REPÚBLICA DEMOCRÁTICA DO CONGO: O Custo da Guerra

KIGALI, 27/11/2008 – Cem mil pessoas fugiram de casa no Norte de Kivu nas últimas três semanas. Crédito: Eddy Isango/IRIN É dispendioso fazer guerra. Os custos envolvidos incluem não só os milhões de dólares gastos em equipamento militar e em manter um exército, mas também o seu impacto financeiro e psicológico sobre as vidas das pessoas apanhadas no fogo cruzado. Quando os combates ocorrem em sítios onde vivem civis, como acontece na região oriental da República Democrática do Congo, a agricultura, a habitação, os cuidados de saúde, os negócios e a educação são interrompidos no conflito armado, e os efeitos a longo prazo na região do Norte de Kivu têm sido devastadores.

Immacule, de dez anos, chegou ao campo de refugiados de Kibati, a 12 quilómetros a norte de Goma, no dia 27 de Outubro, depois da sua família ter fugido da aldeia com receio de ataques dos rebeldes liderados por Tutsis.

Diz que sente a falta da escola. “Quero que o governo nos traga a paz para nós para que eu possa regressar a casa e voltar para a escola”.

Desde que os combates recomeçaram em Agosto entre o Congresso Nacional para Defesa das Populações (CNDP) e o exército congolês, 250.000 pessoas ficaram deslocadas na região do Norte do Kivu.

Nas últimas três semanas, 100.000 pessoas foram forçadas a abandonar as suas casas, 60 por cento das quais crianças, de acordo com um comunicado de imprensa da UNICEF.

As crianças enfrentam problemas imediatos a nível de saúde e segurança, como subnutrição, malária e cólera. Estão em risco de violência sexual, abuso e recrutamento nos grupos armados, problemas com que as crianças se deparam em crises semelhantes.

E também estão a perder uma educação estável. “O ano lectivo acabou de começar… Esta situação está a interromper a educação de milhares de crianças. Não conseguem crescer e desenvolver as suas capacidades intelectuais por causa do conflito,” declarou Jaya Murthy, porta-voz da UNICEF.

Os novos combates no Norte de Kivu também impedem que a ajuda humanitária chegue àqueles que dela precisam.

Fugindo de casa com apenas aquilo que podem transportar, os refugiados não têm comida, água e material médico adequado.

O Dr. Jo Lusi trabalha num hospital em Goma. Afirma que é difícil prestar cuidados médicos e de saúde apropriados a populações passageiras em situação de segurança frágil.

“Esta semana, um médico encontrava-se num campo a realizar uma cesariana numa mulher grávida. No meio da operação, um rebelde matou-o a tiro. A mulher, com a barriga meia aberta, foi levada a toda a pressa para o hospital, onde tive de continuar a operação. Estas não são condições em que se possa tratar as pessoas.”

Justine Mesika é uma activista dos direitos das mulheres na Synergies des Femmes, organização vocacionada para os direitos das mulheres sediada em Goma. Afirma que as mulheres sofrem o maior impacto do conflito armado visto que, para além do perigo de serem mortas ou feridas nos combates, também correm o risco de serem violadas e submetidas a violência sexual.

“Desde o início destas hostilidades, as mulheres têm sido as mais afectadas. São torturadas pelo trauma psicológico daquilo que lhes aconteceu muito depois de ter passado a situação.”

A actividade diária comercial também pára abruptamente, já que os proprietários das lojas e os clientes têm medo de sair de casa. Mama Bahati, mãe de sete filhos, possui uma loja de roupa em Goma com o marido. “Temos um grave problema para vender as nossas mercadorias. Não tem havido clientes desde a última semana porque toda a população tem medo de ir à rua.”

Bahati exige que o governo leve todas as partes envolvidas no conflito à mesa das negociações para que possa continuar a explorar a sua loja.

Um frágil cessar-fogo que se manteve apenas durante uma semana entre os rebeldes e o governo eclodiu em novos confrontos, levando milhares de refugiados a fugir para o campo de Kibati.

O conflito fez deslocar mais de um milhão de pessoas desde o fim das duras guerras civis no Congo em 2003. Acredita-se que ambos os lados estejam a financiar os seus soldados explorando ilegalmente as vastas riquezas minerais do país, o que não lhes dá qualquer incentivo financeiro para suspender os combates.

Stephanie Kale

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