LILONGWE, 12/11/2008 – Mulheres que sofrem de fístula obstrética no Malaui recebem cuidados médicos gratuitos para inverter a sua condição durante a Semana da Fístula do país. Crédito: Pilirani Semu-Banda/IPS Entre os dias 12 e 18 de Outubro, o governo do Malaui, com apoio técnico e financeiro do Fundo das Nações Unidas para as Populações (UNFPA), tratou mais de 130 mulheres indigentes que não têm qualquer acesso, ou pouco, a serviços de saúde.
Lausi Adamu, proveniente de Makanjira no distrito lacustre de Mangochi, no Malaui, que não sabe exactamente quantos anos tem, sofre de uma fístula há 25 anos. O seu sofrimento terminou na semana passada, quando recebeu uma operação gratuita para pôr termo ao seu padecimento.
Adamu falou com a repórter da IPS, Pilirani Semu-Banda, sobre a sua vida com a doença quando se encontrava em convalescença no hospital depois da operação.
IPS: Como é que lhe apareceu a fistula?
Lausi Adamu: Foi há 25 anos, quando estive em trabalho de parto durante três dias para dar à luz ao meu primeiro e único filho em casa.
Não recebi quaisquer cuidados médicos durante a gravidez, e apenas a minha mãe esteve comigo durante o parto. Não havia parteira nem médico. Foi um parto muito longo e difícil e o bebé estava morto quando eventualmente nasceu.
Desde essa altura, não consigo controlar a urina e fezes do meu corpo e não tive a coragem para ter outro filho.
IPS: Por que motivo não recebeu cuidados médidos durante a gravidez e o parto?
LA: Para ir da minha aldeia a pé até ao hospital mais próximo demora quatro horas, e nenhum veículo vai para a minha zona porque a estrada se encontra em péssima condição. Portanto, a maioria dos partos ocorre em casa, e as mulheres dependem das mães, sogras ou assistantes tradicionais de parto para as ajudar durante o parto.
Na minha zona, a cultura também exige que o primeiro filho nasça em casa para que os anciãos verifiquem que o marido é de facto responsável pela gravidez. Acredita-se que a maioria das mulheres tem mais do que uma relação imediatamente depois de se casar – portanto as mulheres que ajudam o parto pedem à mulher em trabalho de parto que mencione o (nome) verdadeiro pai do bebé. Acredita-se que, se surgir alguma complicação durante o trabalho de parto, a mulher foi infiel.
IPS: O que á que sabia sobre a fístula antes de lhe aparecer esse problema?
LA: Pensei que estava enfeitiçada, mas todos os outros na minha comunidade pensaram que tinha sido infiel ao meu marido. Era um padecimento muito estranho. A minha mãe levou-me a cinco curandeiros tradicionais diferentes que me disseram que a minha situação era incurável e que devia aceitar viver com ela para o resto da vida.
No entanto, tem havido muitos casos semelhantes na minha zona ao longo dos anos, e a maioria das mulheres foi tratada pelos membros da comunidade da mesma forma do que eu (com desprezo).
No último ano, funcionários do governo e do UNFPA têm visitado a minha zona e realizado encontros com a comunidade onde nos dizem que esta situação tem uma origem médica e que é reparável.
Decidi vir ao hospital para ver se realmente me podem ajudar depois de uma das mulheres da minha comunidade, que tinha um problema semelhante, ter regressado a casa curada depois de ter visitado o hospital.
IPS: Como é que a fístula afectou a sua vida?
LA: Tem sido um pesadelo terrível. O meu marido deixou-me dois meses depois de ter ficado com fístula e a minha mãe morreu pouco depois. Todos os meus parentes, incluindo os meus próprios irmãos e irmãs, me abandonaram.
Tenho vivido uma vida muito solitária já que ninguém queria aproximar-se de mim devido ao cheiro terrível que emanava sempre do meu corpo. Nunca podia participar em reuniões sociais na minha comunidade, nem mesmo os funerais dos meus próprios parentes.
Vendo esteiras que teço como meio de subsistência, mas nunca me aproximo dos meus clientes. Deixo as esteiras à beira da estrada e falo com eles sobre o preço à distância.
IPS: Ainda acredita que a fístula é causada por feitiçaria?
LA: Já não. Depois de ouvir com atenção as reuniões comunitárias realizadas pelo UNFPA e pelo governo e depois da minha visita ao hospital, acredito que a fístula aparece depois de um parto prolongado e difícil, onde a cabeça do bebé faz pressão sobre a bexiga e o recto, causando orifícios. Isso leva a mulher a passar urina ou fezes ou ambos de forma incontrolável.
Olhando para os últimos 25 anos, concordo que foi isto que realmente aconteceu.
IPS: Há muitos membros da sua comunidade a mudarem de atitude sobre a fístula devido a estes encontros?
LA: É muito difícil alterar as percepções das pessoas porque a maioria de nós não foi à escola. A nossa cultura é forte e não é fácil influenciar as pessoas para se afastarem daquilo em que há muito tempo acreditam.
Claro, existem vários de nós que agora sabem como é que aparece a fístula, mas vai ser necessária muita sensibilização antes de a maioria das pessoas começar a acreditar que a fístula é na verdade uma condição do foro médico.
IPS: Agora que as mulheres com fístula podem ter acesso a tratamento médico, que outros desafios enfrentam?
LA: O pessoal médico que efectua a operação é do sexo masculino e, uma vez que a minha comunidade é muito tradicional e conservadora, a maioria das mulheres não está disposta a ser tratada por homens, especialmente porque a condição tem a ver com os órgãos genitais..
Se me tivesse sido dado a escolher, teria optado por ser operada por uma mulher. Contudo, dizem-nos que apenas homens estão habilitados a realizar operações à fístula, portanto não temos qualquer escolha.
IPS: Vai desempenhar um papel para educar as pessoas na sua comunidade acerca da fístula?
LA: Tive uma fístula durante muito tempo e sofri uma tortura inimaginável com este problema. Conheço os sentimentos horríveis com os quais que as mulheres com fístula têm de viver.
Quando regressar a casa, vou encorajar as mulheres com fístula a irem procurar auxílio médico. Também irei apoiar os partos nos hospitais e tentar mudar o pensamento das pessoas. A melhor forma de evitar a fístula é encorajar as mulheres grávidas a procurarem cuidados antes do parto e a darem à luz no hospital.
IPS: Acha que as organizações que trabalham no sentido de lutar contra a fístula estão a fazer o suficiente?
LA: Estão a fazer o seu melhor. Mas, à parte das organizações humanitárias, precisamos também que o governo nos ajude a reduzir a pobreza, porque agora compreendo que a fístula ocorre principalmente entre os pobres.
Para as comunidades como aquela de onde venho não é fácil ter acesso a cuidados de saúde adequados e a boas estradas porque na sua maioria são pobres. Também precisamos de educação para que possamos compreender os problemas e libertar-nos de crenças tradicionais perniciosas.

