Bruxelas, 26/09/2008 – A instabilidade dos mercados financeiros e a desaceleração da economia mundial, conseqüências da bancarrota bancária norte-americana, ressalta as desigualdades dentro da União Européia. Por um lado, os altos executivos das empresas francesas tiveram um aumento de quase 60% em sua renda no ano passado, frequentemente ultrapassando os US$ 9 milhões anuais. Por outro lado, 43 milhões de cidadãos da UE correm o risco de não poderem comprar comida que contenha suficientes proteínas essenciais todos os dias. Parece ser o momento oportuno para introduzir firmes regulamentações para prevenir comportamentos temerários do setor financeiro, afirmam analistas.
O presidente da França, Nicolas Sarkozy, cujo país exerce até o fim do ano a presidência rotativa da União Européia, qualificou esta semana de “aloucadas” as regras pelas quais os mercados mundiais foram regidos durante muitos anos. Em particular, apontou contra as agências de avaliação de riscos financeiros. Não apenas a França, mas também a Alemanha e a Comissão Européia – braço executivo da UE – as criticaram por sua lentidão em alertar os investidores sobre os perigos que os ameaçavam após a explosão em 2007 da “bolha imobiliária” especulativa nos Estados Unidos.
“Devemos construir um capitalismo no qual essas agências de avaliação estejam sujeitas a controles e sejam punidas quando necessário, no qual a transparência substitua a opacidade”, disse Sarkozy na terça-feira perante a Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas. “Atualmente, essa opacidade é tamanha que temos dificuldades até para compreender o que esta ocorrendo”, acrescentou. Mas, nem todos os altos funcionários da União Européia estão convencidos da necessidade de introduzir regulamentações no mercado financeiro.
Charlie McCreevy, comissário europeu encarregado de supervisionar o funcionamento do mercado único, optou por não intervir em relação aos chamados fundos de cobertura (hedge funds), que são utilizados por investidores endinheirados para acumular enormes ganhos através da especulação. Entre suas questionadas práticas figura a venda de ações tomadas por empréstimo de uma companhia com a esperança de poder recomprá-la a um preço menor. Embora esses fundos exerçam uma considerável influência sobre os mercados, não estão regulamentados da mesma maneira que outras instituições – como os bancos – estão. Quando no ano passado a Alemanha propôs que suas operações fossem transparentes, tanto Estados Unidos quanto Grã-Bretanha se opuseram.
McCreevy afirmou esta semana que esses fundos têm um papel positivo. Argumentou que os bancos convencionais são mais responsáveis pelos problemas do sistema financeiro internacional. “Quero ser claro. A economia européia necessitará de investimentos maciços. Sem os fundos soberanos, as ações de empresas privadas e outros instrumentos similares, a recuperação da crise atual será mais lenta”, afirmou. Alguns membros do Parlamento Europeu criticaram severamente os comentários de McCreewy. Prinsias de Rossa, do Partido Trabalhista irlandês, citou o exemplo do multimilionário John Paulson, que operou no ano passado o fundo de cobertura dos Estados Unidos de maior êxito “apostando” contra as hipotecas de alto risco que, finalmente, desataram a crise.
Esta semana soube-se que Paulson destinou US$ 1,5 bilhão a uma manobra especulativa que buscava a queda do preço das ações de bancos britânicos. Rossa afirmou que se McCreevy não reconhecia o dano causado à economia por essas atividades deveria “ser forçado a renunciar”. O eurodeputado francês Francis Wurtz disse que a Europa deveria apoiar o chamado do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva de criar um imposto internacional sobre os fluxos de capitais. Segundo Wurtz, os ministro das finanças europeus “devem abandonar suas torres de marfim e olhar o que acontece com as pessoas comuns, que estão sofrendo para beneficio dos especuladores. Ao apoiar os mercados, estão condenando as pessoas e as sociedades ao desespero”, afirmou.
Martin Schulz, chefe do bloco socialista no Parlamento Europeu, disse que “o capitalismo selvagem está ameaçando economias inteiras. O que observamos não é apenas a bancarrota de algumas instituições financeiras, mas a quebra de uma filosofia econômica”. Durante anos “nos disseram que somente o capitalismo podia gerar crescimento. Esse é o sistema que agora está desmoronando”, acrescentou. (IPS/Envolverde)

