AGRICULTURA: Feiras Comerciais de Meios de Produção Agrícola na Suazilândia Desiludem

MBABANE, 27/11/2008 – As experiências dos agricultores suazis com os subsídios agrícolas revelam um grande contraste com as do Malawi. Crédito: Mantoe Phakathi/IPS Mary Ntshangase está sentada debaixo de um grande guarda-sol – com um pacote de feijões numa mão e um pacote de amendoins na outra – atraindo clientes para a sua banca. É uma das vendedoras que expõem as suas mercadorias na feira comercial de meios de produção agrícola em Matsanjeni, na região do Lubombo, no leste da Suazilândia, devastada pela seca.

Cerca de 30 bancas, vendendo sementes de amendoim, feijão, abóbora, feijão mung, feijão-frade, sorgo, caules de mandioca e folhas de batata doce, formam um círculo em redor da arena. A maioria dos vendedores são mulheres, algumas com bebés às costas, gritando o mais alto possível para tentar atrair a atenção dos clientes.

Conspícuas faixas publicitárias apontam para os stands bem decorados de sólidas companhias como a Pannar e a Farm Chemicals, que parecem atrair mais clientes. Estas companhias oferecem brindes como regadores e foices. As grandes companhias também vendem adubos, algo que os pequenos vendedores não têm.

Os comerciantes de produtos necessários à agricultura visitaram 24 comunidades em todo o país durante o mês de Outubro, vendendo os seus produtos a agricultores de subsistência. Embora pareça que o negócio corre muito bem aos vendedores na feira comercial, Ntshangase não está muito satisfeita com o negócio do dia.

“Hoje o mercado não está grande coisa,” afirma Ntshangase, de 56 anos. “No ano passado, muitas pessoas compraram, o que não está a acontecer hoje.”

No último ano, conseguiu um lucro de cerca de $1,666 a vender leguminosas e sementes de sorgo nas diferentes feiras comerciais que se realizam por todo o país. Este ano, afirma, não deve conseguir sequer metade daquele valor.

“Também mais mulheres se aperceberam que existe a oportunidade de vender estes produtos, facto que também reduziu o mercado,” refere. “Mas estou feliz com o facto de as mulheres se autonomizarem economicamente através destas feiras comerciais.”

Centenas de agricultures de Matsanjeni e zonas circundantes fazem fila nas diferentes bancas para comprarem sementes e adubos. No total, 564 agricultores pobres têm uma senha no valor de $72 cada um para comprar estes meios de produção.

Mas, além dos compradores, também existem dezenas de pessoas carrancudas que estão paradas com os olhos fixos no chão como se o mundo as tivesse encurralado. Estes espectadores são agricultores que este ano ficaram de fora da feira devido a cortes de financiamento.

Ntshangase está preocupada com a drástica redução do número de beneficiários das feiras comerciais de meios de produção agrícola por parte da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO). A FAO patrocina agricultures pobres de subsistência nas zonas rurais mediante esse tipo de produtos para tentar lutar contra a fome no país.

No ano passado, de acordo com o representante nacional da FAO, Khanyisile Mabuza, 50.000 agricultores beneficiaram do programa; este ano, apenas 4.888 irão receber as cobiçadas senhas. Mabuza afirma que este ano a FAO não conseguiu atrair o apoio de doadores para o programa, forçando a organização a procurar $500.000 ao seu próprio bolso. Este é um valor bem distante dos 3 milhões de dólares gastos no ano passado – tendo a Comissão da União Europeia para a Ajuda Humanitária contribuído $1.5 milhões e sendo a outra metade proveniente do Fundo de Emergência Central das Nações Unidas.

O financiamento contínuo deste programa continua a ser incerto.

“Este programa existe há cinco anos e os patrocinadores acham que, por esta altura, os agricultures deviam ser capazes de se sustentarem,” declara Mabuza.

Contudo, não parece que os agricultores de subsistência suazis consigam sobreviver sem necessidade de ajuda dentro em breve. A maioria dos agricultores neste programa não tem nada a mostrar por serem beneficiários dos meios de produção agrícola ao longo dos anos. Segundo o principal representante da zona, Bomber Dlamini, continuam tão vulneráveis como antes porque vendem ou consomem esses produtos.

Por causa da insegurança alimentar prevalecente no país, onde 260.000 pessoas dependem da ajuda alimentar, a maioria das pessoas quer auxílio imediato para a fome. Algumas pessoas chegam ao ponto de remover os químicos de sementes tratadas por meio de lavagem para as poderem cozinhar.

A Drª. Nomcebo Simelane, leitora e investigadora do departamento de geografia, ciências do ambiente e planeamento da Universidade da Suazilândia, alerta contra o considerar como agricultores todos quantos vivem nas zonas rurais. Algumas pessoas que residem nas zonas rurais nem sequer vivem da agricultura mas estão empregadas ou são dependentes de familiares que estão a trabalhar.

“É apenas o destino que dita que elas vivam nas zonas rurais e sejam pobres,” afirma a Drª. Simelane. “A maioria dos pobres trabalha nas fábricas nas cidades e depois sustenta as famílias em casa.”

A Drª. Simelane refere que a falta de identificação de pessoas realmente interessadas na agricultura pode ser o motivo pelo qual alguns destes produtos vão parar à panela.

A FAO diz que as pessoas que beneficiam dos produtos necessários à agricultura são seleccionadas através de dirigentes comunitários que olham para a sua vulnerabilidade e o “seu interesse na agricultura.” Diz que a maioria dos beneficiários é do sexo feminino porque constituem um elevado número dos pobres nas zonas rurais.

Embora o milho não se desenvolva bem em alturas de seca, a maior parte dos agricultures continua a insistir que quer cultivar milho.

Mas o secretário principal no Ministério da Agricultura e Cooperativas avisa firmemente os agricultores da região do Lubombo, devastada pela seca, que não adiram ao alimento básico do país.

O Dr. Robert Thwala diz que o sorgo é a cultura ideal para zonas secas e insta os agricultures a utilizarem as suas senhas prudentemente investindo, numa cultura que lhes traga elevados rendimentos.

Este ano a FAO acredita ter encontrado uma solução.

“Dissemos a todos os comerciantes que não trouxessem milho para esta feira comercial,” conta Mabuza

Mas não é tão simples.

Embora se diga aos agricultures que devem plantar culturas que toleram a seca prevalecente na região do Lubombo, estas culturas por vezes também não medram. O calor tórrido, segundo Cedusizi Ndlovu, deputado da zona, destrói até as culturas mais resistentes como sorgo e leguminosas.

“Na ausência de humidade, nada pode germinar,” aponta Ndlovu. “A única solução para este problema é a construção de barragens para armazenar água dos rios para que as pessoas possam irrigar as suas culturas.” Minah Mbuli (62), beneficiária deste programa, partilha dos mesmos sentimentos de Ndlovu, defendendo que é demasiado cedo para pensar que tem sorte depois de obter a senha antes de a chuva decidir a sua sorte.

“No ano passado plantei sorgo e batata doce e não obtive qualquer rendimento porque estava demasiado quente – foi tudo destruído pelo sol,” conta Mbuli.

O programa das feiras comerciais de produtos agrícolas não oferece uma solução holística aos problemas enfrentados pelos agricultores de subsistência rural, a quem faltam até os meios de amanho da terra associados à agricultura. É dispendioso alugar tractores, ao passo que os preços dos meios de produção agrícola subiram em flecha, deixando os agricultores sem dinheiro para comprar adubos e ferramentas. Um saco de 50 kg de adubo custa $65 na feira comercial, enquanto cada agricultor recebe apenas $72. O resto do dinheiro não é suficiente para comprar sementes e pesticidas.

É assim que a maior parte dos agricultures regressa à estaca zero.

Mantoe Phakathi

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