e segurança, há uma escala de coisas que podem ser feitas. É evidente que toda busca de segurança sempre limita algum tipo de liberdade. Há limitações da liberdade que são necessárias. Mas não se pode aceitar a suspensão das pautas legais: deter pessoas sem julgamento, mantê-las detidas durante meses sem processo, negar-lhes uma defesa. Isso é injustificável, vai contra a própria estrutura de uma democracia.

P- O que significou o 11 de março para as vítimas do terrorismo na Espanha?

R- Foi um atentado de extraordinária envergadura. Não só nunca havia ocorrido na Espanha, como tampouco na Europa comunitária. Mas há uma coisa que às vezes não se entende: assim como todos os terrorismos não são iguais, nem todas as vítimas o são. Todas as vítimas são iguais no sentido de que todas merecem apoio, ajuda, compreensão. Mas as vítimas que os terroristas buscam por serem quem são não são iguais às vítimas que estavam ali quando as bombas explodiram. Todas as vítimas do 11 de março são vítimas do terrorismo, mas vítimas acidentais. Por outro lado, as do País Basco são vítimas com nome e sobrenome que os terroristas foram buscar por razões perfeitamente claras, com uma tentativa determinada de atacar certos corpos de segurança, instituições, imprensa, atitudes públicas. Isso é muito diferente, porque essas vítimas têm um perfil político muito mais claro do que outros.

As reações também são diferentes. Em Madri, foram realizados atos em lembrança às vítimas do 11 de março. Estas manifestações no País Basco nunca aconteceram, porque as pessoas não se atrevem. Aqui, sabem que os integralistas muçulmanos não farão nada contra as exposições de pintura, enquanto que no País Basco sei que pode te acontecer algo. Além disso, na Espanha não existe nenhum grupo político que apóie os terroristas islâmicos, enquanto que no País Basco existem os que apóiam os terroristas. (IPS/Envolverde)

(*) Miren Gutiérrez é chefe de redação da agência IPS.

Correspondentes da IPS

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