REPORTAGEM: Garifunas enfrentam sua própria queda

MIAMI, Honduras, 08/10/2008 – (Tierramérica).- A cultura garifuna, obra-prima da humanidade segundo a Unesco, pode desaparecer, afetada pela privatização das praias centro-americanas.

Mulheres da comunidade de Tocamacho comemorando os 210 anos da chegada dos garifunas a Honduras. - Organização Fraternal Negra Hondurenha

Mulheres da comunidade de Tocamacho comemorando os 210 anos da chegada dos garifunas a Honduras. - Organização Fraternal Negra Hondurenha

“Os garifunas eram os melhores navegadores do mundo”, disse Jermonino Barrios, descalço sobre a areia de uma estreita faixa de praia hondurenha entre a Laguna de los Micos e o Mar do Caribe. Barrios, ex-soldado de 67 anos, fala com orgulho de sua etnia, espalhada por Belize, Costa Rica, Guatemala, Honduras e Nicarágua. “Antes, tínhamos 200 ou 300 garifunas vivendo aqui, agora há apenas uns poucos”, explica ao Terramérica. “Foram para os Estados Unidos e outros lugares trabalhar”, lamenta, lançando um olhar para as cabanas com teto de palha que se erguem, tranqüilas, sob as palmeiras que vêem o quebrar das ondas.

Na tumultuada história da incursão européia no que hoje é a América e o trafico de escravos africanos para estas costas, há poucas peripécias tão comovedoras como a dos garifunas. A gênese deste povo remonta ao ano de 1635, com o afundamento de dois galeões espanhóis carregados de escravos em águas da ilha caribenha de San Vicente. Os africanos que sobreviveram uniram-se a membros da etnia caribe, na época a população dominante em San Vicente. Adotando como língua um idioma ameríndio da grande família arahuaca, a língua dos afrodescendentes acabou gerando a língua que hoje é reconhecida como garifuna.

Embora contenha alguns elementos do francês, bastante diferentes do crioulo falado em ex-enclaves franceses como Haiti e Martinica, e de outras línguas como o espanhol, o garifuna é único, e continua sendo principalmente ameríndio. Por mesclar-se com as etnias locais, freqüentemente os próprios garifunas foram chamados de “caribes negros”. Em 1797, em meio às disputas de franceses e britânicos por San Vicente, os garifunas foram desterrados para a Ilha de Roatan, hoje parte de Honduras, o que causou uma grande mortandade. Quase três mil deles e seus descendentes se deslocaram para território continental e dali se espalharam pelas costas centro-americanas do Caribe, da Nicarágua até Belize.

O primeiro registro de sua existência em Belize é uma carta datada de 1802, contendo uma queixa a um magistrado britânico local sobre a presença de aproximadamente 150 garifunas em um assentamento localizado ao longo do Rio Belize. “A impressão geral entre os magistrados era a de que estas pessoas eram perigosas”, disse ao Terramérica E. Roy Cayetano, membro fundador do Conselho Nacional Garifuna de Belize, em sua casa de Dangriga, um povoado do sul que é centro da cultura desta etnia. Com o passar do tempo, a herança étnica e lingüística única dos garifunas começou a ser vista como merecedora de proteção.

Uma figura importante no desenvolvimento da consciência garifuna foi o jornalista hondurenho Thomas Vincent Ramos, muito influenciado pelo líder nacionalista jamaicano negro Marcus Garvey e seu Universal Negro Improvement Association (Associação Universal para a Melhoria do Negro). Ramos se mudou para Belize no começo do século XX e fundou The Carib Development and Sick Aid Society (Sociedade Caribe de Desenvolvimento e Ajuda aos Doentes), e estabeleceu o Dia de Celebração do Assentamento Garifuna em 1941, que comemora a chegada dessa comunidade às costas deste país.

Mais tarde chegaram outros perigos aos quais os garifunas tentaram fazer frente. Até 1965, não se podia viajar por estrada até Toledo, o distrito mais ao sul de Belize, e agora os motoristas podem optar entre duas estradas. Aldeias como a hondurenha Miami, situada em uma faixa idílica de mar e areia onde os garifunas estabeleceram suas casas, são invadidas por construtores e interesses comerciais e turísticos que buscam cooptar os garifunas e privá-los de seu tradicional estilo de vida. No momento, a aldeia só tem em comum com a enorme cidade turística norte-americana o nome e o Mar do Caribe.

Próximo a Miami, um cartaz afirma que a terra é propriedade do Instituto Hondurenho de Turismo e que ali será construído um centro turístico com praias e campo de golfe. Os moradores do lugar dizem que o governo de Manuel Zelaya há pouco vendeu a terra para empresas construtoras. Nos últimos anos, uma das vozes mais comovedoras em defesa do modo de vida garifuna foi a do músico Andy Palacio, de Belize, falecido este ano. Palacio descreveu a aldeia em uma canção de 2007: “Viajei ao rio perto de Miami/Quando olhei estava cercado por soldados/ Eles pediam meus documentos”.

“Havia muita erosão cultural e idiomática”, conta Cayetano, falando das forças que afastam os garifunas jovens da tradição do modo de vida e da busca pelo sustento na pesca e na agricultura. “Os mais jovens já não aprendem a língua, e os que a falam estão cada vez mais idosos. Temos que lidar com uma economia salarial e suas dificuldades. Parece promissor, porque vemos que as pessoas que têm dinheiro têm poder”, acrescenta. Alguns passos foram dados para frear esta queda. O Conselho Nacional Garifuna de Belize, por exemplo, foi formado no começo da década de 80 para promover e preservar a cultura garifuna nesse país, e há pouco tempo foi essencial para ajudar a construir a Escola Primária Gulisi.

Batizada com o nome de uma heroína que sobreviveu à deportação para Roatan, a escola oferece aulas de língua e cultura garifunas em um programa de estudos mais amplo. Em 2001, a dança, a música e a língua garifunas foram declaradas Obra-Prima do Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Observar a praia de Miami e refletir sobre o futuro dos garifunas faz pensar em um hino local, “Baba” (pai), cuja mensagem parece feita sob medida para os tempos difíceis que este povo enfrenta.

Anihein baba wama, furíeigiwamá lun Wabúngiute Íderalámugawa lídangien sianti Anihei baba wama, furíeigiwamá lun Wabúngiute Dúsuma lámuga wachara ya ubóuogu… O Pai está conosco. Rezemos ao nosso Deus. Que ele pode nos ajudar além do impossível. O Pai está conosco. Rezemos ao nosso Deus. Que nossos males possam ser menores aqui na Terra…

* O autor é colaborador da IPS.

Correspondentes da IPS

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