Madri, 21/01/2009 – O Laboratório de Ação Contra a Pobreza Abdul Latif Jameel (J-Pal), do Instituto Tecnológico de Massachusetts (MIT), recebeu ontem prêmio de 400 mil euros (US$ 520 mil) por aplicar um método cientifico para avaliar a eficácia das ajudas ao desenvolvimento. O prêmio foi instituído pela Fundação BBVA, do espanhol Banco Bilvao Vizcaya, e é um dos oito que concederá anualmente, com igual valor, num total de 3,2 milhões de euros, que o converte no segundo prêmio mundial mais importante, depois do Nobel, que soma 6,6 milhões de euros ao ano. J-Pal foi criado em 2003 pelos economistas Abhijit Banerjee, Esther Duflo e Rachel Glennerster, e sua tarefa na prática consiste em medir os efeitos dos fundos destinados pelos países em áreas como educação, saúde e mercados financeiros, aplicando técnicas semelhantes às usadas nos testes de medicamentos e vacinas. Na divulgação do ganhador, o membro do júri e diretor do Departamento de Economia e Empresa da Universidade Pompeu Fabra, da Espanha, José García Montalvo, explicou o sistema utilizado pelo laboratório premiado.
A notícia foi recebida via telefone por Duflo, pesquisadora do MIT e especialista em desenvolvimento na Índia, que nesse momento estava em Nova York. O laboratório aplica os métodos denominados “ensaio aleatório”, semelhante ao usado nos testes de novos remédios e vacinas, que consiste em medir e comprovar o que ocorreu diante do que teria ocorrido se essa situação não fosse realizada.
Na prática deu exemplo. Primeiro, disse, “na cooperação ao desenvolvimento é necessário o conhecimento para avaliar as políticas e um exemplo é tentar responder a seguinte pergunta: se com um dólar por dia pode-se salvar a vida de uma criança, o que foi feito com os US$ 2,7 bilhões dedicados à ajuda ao desenvolvimento desembolsados entre 1960 e 2008?”. A outra pergunta, acrescento, é ”se um mosquiteiro custa US$ 4, como é possível não contarem com mosquiteiros todas as famílias pobres da África?”. García deu outros exemplos.
Um é o efeito da quantidade de alunos sobre o aprendizado. Para isso é preciso saber se aulas com mais estudantes produzem, ou não, melhoria no ensino. Se a resposta é sim, valeria a pena, pois como o mesmo salário dos professores haveria mais jovens educados, mas isso é preciso comprovar na realidade. Outro é o efeito do consumo de vitaminas por parte dos trabalhadores em sua produtividade, pesquisando se o custo das mesmas é recompensado com os resultados obtidos de maior produção. O terceiro exemplo se refere aos interesses dos créditos outorgados para projetos de desenvolvimento, avaliando se promoveram ações que, pelo menos, tenham produzido benefícios superiores a esses interesses.
Além de agradecer, Dufflo informou que atualmente o MIT desenvolve uma centena de projetos de ajuda ao desenvolvimento e que ela é responsável pelos realizados na Índia, dos quais mencionou um para melhorar a atuação policial e outro sobre microcréditos. Perguntada pela IPS sobre o destino dos US$ 2,7 bilhões de ajuda ao desenvolvimento, Dufflo disse que “é muito difícil responder. Teria sido pior se não se gastasse esse dinheiro, mas, deveria ter se gastado melhor e feito algo mais útil”.
A esse respeito, Montalvo disse que até há pouco não se contava com técnicas para medir a eficácia real dessa ajuda, mas agora com as ferramentas do MIT se marcou “um antes e um depois” em sua avaliação. A aplicação do sistema do MIT obriga os diretores e avaliadores da cooperação “estarem no campo de trabalho e não em seus escritórios”, o que, a seu ver, permite uma avaliação mais efetiva. Este tipo de acompanhamento se fará em grande escala e um dos fatos que as impulsionará é a doação do governo espanhol de 10 milhões de euros (US$ 13 milhões) ao Banco Mundial para financiar esse tipo de avaliação. Essa contribuição é a maior recebido pelo Banco para essas atividades.
Paralelamente à entrega do prêmio, a organização não-governamental Intermon Oxfam divulgou um informe demonstrando que os países em desenvolvimento não estão nos objetivos primários das nações ricas. Estas, segundo o informe, injetaram mais de US$ 4 bilhões para salvar suas economias, quase o dobro da ajuda mundial para o desenvolvimento (AOD) em meio século e 27 vezes mais do que se precisaria em um ano para concretizar os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, aprovados em 2000 na Organização das Nações Unidas.
O júri que concedeu o prêmio foi presidido por Mark Rosenzweig, da Universidade de Yale (EUA) e integrado por Jonathan Morduch, da Universidade de Nova York; Norman Loayza, do Banco Mundial; Jonathan Temple, da britânica Universidade de Bristol, e García Montlavo. A Fundação BBVA centra seu trabalho no apoio à geração de conhecimento, à pesquisa científica e ao fomento da cultura, bem como em sua difusão à sociedade. Entre suas áreas preferenciais estão as ciências básicas, biomedicina, ecologia, biologia da conservação, ciências sociais, criação literária e música. (IPS/Envolverde)

