Mérida, México, 04/12/2008 – Mais malária, diarréia e asma. Doenças como estas e outras se multiplicam no mundo devido à destruição dos habitats e matam a cada ano cerca de três milhões de crianças menores de 5 anos e dois milhões de adultos. “A evidência cientifica sobre o impacto do meio ambiente na saúde é crescente, mas falta maior cooperação internacional e esforços locais para derivarem em políticas públicas, e para isso estamos aqui”, disse à IPS o chileno Carlos Corvalán, pesquisador e assessor da Organização Pan-americana de Saúde (OPS).
Corvalán participa junto com cerca de 600 acadêmicos, cientistas, funcionários de governo e membros de organizações sociais de aproximadamente 82 países do Fórum Internacional Ecosaúde, que acontece em Mérida, encravada na península mexicana de Yucatán. Desde segunda-feira, durante cinco dias, o grupo debate a relação entre meio ambiente e saúde. “Estamos aqui para expor novas evidências e descobertas, essas são as armas com as quais podemos ir aos países desenvolvidos e demandar o dinheiro e o apoio que necessitamos, mas também para exigir que se somem aos esforços”, disse à IPS Marilyn Aparicio, especialista do estatal Programa Nacional de Mudança Climática da Bolívia.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, devido à água contaminada e a um saneamento deficiente, mais de 1,6 milhão de crianças morrem vítimas de diarréia por ano. No mesmo período falecem quase um milhão de menores por doenças respiratórias agudas vinculadas ao fato de em suas casas se usar lenha para cozinhar. A mesma agência indica que a contaminação atmosférica causa aproximadamente dois milhões de mortes prematuras de adultos ao ano. Vinte e quatro por cento da carga de morbidade mundial se deve à exposição a riscos ambientais evitáveis. Mais de 33% das doenças que afetam as crianças, que são as mais vulneráveis, estão ligadas a problemas do meio ambiente.
Mercedes Pascual, professora de biologia da Universidade de Michigan (EUA) que investiga a incidência da malária vinculada a mudanças de temperatura no altiplano africano, disse no fórum que essa doença transmitida por espécies do mosquito anopheles aumenta de forma proporcional à elevação da temperatura. A temperatura não é o único fator que dispara a malária, mas os dados indicam que tem uma clara incidência, disse Pascual, esclarecendo que há outros fatores associados que não devem ser esquecidos.
O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) alerta em um informe que a perda de florestas, a construção de estradas e represas, a dispersão das cidades e a contaminação das águas costeiras definem condições que propagam novos e velhos patogênicos, bactérias, vírus e microorganismos que causam doenças. Um estudo da Universidade norte-americana John Hopkins afirma que com o aumento de 1% no desmatamento no Peru aumentou a quantidade de mosquitos transmissores da malária em 8%. Essa pesquisa diz que os insetos se “desenfreavam” depois da destruição de 30% a 40% da floresta. Os mosquitos podem transmitir mais de cem vírus, entre outros, da dengue, febre amarela, encefalite e febre hemorrágica.
O Pnuma cita pesquisas nas quais se afirma que os buracos pouco profundos deixados pelos mineiros em busca de pedras preciosas no Sri Lanka são criadouros ideais para os mosquitos e, portanto, epicentros da malária. “Os países desenvolvidos são os principais responsáveis pela mudança climática com seu consumo desenfreado e por isso devem assumir sua responsabilidade e apoiar o Sul em seus esforços para recuperar os danos que causam em nossa saúde”, disse a boliviana Marilyn Aparicio. Após a posse, em janeiro, do novo governo norte-americano de Barack Obama, “esperamos que esse país mude de atitude e responda”, acrescentou.
A OMS indica que “mais da metade da carga que supõe a contaminação atmosférica para a saúde humana recai sobre as pessoas das nações em desenvolvimento”. Para Corvalán, da OPS, a crise financeira internacional em marcha pode ter impacto na disposição de fundos para pesquisas e programas sobre saúde e meio ambiente. “Muitos a vêem assim porque agora nos cabe sermos criativos e atuar nos países em desenvolvimento”, afirmou. A reunião da Ecosaúde é organizada pelo não-governamental Centro Internacional de Pesquisas para o Desenvolvimento, do Canadá, junto com a OPS e o estatal Instituto Nacional de Saúde Pública do México. (IPS/Envolverde)

