ZIMBABUÉ: Agora uma 'Fábrica de Pobreza'

HARARE, 28/01/2009 – Crédito: Ephraim Nsingo/IPS Hoje no Zimbabué as rendas são expressas em moeda estrangeira, o que leva muitas pessoas de baixos rendimentos a viverem am bairros de barracas como este em Epworth, fora da capital, Harare. Mais de 75 por cento das pessoas num Zimbabué assolado pela crise vivem em terrível pobreza, sendo as crianças que mais sofrem as consequências. E, uma vez que os partidos rivais continuam a discutir sobre a implementação de um acordo de partilha do poder, provavelmente a situação vai piorar antes de melhorar. Um relatório publicado pela organização Save the Children (SCF) referiu que 10 dos 13 milhões de pessoas que se encontram no ZImbabué vivem em miséria total, lutando por ter acesso a alimentação e a outros bens essenciais. Uma aliança local de organizações não governamentais afirmou que aquela cifra até podia ser mais elevada.

“Muitas crianças não estão a receber educação – cerca de 75 por cento das escolas estatais não estão a funcionar como deve ser porque a maioria dos professores estatais não trabalha, visto que a sua remuneração não é suficiente para sobreviverem e devido ao facto de terem de procurar trabalho ou comida. Muitas das famílias pobres estão a ser obrigadas a mandar os filhos procurar trabalho ou alimentos selvagens e simplesmente deixaram de ter meios para os enviar para a escola,” acescenta o relatório.

O Director de Advocacia e Políticas Públicas da Associação Nacional das Organizações Não-Governamentais (NANGO), Fambai Ngirande, disse que a realidade no terreno é “muito pior do que a representada por estes números e que a situação está a piorar “.

“Trata-se de uma situação em larga medida feita pelo homem, evitável e totalmente desnecessária, resultado de anos de políticas falhadas e das acções egoístas das elites políticas no poder, cujas tendências corruptas e não democráticas pioraram a situação, fazendo aumentar a desigualdade a níveis alarmantes.”

Ngirande referiu que a fome estava agora a obrigar muitas pessoas a recorrerem a medidas desesperadas como a prostituição e o trabalho infantil, enquanto que outras estavam a comer raízes venenosas e frutos selvagens.

Os preços dos transportes em zonas urbanas mudam agora duas vezes por dia, obrigando a maioria dos trabalhadores a permanecer nos seus lugares de trabalho durante a semana e a ir para casa só ao fim-de-semana. Muitos dos trabalhadores profissionais especializados também estão a abandonar os seus empregos e a aceitar trabalhos servis.

Embora os trabalhadores da classe média, como enfermeiros e professores, não consigam sobreviver devido à crise, Ngirande referiu que “os grupos vulneráveis como os idosos, as Pessoas que Vivem com VIH/SIDA, as crianças órfãs, os deficientes e outros são os que sentem maiores dificuldades”.

O Secretário-Geral do Sindicato dos Professores Progressistas do Zimbabué (PTUZ), Raymond Majongwe, disse ser um escândalo a condição de pobreza dos professores.

“Se quiser, posso levá-lo ao terminal de autocarros de Cheziya em Gokwe, e mostrar-lhe um antigo director de escola que é agora um vulgar revisor no terminal,” disse Majongwe, referindo-se a uma desordenada cidade agrícola na Província de Midlands.

Acusou o governo de ignorar de forma deliberada a situação difícil dos professores, que têm sido constantemente apelidados de apoiantes da oposição.

“É tão embaraçoso que as autoridades continuem a declarar que a situação é normal quando o tecido nacional continua a degradar-se. Os vencimentos dos professores desceram diversos pontos abaixo da linha de pobreza.

“Onde é que já se viu um professor que não pode comprar um pacote de leite com o seu vencimento? Vá a qualquer sala de aulas agora; encontrará um professor a vender rebuçados e outros pequenos géneros alimentares para sobreviver; isso não está certo.”

Ngirande afirma que o país está a pagar um elevado custo em termos de desenvolvimento.

“A concorrência desesperada para recursos escassos que foi desencadeada por esta pobreza e desigualdade constitui terreno fértil para conflitos civis e distúrbios sociais, especialmente dada a actual situação politicamente volátil.”

Embora os pobres continuem a mergulhar cada vez mais na pobreza, uma pequena secção da elite zimbabuena está a gozar a sua vida no país. Têm acesso a divisas estrangeiras à taxa de câmbio oficial do Banco Central do Zimbabué por uma bagatela, usando depois essas divisas em negócios na maioria ilegais, como comprar e revender automóveis, e para negociar ouro e diamantes. Aqueles com bons conhecimentos conseguem importar veículos sem pagar direitos, e vendê-los a elevados preços em divisas estrangeiras.

Em Harare não é difícil identificar esta elite. Os seus membros conduzem os carros luxuosos mais recentes, jantam em restaurantes caros como KwaMambo em Avondale, e frequentam clubes caros como o “Room 10” no bairro de luxo de Borrowdale Brooke, onde dispendem centenas de dólares americanos no entretenimento de uma noite.

Mas com um terço das crianças zimbabueanas subnutridas, a deterioração das infra-estruturas de abastecimento de água e de saneamento a despoletar uma epidemia de cólera que já ceifou 2.200 vidas, e a hiper-inflação reconhecida oficialmente em 243 milhões por cento – na realidade muito, muito mais elevada -, os trabalhadores de ajuda humanitária descrevem o Zimbabué como “uma das fábricas de pobreza mais activas do mundo”.

A organização Save the Children afirma que aumentou o seu trabalho nos sectores da educação, saúde, meios de subsistência, protecção e ajuda alimentar.

Terna Gyuse acrescenta da Cidade do Cabo: O dirigente do Movimento para a Mudança Democrática (MDC), Morgan Tsvangirai, regressou ao Zimbabué no dia 17 de Janeiro, após ter passado mais de dois meses nos países vizinhos da África do Sul e do Botsuana. Prevê-se que se reúna com o dirigente da União Nacional Africana do Zimbabué – Frente Patriótica (ZANUP-PF), Robert Mugabe, para reiniciar discussões acerca de um acordo de partilha do poder.

Tsvangirai ficou aquém de uma vitória clara na primeira volta e retirou-se das eleições para a segunda volta face à violência brutal da ZANU. Chegou-se a um acordo para a partilha do poder, mas a sua implementação foi suspensa devido à distribuição de ministérios-chave e ao equilíbrio de poder entre os dois partidos principais.

“O MDC não será forçado a firmar um acordo que não satisfaça as aspirações do povo do Zimbabué,” declarou Tsvangirai ao regressar a Harare.

Ephraim Nsingo

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