DESENVOLVIMENTO: Crise acende cobranças na cúpula de Doha

Doha, 03/12/2008 – A mais grave crise financeira mundial desde os anos 30 torna urgente a criação de pacotes de estímulo econômico maciços, coerentes e vinculados com as exigências do desenvolvimento sustentável dos países do Sul, segundo economistas da Organização das Nações Unidas. Os especialistas divulgaram ontem os dados preliminares de seu informe “A situação econômica mundial e as perspectivas de 2009”, que será publicado em janeiro. A divulgação foi feita durante a Conferência Internacional de Acompanhamento sobre Financiamento para o Desenvolvimento, que termina hoje em Doha, capital do Qatar. O primeiro capítulo do informe exorta por “profundas reformas no sistema financeiro” para enfrentar “a débâcle sincronizada mundial” e pede urgência no estabelecimento de uma governabilidade econômica global para impedir tremores futuros.

Os países industrializados podem entrar em profunda recessão no próximo ano, causando uma queda da produção do Sul em desenvolvimento para 2,7% anuais, nível que não permitiria manter os esforços nacionais, regionais e mundiais para a redução da pobreza e nem para garantir a estabilidade política, diz o estudo. Em edições anteriores deste informe anual, a ONU alertou reiteradamente que o “aparentemente robusto crescimento” dos últimos anos apresentava enormes riscos, recordou o diretor do Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais das Nações Unidas, Rob Vos.

“O fato de analistas e políticos expressarem alarme pelo alcance da crise evidencia não apenas uma grande subestimação das causas subjacentes e fundamentais da crise, mas também um excesso de fé na capacidade dos mercados financeiros para se auto-regularem”, diz o documento. Os economistas da ONU apontam pelo crescimento dirigido a “uma forte demanda consumidora dos Estados Unidos, estimulada pelo crédito fácil e sustentada pelo auge imobiliário, pelas muito altas taxas de demanda de investimento e pelo forte crescimento exportador de alguns países em desenvolvimento, notavelmente a China”.

O custo do crédito externo cresceu abruptamente para os países em desenvolvimento, e o fluxo de capital está se revertendo. Os preços dos produtos básicos também caem, o que afeta o crescimento das exportações e a balança de pagamentos de muitas nações, que ficou no vermelho. O dólar se valorizou com a crise, enquanto as moedas de vários países em desenvolvimento, em particular os exportadores de matérias-primas, caíram em relação à moeda norte-americana desde meados do ano. O dólar se fortaleceu como conseqüência do pacote de resgate oficial aprovado pelo Congresso dos Estados Unidos a pedido do Poder Executivo para as companhias em perigo e da busca pelas firmas de investimento de refúgio seguro nos ativos desse país.

Mas Vos previu que este fortalecimento do dólar será temporário, e que persiste o risco de um “pouso forçado” em 2009, ou depois. A criação de empregos será significativamente mais difícil na maioria das regiões durante o próximo ano. Os políticos deverão se concentrar em impedir uma queda abrupta do crescimento econômico em seus países, afirmam especialistas. A África sofrerá redução nos preços das matérias-primas e em suas exportações. O crescimento da Ásia oriental será afetado pela diminuição da demanda mundial e pela contração do crédito.

Os refluxos de capital e a decrescente confiança dos investidores vão dificultar o crescimento da Ásia meridional. A queda dos preços do petróleo afetará as perspectivas de crescimento do mm. O crescimento da América Latina e do Caribe também diminuirá acentuadamente em 2009. Os economistas da ONU vêem na crise uma oportunidade para criar uma nova arquitetura financeira internacional que melhore a participação dos países em desenvolvimento.

O informe identifica a necessidade de criar um “mecanismo crível e efetivo” de coordenação política que guie a revisão da estrutura e de funções do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial, hoje dominados pelos Estados Unidos e pela União Européia. Também promove reformas fundamentais dos sistemas existentes de regulamentação e supervisão financeira, que devem chegar – segundo os autores – à criação de um contexto novo internacionalmente coordenado que contenha os excessos do passado.

Os economistas da ONU também propõem a revisão do atual sistema internacional de reservas, com a criação de um de caráter multilateral, com multiplicidade de divisas, de modo a enfrentar a dependência quase exclusiva com relação ao dólar norte-americano. Além disso, cobram “reformas do sistema de liquidez e dos mecanismos compensatórios financeiros, apoiados por um pool multilateral e regional de reservas estrangeiras de divisas, evitando a onerosa política de condicionalidade”. O secretário-geral-adjunto da ONU para o Desenvolvimento Econômico, Jomo Kwame Sundaram, considera que existe vontade de conseguir um consenso para essas reformas na conferência de Doha.

A União Européia e o Grupo dos 77, expressão do Sul em desenvolvimento na comunidade internacional, “estão dispostos a aceitar o rascunho do documento, que estabelece uma série de medidas, incluído o chamado para uma cúpula da ONU para responder à crise”, afirmou Sundaram. Mas, há uma grande resistência por parte dos Estados Unidos, segundo participantes da conferência. Nas últimas três décadas, as nações em desenvolvimento que pegavam dinheiro no Banco Mundial e no FMI foram obrigadas por essas instituições a desregular seus mercados financeiros e trabalhistas, privatizar indústrias nacionais, abolir subsídios e reduzir o gasto público na área social.

Hoje, em meio à pior crise financeira internacional desde o final dos anos 30, os governos do Norte industrial que controlam essas organizações multilaterais lançaram um programa maciço sem precedentes de intervenção governamental, nacionalização de bancos, subsídios maciços para empresas em quebra e regulamentação do setor financeiro. “Este duplo discurso é inaceitável”, disse Roberto Bissio, da rede da sociedade civil Social Watch. “O sistema inanceiro, sua arquitetura e suas instituições deveriam ser completamente repensadas”.

Apenas um enfoque baseado nos direitos humanos pode por fim à atual crise, segundo mais recente informe da Social Watch, apresentado ontem em Doha sob o título “Os direitos são a resposta”. Os “direitos humanos devem ser o ponto de partida, e não alguma meta distante futura. Um enfoque do desenvolvimento baseado nos direitos deve ser o princípio-guia”, diz o estudo, que menciona a igualdade de gênero e o trabalho decente entre os fatores-chave. Social Watch também cobra a convocação pela ONU de um processo exaustivo e inclusive de revisão e reconstrução das instituições financeiras e monetárias internacionais, uma demanda que se tornou conflitiva nas negociações em curso em Doha. (IPS/Envolverde)

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