DIALOGUES: “A prosperidade futura está nas tecnologias verdes”

TORONTO, 30/09/2008 – (Tierramérica).-Em tempos de crise econômica, a virada para uma economia baixa em carbono é o investimento mais sábio para qualquer país, afirma nesta entrevista o diretor-executivo do Pnuma, Achim Steiner.

Achim Steiner, diretor-geral do Pnuma - Cortesia Pnuma

Achim Steiner, diretor-geral do Pnuma - Cortesia Pnuma

Achim Steiner, o eloqüente diretor-executivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), acredita que o México pode se converter em líder de uma nova economia verde. “O Pnuma quer documentar novos esforços criativos para uma próspera economia verde”, disse Steiner, ao justificar seu encontro com o presidente mexicano, Felipe Calderón, no dia 22 deste mês.

Steiner, nascido no Brasil, foi eleito diretor-executivo do Pnuma pela Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas em março de 2006, por um período de quatro anos. Deixava, então, seu cargo como diretor-geral da União Mundial para a Natureza (UICN), entre 2001 e 2006. Em 1998, foi designado secretário-geral da Comissão Mundial de Represas, com sede na África do Sul.

Em entrevista ao Terramérica via correio eletrônico, Steiner comemorou o fato de o México implementar “iniciativas ambientais significativas, como o Plano Nacional de Desenvolvimento, que tem entre seus cinco pilares o meio ambiente”. Também destacou que esse país, que será sede, no dia 5 de junho do próximo ano, do Dia Mundial do Meio Ambiente, “pode ter um papel crucial na conferência de 2009 sobre mudança climática, em Copenhague”, e que pode se converter em “exemplo de uma economia verde de sucesso para o restante da América Latina”.

TERRAMÉRICA: Como todos os países latino-americanos, o México voltou-se à exploração de seus recursos naturais – petróleo, gás, minerais, agricultura – para garantir o crescimento econômico. O senhor acredita que isso esteja mudando?

ACHIM STEINER: O México está em uma encruzilhada entre a economia tradicional, guiada pelos recursos, e a nova economia verde. A prosperidade futura está nas tecnologias verdes. O México já se movimenta nessa direção. Somente no ano passado, exportou produtos solares voltáicos no valor de US$ 2,3 bilhões. O Programa para a Promoção de Aquecedores Solares de Água (Procalsol) pretende ter 2,5 milhões de metros quadrados de sistemas instalados até o final de 2011. Construir e instalar estes sistemas pode gerar cem mil novos empregos. Até 2020, se poderia aumentar para 23,5 milhões de metros quadrados de sistemas instalados, evitando a emissão de 27 milhões de toneladas de dióxido de carbono na atmosfera. Isso é muito significativo.

TA: O que acontece com outros países da América Latina?

AS: Brasil e Costa Rica estão liderando essa transição. Necessitamos de uma economia totalmente diferente para evitar a perigosa mudança climática. É crucial que os países se ajudem, para que possamos avançar a um ritmo muito maior.

TA: O Protocolo de Kyoto (assinado em 1997 e em vigor desde 2005) criou o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) para ajudar a transferir e financiar tecnologias não poluentes aos países pobres. A América Latina se beneficiou disso?

AS: Dados muito recentes do Centro Risoe do Pnuma, na Dinamarca, estimam que o Brasil é o líder, com 303 projetos de MDL. Desde setembro, o México é o segundo, com 187, que já foram aprovados ou estão em fase de aprovação. Em 2004, o México conseguiu apenas quatro projetos, por isso este aumento é destacável. O Chile vem em terceiro lugar, com 56 iniciativas, seguido de Colômbia, com 32, Argentina, 30, e Panamá, que em 2004 não tinha nenhum, com 14. Os especialistas do Risoe enfatizam que a América Latina tem enormes oportunidades em matéria de eficiência energética. Até 2012, pode haver um total de 1.600 projetos de MDL na América Latina e no Caribe, em processo ou aprovados, duplicando a quantidade atual. Isto significa que à região está chegando muita tecnologia e muito financiamento. Esperamos uma expansão significativa dos MDL nos próximos dez anos, o que equivalerá a centenas de milhares de milhões de dólares.

TA: O senhor acredita que a mudança climática é um assunto considerado importante na América Latina?

AS: O público está preocupado. Muita gente sofreu a ação de furacões, secas e inundações, que vão piorar no futuro. É imperativo agir. O MDL está fornecendo fundos e tecnologia para facilitar a transição para as economias mais verdes, menos intensivas em produção de carbono.

TA: As nações do mundo se reunirão em 2009, em Copenhague, para negociar um novo tratado que aborde a crise da mudança climática. Que papel se espera do México?

AS: O México tem um papel muito importante de liderança a cumprir, atuando como ponte entre o Norte (industrializado) e o Sul (em desenvolvimento). Devemos encontrar um acordo justo para todos os países, e creio que a experiência do México será de um valor inestimável. O êxito mexicano no MDL é um bom exemplo do que se pode conseguir em transferência de tecnologia e financiamento.

TA: A crise financeira norte-americana está afetando os mercados globais. Qual deveria ser a resposta adequada?

AS: Cada vez que há uma crise econômica, se perde a perspectiva de longo prazo. Mas a virada para uma economia baixa em carbono é o investimento mais sábio que pode fazer qualquer país. Os investimentos em eficiência energética, por exemplo, criam emprego e reduzem custos energéticos e emissões de carbono. É uma estratégia de ganho total. Quando a economia se complica, o melhor investimento é em tecnologia verde. Os novos investimentos nestas tecnologias passaram de US$ 148 bilhões em 2007, o que supõe um aumento de 60% em relação a 2006. A era do petróleo barato acabou.

* O autor é correspondente da IPS.

Stephen Leahy

Stephen Leahy is the lead international science and environment correspondent at IPS, where he writes about climate change, energy, water, biodiversity, development and native peoples. Based in Uxbridge, Canada, near Toronto, Steve has covered environmental issues for nearly two decades for publications around the world. He is a professional member of the International Federation of Journalists, the Society of Environmental Journalists and the International League of Conservation Writers. He also pioneered Community Supported Environmental Journalism to ensure important environmental issues continue to be covered.

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