Havana, 03/11/2008 – O bloqueio econômico dos Estados Unidos contra Cuba, que Washington chama de embargo, voltou a ser alvo de uma condenação majoritária na Organização das Nações Unidas, após campanha na qual a diplomacia cubana se empenhou a fundo O projeto de resolução apresentado por Havana, sob o título “Necessidade de por fim ao bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos da América contra Cuba”, foi aprovado nessa quarta-feira (29) na Assembléia Geral da ONU por 185 votos, três contra e duas abstenções. “Vitória de Cuba na ONU”, disse em seu programa de notícias do meio-dia a televisão estatal cubana, que mostrou imagens do chanceler cubano, Felipe Pérez Roque, sendo cumprimentado pelo resultado da votação.
Washington conseguiu apenas o apoio de Israel e Palau. Ilhas Marshall, que no passado votou contra a proposta cubana, desta vez optou pela abstenção, junto com a Micronésia. A Albânia se somou às nações que pedem o fim da política de restrições econômicas e comerciais norte-americanas em vigor desde 1962. Uma moção semelhante recebeu no ano passado 184 votos favoráveis e quatro contra: EUA, Israel, Palau e Ilhas Marshall, com abstenção da Micronésia. Havana apresentou pela primeira vez este caso na ONU em 1992 com uma resolução que foi aprovada por apenas 59 países. Em seu discurso nas Nações Unidas, Pérez Roque disse que sete em cada 10 pessoas de seu país viveram sob essa política de proibições que afeta todos os aspectos da vida econômica e social de Cuba, com prejuízos estimados em US$ 93 bilhões desde sua implantação.
“O mais cruel do bloqueio é seu impacto na saúde e nas crianças”, disse à IPS Irania Martinez, uma ecologista cubana impedida de viajar aos Estados Unidos para receber um prêmio de US$ 10 mil concedido pela rede de televisão CNN a pessoas que se destacam na proteção e preservação do meio ambiente. O prêmio “era a título pessoal, mas o compartilhamos entre todos e em coisas para o Cepru (Centro Ecológico de Processamento de Resíduos Urbanos). Somos pessoas humildes, e teríamos feito muitas coisas com esse dinheiro, mas, estávamos preparados para não podermos recebê-lo, e o doei ao Unicef”, disse Martínez. O Cepru é um antigo lixão que Martinez, com apoio de gente do bairro vizinho, transformou em um centro ecológico que melhorou as condições de vida da comunidade e onde trabalham mais de 30 pessoas.
Um informe cubano que circulou na sede da ONU em Nova York afirma que entre maio de 2007 e abril deste ano o impacto das restrições na saúde pública foi superior a US$ 25 milhões, em boa parte pela necessidade de comprar insumos, produtos e equipamentos em mercados mais distantes e com fretes mais caros. O texto inclui nomes e endereços de meninas e meninos, entre 2 e 4 anos de idade, afetados pela negativa de empresas como Boston Scientific e Amplatzer de fornecer a Cuba dispositivos para cateterismos e outras técnicas para corrigir defeitos congênitos do coração.
“É uma das tantas provas de que o bloqueio nos priva do beneficio de tecnologias, medicamentos e equipamentos da área da saúde que Cuba não possui. Além disso, impossibilita o intercâmbio científico que seria favorável para os dois países”, afirma Martínez, que há quatro anos perdeu sua pequena filha por causa da leucemia. Em sua opinião, o chanceler cubano desafiou o próximo presidente norte-americano a decidir se admite que o bloqueio é uma política fracassada ou se persiste em sua pretensão de castigar Cuba por ter um regime socialista. Tanto o candidato do governante Partido Republicano, John McCain, como o do opositor Partido Democrata, Barack Obama, disseram que manteriam o embargo, embora com algumas diferenças.
Enquanto o senador McCain fazia prever uma continuidade da política dura mantida pelo presidente George W. Bush, Obama é partidário da flexibilidade e de uma “diplomacia direta”. O senador democrata, apontado como favorito pelas pesquisas, se comprometeu a eliminar as restrições às viagens e ao envio de dinheiro, impostas por Bush em 2004, mas assegurou que o embargo econômico e comercial contra Cuba será uma “alavanca” para obter reformas democráticas neste país.
“Com Obama na presidência se poderia criar condições para eliminar o embargo, com previa aprovação do Congresso, e, acredita-se, para um vínculo normal entre os dois países. Creio que isso facilitaria a democratização da sociedade cubana”, disse à IPS o dissidente Oscar Espinoza Chepe. Para o engenheiro Francisco Gutiérrez, de 30 anos, “o bloqueio é a razão pela qual Havana se nega a permitir determinados direitos civis” e contribui para manter um discurso político baseado na confrontação com “o inimigo”. (IPS/Envolverde)

