Nova DélI, 17/10/2008 – Apesar do discurso de fortalecer a solidariedade Sul-Sul, os líderes do grupo IBSA (Índia, Brasil e África do Sul), reunidos em Nova Déli, destacaram a contínua importância do Norte para o futuro econômico. Mesmo sendo quando se mostram ferozes ao criticar os países ricos pela atual crise financeira e exigir maior participação nas instituições mundiais, os chefes de governo do IBSA disseram que querem complementar, não substituir, o diálogo com o Norte.
“A cooperação Sul-Sul não pode substituir os compromissos com as nações industrializadas, mas é um complemento à cooperação Norte-Sul”, afirmaram, em um comunicado ao fim da cúpula, os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Kgalema Petrus Mothlanthe, da África do Sul, e o primeiro-ministro indiano, Manmohan Singh. Este ponto parece resumir tanto o dilema quanto as aspirações do IBSA: os três países, como nações em desenvolvimento, criticam as políticas do Norte, mas, apesar disso desejam participar da mesma liga dos ricos.
Ontem reiteraram seu chamado de uma reforma dos órgãos internacionais com a Organização das Nações Unidas, o Grupo dos Oito países mais poderosos e os mecanismos financeiros mundiais. Segundo alguns participantes da cúpula, sua exigência de maior participação nos mecanismos dominados pelo Norte reflete sua crescente autoconfiança e crença de que podem ter um papel maior nos assuntos mundiais. Esta mensagem foi evidente nas declarações de encerramento do primeiro-ministro Singh, quando afirmou que as nações do IBSA “têm um papel-chave para assegurar um crescimento mundial eqüitativo e contribuir para a estabilidade internacional. Nossa voz sobre como lidar com a crise de maneira a não prejudicar nossas prioridades de desenvolvimento deve ser ouvida nos conselhos internacionais”.
A palavra-chave da cúpula foi inclusão, não oposição. “Necessitamos mais do que nunca um renovado esforço para reformar as instituições de governabilidade internacional, seja nas Nações Unidas ou no G-8. Precisamos trabalhar deliberadamente para a conclusão da Rodada de Doha de conversações comerciais em uma forma que sejam promovidos o desenvolvimento e o crescimento inclusivo”, destacou Singh. A idéia de que as nações do IBSA podem levar algo à mesa econômica mundial foi destacada por Kgalema Motlanthe, que no mês passado substituiu Thabo Mbeki na presidente da África do Sul, de forma interina. “Os pilares da estabilidades se encontram potencialmente no sul”, afirmou.
Os líderes do IBSA decidiram instruir seus ministros das Finanças e presidentes dos bancos centrais a realizarem uma reunião para criar um mecanismo de coordenação destinado a resolver a atual crise financeira internacional. “O IBSA está singularmente situado para cooperar nestas áreas tão importantes. Acredito que esta cúpula tenha resultados produtivos em todos os assuntos importantes”, disse o primeiro-ministro indiano. Entretanto, como em quase todos os encontros internacionais, foram os discursos que deram manchete. O mais aplaudido de todos foi o do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva que afirmou que “a irresponsabilidade dos especuladores transformou o mundo em um gigantesco cassino”. Sua pergunta retórica “por que devemos nos converter em vítimas de uma crise financeira criada pelos países ricos?” causou impacto na até então opaca reunião.
O Presidente Lula exigiu a criação de uma nova “arquitetura financeira internacional” e disse que o IBSA é o caminho a seguir. Também destaco o fato de as nações em desenvolvimento não estarem imunes às crises iniciadas no Norte. Assim, os líderes do grupo destacaram a necessidade de uma nova iniciativa internacional para realizar reformas no sistema financeiro mundial. “A nova iniciativa deve levar em conta o fato de que a ética também se deve aplicar à economia, que a crise não é superada com medidas paliativas e que as soluções devem ser globais, garantindo a plena participação dos países em desenvolvimento”, disseram na declaração os dirigentes do IBSA.
“A reforma deve ser feita de tal forma que incorpore sistemas mais fortes de consultas multinacional e supervisão como parte integral. Este novo sistema deve estar planejado da maneira mais inclusiva possível, e tem de ser transparente”, acrescentaram os mandatários. Além disso, afirmaram que não querem frustrar a Rodada de Doha da Organização Mundial do Comércio, apesar dos problemas que têm com os países do Norte. Mas, exigem das nações industrializadas na OMC que “demonstrem mais flexibilidade para atender as preocupações de desenvolvimento, para que os membros possam alcançar de forma coletiva um resultado positivo e voltado ao desenvolvimento dessas negociações”.
Em outras palavras, não rechaçaram a Rodada de Doha nem os mecanismos econômicos mundiais criados pelo Norte, mas cobraram maior flexibilidade dos países ricos e maior aceitação dos pontos de vista do Sul para resolver os temas internacionais. Mas o IBSA não se concentrou apenas em questões econômicas. A declaração conjunta também inclui assuntos como Afeganistão, Sudão, Zimbábue, Iraque, Líbano, o processo de paz no Oriente Médio e a mudança climática. Mas, se houve uma mensagem dominante na cúpula do IBSA foi a de que estes três países querem liderar a causa do Sul, mas sem confrontar com o Norte. (IPS/Envolverde)

