Caracas, 02/10/2008 – A crise financeira que sacode os Estados Unidos repercutirá no resto do mundo e, portanto, significa que “virão tempos difíceis para a América Latina”, disse à IPS o secretário permanente do Sistema Econômico Latino-Americano (Sela), o mexicano José Rivera Banuet. Os dias que se avizinham, “mostrarão maiores dificuldades para continuar fazendo progressos, como nos últimos anos, na luta contra a pobreza e a indigência”, afirmou o dirigente deste órgão multilateral de 26 Estados da América Latina e do Caribe com fins de coordenação e cooperação econômica.
A relação regional com a economia norte-americana “será afetada em pelo menos cinco dimensões: turismo, investimentos, financiamento (remessas de dinheiro por emigrantes) e comércio”, afirmou. “A desaceleração econômica dos Estados Unidos será mais aguda quando a atual crise financeira passar para a economia real, com os conseqüentes efeitos na redução da demanda e na contração dos aspectos vinculados ao financiamento e aos investimentos”, ressaltou Banuet.
O investimento direto dos Estados Unidos na região chega a US$ 50 bilhões ao ano, enquanto as remessas que enviam às suas famílias os latino-americanos que vivem nesse país somam US$ 45 bilhões anuais, segundo o Sela. Por outro lado, os Estados Unidos são destino de bens latino-americanos no valor de US$ 375 bilhões ao ano, a metade das exportações mundiais desde a região. “O impacto para a região será evidente com a contração de todos esses componentes”, disse o dirigente do Sela.
Por isso, para Banuet, “é preferível antecipar uma redução no crescimento econômico da região”, cujo produto interno bruto cresceu nos últimos cinco anos à média de 5%. Organismos financeiros internacionais previam para 2009 crescimento de 4% do produto interno bruto regional, “Mas uma nova previsão deverá ficar em torno dos 3%”, segundo Banuet. “Devemos ser realistas, é preferível antecipar esta situação e a superdimensionar os resultados favoráveis dos últimos anos”, acrescentou.
A região “conseguiu equilíbrios macroeconômicos, com contas externas favoráveis, aumento do comércio e acúmulo de reservas internacionais. Mas, agora, por razões externas, entrará em um ciclo menos dinâmico”, disse Banuet. A crise financeira que estourou nos Estados Unidos representa um problema conjuntural, mas a América Latina e o Caribe é uma região que “tem desafios estruturais aos quais deve destinar esforços substanciais, como aumentar a produtividade e melhorar sua competitividade; definitivamente, entrar na economia do conhecimento com mais decisão e firmeza”, afirmou.
Banuet entende que é “muito difícil prever a duração e a profundidade da atual crise, pois seus vasos comunicantes com a economia real são difíceis de medir, e as políticas aplicadas, sejam as recomendadas pelo governo de George W. Bush ou outras exigirão um período de observação e maturação”. Mas, é certo que a região sofrerá um impacto, por exemplo, com um turismo menor originado nos Estados Unidos, com a contração nesse país de todo o consumo, e a redução do crédito norte-americano deixará menor o financiamento.
Os fluxos comerciais também se ressentirão, disse Banuet, enquanto é previsível – recordou o aforismo de que a economia não é uma ciência exata – que se mantenham as ondas especulativas sobre alimentos e combustíveis, embora diminuindo “em um futuro não distante” devido à desaceleração econômica global. O Sela elabora um estudo sobre os efeitos da atual crise, que estará pronto dentro de semanas, e apresentara aos Estados-membros para que decidam se convocam uma reunião de consulta para examinar medidas de prevenção e cooperação.
“A região deve insistir na necessidade de reformar as instituições financeiras internacionais para que melhorem o acompanhamento dos sistemas bancários e de financiamento no que diz respeito ao seu impacto sobre o resto da economia”, segundo Banuet. Por exemplo, o Fundo Monetário Internacional “teve de alertar com maior insistência e atenção sobre a falta de supervisão, controle e alerta por parte dos órgãos de supervisão financeira dentro dos Estados Unidos, que reagiram tarde”, afirmou.
Na véspera, o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, anfitrião em Manaus de seus colegas Evo Morales (Bolívia), Rafael Caldera (Equador) e Hugo Chávez (Venezuela), criticou o fato de as “instituições que passaram as três últimas décadas dizendo o que deveríamos fazer não tenham aplicado esses ensinamentos em si mesmas”. (IPS/Envolverde)

