Roma, 20/10/2008 – “Nossa voz deve chegar aos ouvidos dos líderes que nos governam”. Assim a italiana Marina Ponti explica a campanha deste ano do Chamado Mundial à Ação contra a Pobreza (GCAP). Ponti, diretora na Europa da campanha das Nações Unidas para os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, acredita que “levantar-se é um sinal de solidariedade. Isto significa que não podemos ficar sentados diante da pobreza do mundo”. Os Objetivos do Milênio foram adotados em 2000 pela comunidade internacional como uma plataforma para erradicar a miséria e a desigualdade.
“No ano passado fortalecemos o conceito acrescentando GRITE. Nossa voz deveria chegar aos ouvidos dos líderes que os governam. Agora, já não basta ficar de pé e gritar, devemos mostrar nossos esforços através de ações concretas”, acrescentou Ponti em referência ao lema deste ano: “Levante-se a aja”. A quantidade de pessoas que ficaram de pé durante as diferentes edições do “Levante-se” foi crescendo a cada ano. Em 2006 foram 23,5 milhões que participaram e estabeleceram um marco que valeu a entrada no Livro Guiness dos Recordes. No ano passado, com o lema “Levante-se e Grite” foram 43,7 milhões de pessoas.
O objetivo em 2008 é que sejam 67 milhões de pessoas em todo o mundo unindo-se em uma petição única aos seus governos: acabar com a pobreza e a desigualdade com ações efetuadas entre hoje e domingo próximo, coincidindo com o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, comemorado nesta sexta-feira. “Estamos muito otimistas” disse Ponti à IPS. “Conseguir este número de pessoas seria algo que os governantes não teriam como ignorar. Seria a prova da conscientização das pessoas sobre este grave problema. Estou certa de que os cidadãos são muito mais conscientes da pobreza do que os governos”.
A Itália será um dos “locais quentes” no plano de mobilizações do GCAP para o fim de semana. Este país, que em 2007 tinha 7,53 milhões de pobres segundo o Instituto Nacional de Estatística, foi palco de manifestações que reuniram 756 mil pessoas na campanha do ano passado. “O sucesso de Levante, na Itália, deveu-se ao fato de ter sido organizado simultaneamente e se incorporado à Marcha pela Paz Perugia-Assis. Isto devemos também às organizações locais e nacionais”, explicou Ponti. Para Sergio Marelli, presidente da associação das organizações não-governamentais da Itália, “a coalizão italiana dentro do GCAP é muito importante. Mas, o mais importante é a estrutura interna do movimento, composto por mais de 70 ONGs e outras associações. Esta presença nos dá força no âmbito internacional”.
Os motivos do protesto na Itália centram-se nas reduções decididas pelo governo no dinheiro destinado à cooperação internacional. De acordo com Ponti, “A Itália anunciou cortes para a ajuda ao desenvolvimento muito antes do surgimento da crise financeira. Como é um dos últimos países europeus em ajuda ao desenvolvimento, pedimos uma intervenção mais firme, pois uma redução de três anos é uma mensagem muito negativa”. Por essa razão os organizadores italianos da campanha convidam a protestar contra o decreto-lei 112, aprovado em junho pelo governo, que reduziu em 170 milhões de euros (US$ 232 milhões) a ajuda anual aos países em desenvolvimento para o triênio 2009-2011.
Na realidade, o decreto passou por cima da Lei de Cooperação da Itália com os Países em Desenvolvimento, de 1987, que estabelece que a quantia da ajuda deve ser fixada a cada três anos, quando se aprovar o orçamento público. Segundo o site do Ministério das Relações Exteriores, responsável pela gestão da ajuda ao desenvolvimento, a quantia deste ano foi de US$ 1 bilhão. Mas, embora o clamor de tanta gente seja ouvido alto e claro, falta ver quais serão os resultados. Ponti admitiu que “a situação é especialmente preocupante em vista de no próximo ano a Itália assumir a presidência do Grupo dos Oito países mais poderosos. Este passo, marcado por tantas reduções na cooperação, faz com que perca credibilidade”. O G-8 está formado por Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Itália, Japão e Rússia.
Para Marelli, o comportamento dos governos em relação ao problema do desenvolvimento não deve ser analisado em nível mundial, mas individualmente. “Os Estados estão cada vez mais divididos entre os que se escondem atrás da justificativa da negativa situação econômica e os que, por outro lado, continuam ajudando o desenvolvimento”, afirmou Marelli à IPS. “Há países, com França e Espanha, que aumentaram o desembolso para o desenvolvimento; outros, como Alemanha e Grã-Bretanha, os mantiveram. Os países nórdicos, inclusive, chegaram a 0,7% do produto interno bruto”, um compromisso assumido pelas nações ricas há décadas. “Mas a Itália reduziu drasticamente a ajuda. A previsão é ruim. A proporção da assistência ao desenvolvimento com relação ao PIB passará de 0,2% para 0,1%”, acrescentou.
Segundo Marelli, “a atual situação econômica não é justificação suficiente para cortar a ajuda ao desenvolvimento. O governo deve entender de uma vez por todas que o investimento na luta contra a pobreza é um investimento seguro, que apóia um desenvolvimento econômico mais racional e ordenado”. “O dever dos cidadãos é vigiar e observar se a decisão está em consonância com a vontade política do país”. “Exigimos o cumprimento dos compromissos por parte do Estado e a declaração de dissidência política por parte das pessoas”. “Nossa critica é indiferente às maiorias governamentais ou à cor dos partidos políticos. Os italianos são um povo unido e muito sensível a estas questões, um povo sempre disposto a se mobilizar, seja qual for o governo contra qual deve se colocar”, concluiu Marelli. (IPS/Envolverde)

