Rio de Janeiro, 08/10/2008 – Pela primeira vez América Latina e Caribe reunirão seus chefes de Estado e de governo nos dias 16 e 17 de novembro em Salvador (BA), em uma nova tentativa de impulsionar a integração hoje fragmentada em vários processos sub-regionais. Será uma reunião “inédita”, já que antes os mandatários dos 33 países da região apenas estiveram juntos em encontros convocados por organismos entes externos, como a União Européia, destacou o chanceler brasileiro, Celso Amorim, em entrevista coletiva esta semana, ao fim de uma reunião de ministros das Relações Exteriores, preparatória para a reunião de cúpula.
Integração e Desenvolvimento serão os temas centrais, mas a agenda será “ampla” para que os máximos governantes possam incorporar os assuntos de maior relevância que lhes interessarem, desde comércio e cooperação financeira e agrícola até racismo relacionado com as migrações e desastres naturais, acrescentou Amorim. Por sua vez, o chanceler de Cuba, Felipe Pérez Roque, disse que o encontro será o “ponto de partida da construção da unidade da América Latina e do Caribe”, que passarão a “falar com voz própria”, mas, “não poderá ignorar as quatro crises simultâneas que afetam o mundo, que são financeira, alimentar, energética e ambiental”.
Perguntado sobre o que levou o Brasil a propor esta iniciativa de buscar a integração regional através de reuniões de cúpula, em um momento em que a região parece dividida em variados blocos e mecanismos fracassados no passado, Amorim destacou que os processos sub-regionais ou setoriais “revelaram as potencialidades da integração”. A história recente de diferentes iniciativas comprovou que “é possível” e “a necessidade” de uma integração de toda a região, já que “as crises impõem soluções integradas’, embora não seja uma “resposta única”, afirmou.
O chanceler brasileiro deu dois exemplos de como a integração “ajuda a enfrentar a crise”: o Brasil “mitiga” a atual crise financeira desatada nos Estados Unidos com a diversificação de seu comércio exterior e também por abolir o dólar em seu intercâmbio com a Argentina, que a partir desta semana se realizada nas moedas dos dois países. O empuxe comercial do Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai) e dos acordos com outros países da região permitiu ao Brasil colocar na América Latina e no Caribe 26% de suas exportações, em uma evolução contrária à que ocorreu com os Estados Unidos, que absorvia 25% do total exportado e agora só recebe 15%.
“A integração reduziu a vulnerabilidade” do Brasil em relação ao comércio externo, destacou Amorim. Também o intercâmbio com a Argentina em moedas nacionais atenuou a dependência do dólar. Os processos sub-regionais “ganharam densidade” e se revelaram importantes em muitos campos, inclusive no político. A União de Nações Sul-americanas (Unasul) contribuiu para buscar saídas para a atual crise de Bolívia, disse o chanceler, se referindo às sublevações em províncias ricas do leste boliviano e aos temores de golpe de Estado. O Brasil priorizou a América do Sul nos últimos seis anos de governo de Luiz Inácio Lula da Silva, mas “não em detrimento da integração com toda a América Latina e o Caribe”, disse Amorim.
As regiões mais integradas, como Ásia e Europa, tiveram “melhor desempenho” no desenvolvimento, disse, por sua vez, a chanceler do México, Patricia Espinosa, afirmando que seu governo está comprometido a impulsionar uma unidade latino-americana e caribenha que respeite “a diversidade e a pluralidade. Devemos ser mais ambiciosos”, em comparação com os processos de integração regional adotados nos últimos anos. É preciso uma “maior comunicação e coordenação” entre os diferentes mecanismos, atuando com “grande flexibilidade”, afirmou. Segundo Celso Amorim, o mundo hoje se compõe de “grandes blocos”, considerando que Estados Unidos e China devem ser considerados blocos por si só, e não há razão para que América Latina e Caribe não formem outro, com um “produto respeitável” de aproximadamente US$ 4 trilhões ao ano.
O grande desafio da cúpula de Salvador, entretanto, será definir objetivos mais precisos, já que são muitos os interesses e as questões que podem dispersar as discussões. Algumas perguntas dos jornalistas ficaram sem resposta, com questões sobre segurança impostas pela reativação da IV Frota norte-americana cuja presença no Atlântico sul produziu manifestações de preocupação por parte dos governos de Brasil, Argentina e Venezuela, e o fato de muitos acordos entre países latino-americanos ficarem sem efeito por falta de ratificação parlamentar.
O bloqueio comercial imposto por Washington à Cuba, a posição do bloco regional em relação à Organização dos Estados Americanos, a crise do Haiti, além de temas comerciais, com a Rodada de Doha da Organização Mundial do Comércio, onde os latino-americanos apresentaram divisões, são outras questões que ameaçam desviar o foco da reunião de cúpula. (IPS/Envolverde)

