UE: João Paulo II, pai fundador da Europa unificada

Bruxelas, 05/04/2005 – A consolidação e ampliação da União Européia foram produto de duras negociações, inspiradas, segundo altas figuras do bloco, pela pregação do falecido papa João Paulo II. O presidente da Comissão Européia (órgão executivo da UE), José Manuel Durão Barroso, manifestou seu "profundo sentimento" pelo falecimento do pontífice, aos 84 anos de idade e 26 de papado. Em sua declaração, Barroso enviou uma "mensagem especial de solidariedade" ao país natal do papa, a Polônia, um dos 10 países que entraram na UE em maio. Ao mesmo tempo, aplaudiu o "papel essencial" do papa na reunificação continental. Nesse sentido, o qualificou de "pai fundador de uma Europa unida".

"João Paulo II será lembrado como alguém que desempenhou um papel essencial na reunificação da Europa e no avanço de idéias de liberdade e democracia para nosso continente. Os europeus nunca esquecerão sua luta pela paz e a dignidade humana", escreveu Barroso. João Paulo II contribuiu com a reunificação das áreas oriental e ocidental da Europa depois da queda dos regimes comunistas no início dos anos 90, segundo funcionários da presidência União Européia, que no atual semestre corresponde a Luxemburgo. "A presidência da UE presta homenagem ao papel reunificador desempenhado pelo soberano pontífice, seu incansável compromisso com os princípios humanistas, a democracia e os direitos humanos", afirmou o escritório de Luxemburgo.

Barroso também destacou o papel do presidente do Parlamento Europeu, o espanhol Josep Borrell, para quem "a visão premonitora" do papa "se converteu em realidade". O máximo responsável pela política externa da UE, Javier Solana, disse: "O mundo – e não apenas os católicos – perdeu um inesquecível líder espiritual, um iluminado pregador da paz e da solidariedade para todos. Nos unamos a este grande espírito europeu de nossos tempos". Prevê-se que cerca de dois milhões de peregrinos de todo o mundo visitem o Vaticano nos próximos dias para darem adeus a João Paulo II. Vários líderes europeus anunciaram sua presenças nos funerais.

Sua morte suspendeu a campanha eleitoral na Itália. Pelo mesmo motivo, o primeiro-ministro da Grã-Bretanha, Tony Blair, adiou por 24 horas, a convocação de eleições gerais para 5 de maio, que deveria ter sido feita nesta segunda-feira. Os partidos políticos representados no Parlamento Europeu aplaudiram os esforços do papa para aproximar as diversas comunidades religiosas do mundo. "Durante décadas, João Paulo II ofereceu incomensurável inspiração a milhões de cristãos de cristãos de todo o mundo. Seu legado espiritual e sua liderança não têm precedentes na história da Igreja Católica", disse Wilfired Martens, presidente do Grupo do Partido Popular Europeu (Democrata-cristãos).

"Seus esforços para incentivar o diálogo mais próximo entre todas as denominações cristãs e sua vontade da abrir o diálogo com outras grandes religiões são apenas pequenos exemplos de sua visão espiritual. O caminho sagrado aberto por João Paulo II não será fácil de seguir", acrescentou Martens. A morte do papa dominou a cobertura da imprensa européia. Muitos órgãos de informação se concentraram no legado do pontífice, mas também surgem críticas à sua figura. Atribui-se a ele papel-chave na queda do comunismo soviético, mas não demonstrou tal abertura para o debate dentro da Igreja Católica, segundo observadores. Alguns atribuem a redução de seu rebanho europeu à sua pregação contra o controle da natalidade e sua conservadora visão da moral sexual.

O jornal francês Liberation disse que João Paulo II se converteu em um "verdadeiro estadista" que deixou um legado tanto político quanto doutrinário. Ao mesmo tempo em que acelerou a queda do muro entre ocidente e o mundo pró-soviético, foi o "grande reconciliador" entre católicos e judeus, acrescentou o jornal. Mas também será recordado como "a encarnação de um pai severo" por sua reiterada condenação da homossexualidade, anticoncepção e aborto e por dar pouca atenção às demandas feministas e "ignorar obstinadamente o flagelo da aids". Por sua vez, o jornal El Periódico, de Barcelona, afirmou que tanto seus devotos seguidores quanto aqueles "quês e sentiram alienados por uma instituição que não os compreendeu" esperam que o próximo papa seja "um construtor de pontes". (IPS/Envolverde)

Stefania Bianchi

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