Harare, Zimbábue, 13/11/2008 – Os governos africanos negociam “a cegas” acordos de associação econômica (EPA) para liberar o comércio, sem se esforçarem para informar a população sobre o que discutem, afirmaram especialistas em uma conferência na capital do Zimbábue. “Os políticos devem saber que atuam em representação dos cidadãos e não de si mesmos”, disse à IPS Rangarirai Machemedze, diretor do Instituto de Informação e Negociações Comerciais da África Meridional e Oriental. “Devemos informar as pessoas sobre o que seus governos negociam para elas”, acrescentou em um fórum sobre o estado da economia e as alternativas, organizado na semana passada pela não-governamental Coalizão sobre a Dívida e o Desenvolvimento do Zimbábue (Zimcodd).
“Esta reunia busca, basicamente, dar aos participantes um claro panorama sobre como opera a economia de um país no contexto global. Queremos ajudá-los a entender o mercado internacional”, disse à IPS o diretor da Zimcodd, Dakarayi Matanga. Uma entre milhões que necessitam de informação é Sarah Mwandiyambira, que comercializa mercadorias através da fronteira do Zimbábue para ganhar a vida. Embora tenha ouvido falar dos EPA, destinados a liberar o comércio entre os países africanos e a União Européia, nunca lhe explicaram em que consistem exatamente. Por fim, ficou sabendo. “Isto dá medo. É preciso fazer algo para deter os EPA. Sou uma mulher sozinha que sobrevive com o comércio fronteiriço para enviar meus filhos à escola”, afirmou.
Os EPA são criticados por abrirem muito rapidamente os mercados africanos às importações da UE, destruindo a produção agrícola e industrial local. Também são criticadas suas clausulas para a liberação do setor de serviços e a exigência de igual tratamento por parte dos governos às companhias nacionais e estrangeiras. “Não posso crer que é isto que estão negociando nossos governos em nosso nome”, disse Mwandiyambira. “Acredito que se todos os zimbabuenses forem informados sobre os EPA, os rejeitarão. Vão tirar nossos meios econômicos. Trata-se de um assunto muito sério que, como africanos, estamos tratando superficialmente”, acrescentou.
Outro participante, Sekai Saungweme, consultor em Harare, se mostrou indignado. “É um cenário muito triste. Em que pensava o governo quando os assinou? Por que o fez?”, perguntava. Os EPA foram assinados provisoriamente, e ainda devem ser afinados antes da assinatura final. Machemdze insistiu em que os governos africanos não estão fazendo o que devem. Também culpou a UE por usar manobras de divisão e empregar a tática do garrote e da cenoura nas negociações comerciais. “É um problema colonial. As nações poderosas buscam dividir para reinar. Se um país africano busca financiamento para construir uma represa, respondem que para conseguir o dinheiro devem assinar os EPA.
Machemdze, que assistiu a negociações comerciais nos últimos quatro anos, disse que “as reuniões à meia-noite são algo comum nesses encontros. Os representantes africanos recebem visitas nos quartos dos hotéis e lhes prometem todo tipo de ajuda”. A seu ver, o Zimbábue “deve se desligar do comércio internacional. As pessoas dirão que vivemos em uma aldeia global. Mas qual tem sido o beneficio para a África? Primeiro temos de construir nosso mercado domestico e, depois, o comércio em uma escala que possamos sustentar”. Os países africanos devem fortalecer seus mercados domésticos e em seguida estabelecer vínculos comerciais com gigantes econômicos emergentes, como Brasil e Índia, sugeriu Machemdze. “Pelo menos poderão se identificar com eles e aprender com esses países”, concluiu. (IPS/Envolverde)

