FINANÇAS: A crise chega aos investimentos

Genebra, 25/09/2008 – Os males da crise financeira e a contração das economias, que se propagam desde os Estados Unidos, repercutem nos investimentos internacionais, com uma redução este ano de 10% em relação ao nível recorde de 2007, quando somaram US$ 1,8 trilhão Na apresentação do Informe sobre os Investimentos no Mundo 2008, o secretário-geral da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad), Supachai Panitchpakdi, previu que os investimentos estrangeiros diretos somente chegariam este ano a US$ 1,6 trilhão. Todos os aspectos relacionados com os investimentos dependeriam da magnitude e duração da crise atual, previu Supachai.

O chefe da Unctad saudou a iniciativa de Washington de intervir novamente no mercado financeiro com o lançamento de uma operação de salvamento de pelo menos US$ 700 bilhões para cobrir as perdas dos grandes bancos e das instituições financeiras privadas. “Todo o mundo concorda que é economicamente viável a tentativa do governo norte-americano de enfrentar a crise financeira com um pacote amplo de apoio ao sistema, que é muito necessário”, disse Supachai a respeito da proposta governamental que está dependendo de aprovação no Congresso.

Supachai recordou que a Unctad, criada em 1964 para apoiar as políticas dos países em desenvolvimento, vem sustentando há tempos “a necessidade de colocar o sistema financeiro dentro de um contexto regulatório, de modo a haver mais transparência e prestação de contas”. A Unctad destaca que, apesar do funcionamento do mecanismo liberal do mercado, “é inevitável que o Estado regresse e desempenhe um papel mais marcante” na área financeira, destacou o chefe desta agência especializada da Organização das Nações Unidas.

A crise financeira, que já havia começado a insinuar-se em agosto de 2007, não interrompeu nesse período o ciclo de quatro anos consecutivos de crescimento do investimento estrangeiro diretor, até chegar à quantia de US$ 1,833 trilhão, que superou o recorde anterior registrado em 2000. Apesar das penúrias financeiras e creditícias que apareceram na segunda metade de 2007, os países industrializados, as naçoes em desenvolvimento e as economias em transição para um mercado liberal do sudeste da Europa e da Comunidade de Estados Independentes (CEI), experimentaram um aumento contínuo da entrada de investimentos.

O aumento dos investimentos estrangeiros diretos derivou em grande parte do crescimento econômico relativamente elevado e dos bons resultados alcançados pelas empresas em muitas partes do mundo. Também contribuiu até certo ponto a depreciação do dólar em relação a outras importantes moedas. Mas, os fluxos de investimentos mostraram também um aumento considerável, medido em moedas locais. Com estes parâmetros, o crescimento de 2007 foi de 23%.

Os países em desenvolvimento obtiveram aumento de 21% na entrada de investimentos, até alcançar um valor aproximado de US$ 500 bilhões. Nesse comportamento influíram o auge dos preços dos produtos básicos e as melhoras nas políticas de acolhida dos investimentos. Cerca de 75% das reformas introduzidas nos regimes de investimento estrangeiro foram favoráveis aos investidores, segundo a interpretação da Unctad. O restante correspondeu a modelos mais restritivos aplicados principalmente a indústrias extrativas da América Latina, em particular na Bolívia e Venezuela.

Entretanto, a Unctad aceitou que essas restrições refletiram preocupações estratégicas e de segurança nacional. Cerca de dois terços desse aumento nos países em desenvolvimento seguiram para a Ásia, um terço para a América Latina e o Caribe e um décimo à África. Os países da CEI, ex-membros da extinta União Soviética, registraram um recorde de entrada de US$ 74 bilhões. Também obtiveram marcas sem precedentes dos países menos avançados, com US$ 13 bilhões, e os africanos, com US$ 53 bilhões.

Um dado singular do investimento estrangeiro direto foi a confirmação dos fundos soberanos como motores de um número cada vez maior de fusões e aquisições transfronteiriças, a principal modalidade do fluxo. Os fundos soberanos foram criados por alguns governos, a partir da década de 50, com a finalidade de investir economias estatais em ativos estrangeiros. Esses fundos costumam assumir maiores riscos e pretender rendimentos mais elevados do que outras colocações tradicionais efetuadas pelas autoridades monetárias.

Por exemplo, a Government Investment Corporation (GIC), controlada pelo governo de Cingapura, socorreu em março a UBS (antes conhecida como União de Bancos Suíços) ao adquirir uma participação de US$ 9,8 bilhões no capital da principal entidade financeira suíça e primeira vítima de destaque da crise desatada pelos créditos hipotecários nos Estados Unidos. Em coincidência com o informe sobre os investimentos em 2008, a Unctad distribuiu também um estudo sobre as perspectivas de investimento no período 2008-2010.

Esse trabalho indica que a contração da economia e a instabilidade financeira obrigaram as empresas multinacionais a serem mais cautelosas com relação aos seus investimentos estrangeiros diretos de médio prazo. A maioria dessas companhias consultadas pela Unctad responderam que mantêm suas intenções de aumentar o fluxo de investimentos nos três próximos anos, mas de maneira mais moderada, explicou Anne Miroux, a chefe da equipe que elaborou os dois documentos.

Os cinco países considerados mais atraentes pelas multinacionais para enviar seus investimentos futuros são Brasil, China, Índia, Estados Unidos e Rússia. A Unctad afirmou que o interesse por Brasil e Rússia já figurava no estudo do ano anterior, embora agora tenha aumentado notavelmente. Nesta lista fugiram a seguir Vietnã, Alemanha, Indonésia, Austrália, Canadá, México, Grã-Bretanha, Polônia, África do Sul, França e Turquia. (IPS/Envolverde)

Gustavo Capdevila

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